1 - Não leia só quadrinhos. Um bom roteirista de quadrinhos lê de tudo: livros, revistas, jornais etc.
2 - Não lei só quadrinho americano ou japonês. Argentina, Inglaterra, França, Itália e Brasil são países que produzem ótimas HQs, que você deve conhecer.
3 - Sempre pesquise. Se sua história é sobre um advogado, pesquise livros jurídicos, pesquise sobre como funciona a justiça. Se for sobre o Egito, procure livros de história.
4 - Não tente contar a história do universo. Comece com histórias curtas.
5 - Faça com que seu roteiro seja agradável para o desenhista. Se for necessário contar uma piada para que a leitura do roteiro seja mais agradável, conte.
6 - Imagine a cena visualmente antes de escrevê-la. Se houver mais de uma ação, divida em mais de um quadrinho.
7 - Produza. Seu texto só vai melhorar se você produzir continuamente.
8 - Use como referência grandes roteiristas, mas aos poucos busque estabelecer um estilo próprio.
9 - Não seja um colonizado. Esqueça Nova York. Faça histórias sobre sua realidade. Se o leitor viver a mesma realidade que você, a identificação será mais fácil.
10 - Seja obetivo. Não encha os balões de texto desnecessário. Nunca diga com o texto algo que o desenho já está dizendo.
quarta-feira, abril 22, 2015
Maria atrás das grades
No início da década de 1970, auge da ditadura militar, a vida não era nada fácil para quem fazia quadrinhos eróticos (ênfase no erótico, em que as situações só poderiam ser insinuadas). Os militares consideravam que o erotismo era uma forma do comunismo internacional destruir a família brasileira.
Na época, um dos maiores sucessos era Maria Erótica, criação de Cláudio Seto e publicada pela editora Edrel. Apesar de ser assediada por todos os homens, Maria era virgem - a ênfase das histórias, com forte influência do mangá, era exatamente o fato do ato consumar (na época Maria nem sequer ficava realmente nua).
A Liga das Mulheres Católicas achou que Maria era comunista (afinal, apesar de ser virgem, ela deixava os homens doidos por ela) e a denunciou aos militares.
Os militares invadiram a editora, em busca do autor, Cláudio Seto, mas este morava no interior de São Paulo e só ia à capital para entregar os originais. Sem poder prender o autor e dar uma satisfação às mulheres católicas, os militares resolverem por uma situação surreal: levaram a própria Maria Erótica presa! Os originais da história foram confiscados e levados para a sede da polícia.
Maria, presa, coitada, só queria amar.
História retirada do meu livro Grafipar, a editora que saiu do Eixo.
terça-feira, abril 21, 2015
O uivo da Górgona
PARTE 1
Edgar
encostou-se à parede do mercado, entre os sacos de salgados e os refrigerantes,
e segurou a respiração. Em seus braços, a menina o olhava, aterrorizada e ameaçava
chorar (oh, Deus, faça com que ela não chore, pensou ele. Não agora).
- Estão
passando. – anunciou Jonas.
Ele podia
ouvi-los. Podia ouvir seus pés arrastando pelo chão de asfalto, os gruninhos
terríveis que soltavam, um ou outro rosnar.
Era como uma maré de ódio, fedor e algazarra se aproximando
assustadoramente da praia.
Era irônico
que para ele tivesse começado tudo com silêncio.
Apesar do quarto com isolamento acústico, que
mantinha todo o barulho lá fora, tinha sido uma noite terrível, repleta de
pesadelos. Em seu sonho havia uma música (não, não era uma música, um barulho,
apenas um barulho) muito, muito alta. E, diante dele, seguia uma procissão de
loucos, como flashes sem sentido. Uma mulher grávida rasgava o próprio ventre,
retirava o feto e o comia. Homens agrediam-se uns aos outros, que agrediam
outros e outros e outros e outros, até que sobrasse apenas uma luta insana.
Quando
acordou, percebeu que a cama estava molhada de suor. O ar condicionado não
estava funcionando.
Sem energia,
pensou ele, enquanto ia ao banheiro lavar o rosto.
De fato, só
percebeu que havia algo errado quando saiu do quarto. Ficou por instante
parado, no meio da sala, tentando descobrir o que havia de estranho, o que
havia de errado. Então percebeu: o silêncio. Não havia barulhos lá fora.
(Estamos sem
energia, pensou ele, é apenas isso, mas uma parte dele dizia que não era só
isso)
Não havia
barulho algum. Nem mesmo um rádio, a vizinha gritando com o filho, nada.
No quintal,
a mesma coisa: apenas o silêncio. Um pássaro aproximou-se, pousou no muro,
olhou para ele, e foi embora, sem emitir qualquer barulho.
Ao sair na
rua, espantou-se ao descobrir que não havia ninguém ali. Olhou no relógio: oito
horas. Nesse horário a rua costumava estar movimentada. Mães que retornando
depois de levar seus filhos no colégio, vendedores, vizinhas fofocando. Mas
não, não havia nada ali. Nenhum barulho, nenhuma pessoa. Como se toda a vida
humana da terra tivesse desaparecido de um momento para o outro.
Duas ou três
casas depois que ouviu o primeiro som, dentro de uma casa de muro alto e portão
fechado. Vidro quebrado. Parecia uma vidraça sendo estilhaçada. O som foi
acompanhado de um urro de dor e depois de outro barulho de vidro. Quem estaria
fazendo aquilo? Alguém deixara cair uma placa de vidro e se machucara no
processo? Mas porque o som continuara?
Edgar
aproximou-se, mas o portão não permitia ver nada lá dentro. Assim, avançou e
dobrou a esquina. Estava apenas de short e camiseta e não tinha a mínima ideia
de porque estava fazendo aquilo, andando na rua, sem destino aparente, mas algo
dentro dele lhe dizia que algo estava muito, muito errado.
(algo está
acontecendo, algo terrível)
Estava se
aproximando do mercado quando viu um grupo de pessoas se aproximando ao longe.
Deviam ser umas vinte ou trinta e andavam lentamente, lado a lado uma com a
outra.
Foi quando
algo pegou em seu ombro.
O UIVO DA
GÓRGONA PARTE 2
Edgar se
virou assustado. Era um homem negro. Este levou o dedo indicador aos lábios e
fez sinal de silêncio, depois puxou-o para o mercado.
- Mas o quê?
– protestou Edgar.
- Silêncio!
O barulho atrai eles. Deus queira que eles não tenham visto você!
- Eles quem?
O homem
negro olhou-o, intrigado.
- Você não
sabe de nada?
(o que, o
que ele deveria saber?, pensou ele, enquanto sua pele se arrepiava)
- Vamos,
entre antes que eles nos vejam.
Lá dentro, uma
menina os esperava, os olhos assustados. Era uma garotinha branca, de cabelos
castanhos claros, quase ruivos. Não podia ser filha do homem que o chamara. A
menina vestia uma saia rosa e uma blusa branca rasgada. Seus cabelos estavam
desgrenhados.
Então ele
ouviu.
O UIVO DA
GÓRGONA PARTE 3
O som fez
com que se assustasse. Era um emaranhado de vozes desconexas, um engasgar
coletivo sem sentido e apavorante.
-
Esconda-se! – ordenou o homem negro.
Edgar
sentou-se, as costas apoiadas na parede do mercado. A menina não parecera ter
ouvido aquele som angustiante, mas quando viu os dois homens se escondendo,
aproximou-se do mais velho e aconchegou-se em seu colo.
(ela está
tremendo, ela está tremendo de medo, pensou ele, o que aquela menina vira?)
Então o som
foi se tornando cada vez mais presente, mais forte e mais assustador. Quantas
pessoas havia lá fora?
O homem
negro estava atrás de uma gôndola e fez novamente o sinal para Edgar, pedindo
silêncio. A menina o olhou, e agarrou a ele.
Ele se
arriscou a inclinar a cabeça e, por entre pacotes de salgadinhos, a imagem do
caos apareceu para ele.
sexta-feira, abril 17, 2015
Artigo sobre a Turma da Tribo
Em novembro do ano passado apresentei um artigo sobre o uso pedagógico da HQ Turma da Tribo VII Simpósio Nacional de História Cultural. Para ler, clique aqui.
Ficção hiper-real
Uma das possíveis divisões da literatura seria entre ficção e não-ficção. A ficção seria composta de obras surgidas da imaginação humana, tais como contos e romances. No outro extremo, estariam obras que tratam de fatos "reais", tais como biografias, livros acadêmicos, históricos... entretanto, cada vez mais surgem livros que testam os limites entre essas duas categorias. Usando o recurso da verossimilhança, eles se tornam hiper-reais e muitas vezes passam a ser vistos como mais reais que a realidade.
O recurso da verossimilhança já era mencionada por Aristóteles em seu livro A arte poética. Segundo o filósofo grego, a verossimilhança não significava que a obra de arte devesse ser real, mas antes parecer real. O dramaturgo deveria convencer o público dessa realidade, por mais fantasiosa que fosse e, quanto mais eficiente nesse sentido, melhor era o resultado. Hoje, nos manuais de roteiro, a técnica também é chamada de suspensão de descrença. O público inicia a fruição da obra descrente de aquilo pode ser real. O escritor habilidoso vai aos poucos minando essa descrença e fazendo o leitor acreditar nos fatos narrados. Exemplo clássico disso foi o Super-homem, cuja primeira página da primeira história se dedicava a fazer uma comparação com os poderes dos animais. Se um gafanhoto poderia pular várias vezes a sua altura, um ser-humano também o poderia, se fosse alienígena. Se uma formiga era capaz de carregar várias vezes o seu peso, um ser-humano especial também o poderia. Estabelecido esse pacto, outros poderes foram sendo introduzidos ao longo do tempo.
Esses recursos, entretanto, podem ser eficientes a ponto de o público confundir o ficcional com o real.
Talvez o primeiro exemplo nesse sentido tenha sido o episódio conhecido no Brasil como "Balela do Balão".
Em 13 de abril de 1844, Edgar Alan Poe publicou no jornal The Sun uma matéria jornalística sobre um aventureiro que estaria cruzando o Atlântico em um balão. Para aumentar a credibilidade da história, o escritor usou até mesmo personagens reais, como o novelista inglês William Harrison Ainsworth. A notícia provocou furor e filas para comprar jornais, que rapidamente se esgotaram, fazendo com que muitas pessoas fossem até a sede do The Sun para comprar seu exemplar.
Discípulo de Poe, H. P. Lovecraft provavelmente se tornou o mais hiper-real escritor de todos os tempos. Sua descrição da mitologia dos velhos deuses, em especial de Cthullu, fez com que muitos acreditassem que seus contos não eram fantasia, mas realidade. O livro Necronomicon, citado em vários textos, foi cercado de tantos detalhes que não só foi tomado como real como, de fato, posteriormente, surgiram várias versões do mesmo. Lovecraft usou a tática de atribuir a autoria do livro a um autor antigo, o árabe louco Abdul Alhazred, criando inclusive sua biografia. Entre os detalhes agregados estavam o de que o livro teria sido proibida pelo papa Gregório IX quando de sua tradução para o latim, em 1232.
Apesar do próprio autor ter declarado diversas vezes que o Necronomicon era uma ficção de sua autoria, muitos acreditaram que ele existia mesmo. Uma dessas pessoas foi o escritor Frank G. Ripel, fundador da Ordem Rosa Mística. No seu livro La Magia Lunar, o autor, apresenta, em castelhano, o que seria o verdadeiro necronomicon, escrito há 4 mil anos, que Abdul Alhazred teria copiada e adulterado. Esse "verdadeiro" necronomicon fundamenta todos os rituais da Ordem. Ou seja: um grimoire ficcional acabou se tornando a base de uma seita real. Uma pesquisa rápida no Google permite encontrar vários Necronomicons à venda e até imagens do livro original - trabalhos feitos por fãs ou aproveitadores que só contribuem para aumentar ainda mais o fascínio sobre o livro fictício e levar mais pessoas a acreditarem que ele de fato existe.
Outra obra que de ficção que foi tida como verdadeira foi O código Da Vinci, de Dan Brown. Antes do início da narrativa, Brown introduziu uma página com o que chamou de fatos:
"O Priorado de Sião - sociedade secreta europeia fundada em 1099 - existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Os Dossiês Secretos, que identificam inúmeros membros do Priorado de Sião, inclusive Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.
A prelazia do Vaticano, conhecida como Opus Dei, é uma organização católica profundamente conservadora, que vem sendo objeto de controvérsias recentes, devido a relatos de lavagem cerebral, coerção e uma prática perigosa conhecida como "mortificação corporal". A Opus Dei acabou de completar a construção de uma Sede Nacional em Nova York, ao custo de aproximadamente 47 milhões de dólares.
Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos, rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade".
Embora não tenha dito que todos os fatos ali descritos eram reais, o autor usou uma estratégia lógica: apresentou diversas premissas, que aparecem no romance, como a existência do Opus Dei e os rituais secretos, como verdadeiros. E deixou para o leitor a conclusão. O leitor, por outro lado, pensou: se todos esses "fatos" são reais e estão no romance, então tudo que nele está também é real. O resultado disso nós vimos na maioria dos veículos de comunicação: matérias e mais matérias sobre Maria Madalena, o Santo Grall e sobre o suposto casamento de Jesus. Por mais que muitas dessas matérias tratassem de desmentir o romance, elas aumentavam o burburinho e o interesse pelo mesmo, fazendo com que aumentasse o roll das pessoas que confundiam ficção com realidade.
Outro que usou o recurso, talvez com mais delicadeza e certamente sem tanto alarde foi Umberto Eco em "O nome da Rosa". Na introdução do volume, intitulada "Um manuscrito, naturalmente", o autor declara que não está apresentando um texto original, mas uma tradução de uma versão francesa do século XIX de um texto de um monge germânico do século XIV.
Segundo Eco, enquanto lia, traduzia livremente o texto, até que o livro lhe foi levado por uma pessoa amada, sem querer, após o fim do relacionamento. O autor conta que consultou medievalistas ilustres, como Etienne Gilson, que não souberam lhe dar informações sobre o tal monge Adso de Melk. Já convencido de que tinha em mãos uma falsificação, ele já desistia de divulgar o texto quando achou, em um sebo da avenida Corrientes, em Buenos Aires, um livrinho de Milo Temesvar que citava diversas vezes o tal Adso.
A exemplo de Poe, Eco cita diversos pessoas e locais reais (a avenida Corrientes, de fato, é repleta de sebos) para dar credibilidade à sua narrativa. Em um pós-escrito, o autor italiano admitiu que seu objetivo com essa estratégia era fruto de pura covardia: ele não sabia como o livro seria recebido pela crítica (já que era seu primeiro romance) e preferiu apresenta-lo como sendo de outra pessoa.
JJ Benítez aperfeiçoou o recurso no livro "Operação Cavalo de Tróia", que conta a história de uma viagem no tempo organizada pelo governo norte-americano à época de Jesus. Benítez argumenta que o texto não é seu, mas é a transposição do diário de um major americano, que teria participado da missão.
A longa introdução do primeiro volume (mais de 50 páginas!) se dedica a narrar como conseguiu o diário em uma trama que mistura decifração de mensagens secretas e espionagem, com o escritor sendo perseguido pelo FBI enquanto tenta retirar os diários do major dos EUA. Se Eco diz que o livro original foi perdido e Lovecraft nos informa que seu original está disponível em algumas poucas universidade (a única nomeada nem mesmo existe), Benítez diz que tem os originais em posse, mas teme o serviço secreto norte-americano, que faria qualquer coisa para impedir a publicação dos livros. Ao final da introdução, faz a ressalva: "antes de passar ao diário propriamente dito, quero deixar assente que meu dever, como jornalista, começa e termina precisamente com a obtenção da notícia. Ao leitor (...) caberá tirar suas próprias conclusões". Esse arremate final, acrescido à toda a trama narrada levou muitos a acreditarem que os diários eram reais e que liam de fato a história de Jesus narrada por quem o conhecera.
No Brasil o exemplo mais famoso provavelmente é o desenhista Francisco Irwenten e seu personagem Capitão Gralha, um dos primeiros, senão primeiro super-herói brasileiro. Iwerten é verbete em enciclopédias, ganhou prêmios, foi objeto de várias matérias jornalísticas e até de artigos científicos e quase se torna enredo de escola de samba. Apesar da popularidade, tanto criador quanto criatura nunca existiram. Ele surgiu em 1997 em um texto publicado na revista Metal Pesado Curitiba. Na época os nove criadores do personagem Gralha haviam imaginado que seria interessante apresentá-lo não como um personagem original, mas como a recriação de um herói clássico, o Capitão Gralha.
Eu fui encarregado de escrever o texto que apresentava o herói clássico e seu criador. Na época acreditei que apenas estava dando verossimilhança à história do Gralha, a exemplo do que fizeram Umberto Eco em O nome da Rosa e Benítez em Operação Cavalo de Tróia. Assim, espantei-me quando a história começou a repercutir como verdadeira (com o surgimento da internet a lenda se alastrou e ganhou inclusive acréscimos, como a de que Irwenten teria estagiado com Bob kane, criador do Batman). O grupo de criadores se dividiu entre os que pretendiam revelar a história e os que achavam que se "deixasse quieto" a história logo sumiria. O dilema durou 17 anos, nos quais a história só se ampliou. Em 2014 a verdade sobre Iwerten e o Capitão Gralha foi finalmente contada em um álbum de quadrinhos e em uma mesa-redonda na Gibicon Curitiba. Mesmo depois da revelação, ainda há quem se recuse a acreditar. Corre agora o boato de que nós roubamos os exemplares das revistas originais da gibiteca de Curitiba para impedir que alguém provasse a existência do Capitão Gralha.
Num mundo em que ficção e realidade se misturam cada vez mais, o boato muitas vezes parece mais real que a realidade.
O recurso da verossimilhança já era mencionada por Aristóteles em seu livro A arte poética. Segundo o filósofo grego, a verossimilhança não significava que a obra de arte devesse ser real, mas antes parecer real. O dramaturgo deveria convencer o público dessa realidade, por mais fantasiosa que fosse e, quanto mais eficiente nesse sentido, melhor era o resultado. Hoje, nos manuais de roteiro, a técnica também é chamada de suspensão de descrença. O público inicia a fruição da obra descrente de aquilo pode ser real. O escritor habilidoso vai aos poucos minando essa descrença e fazendo o leitor acreditar nos fatos narrados. Exemplo clássico disso foi o Super-homem, cuja primeira página da primeira história se dedicava a fazer uma comparação com os poderes dos animais. Se um gafanhoto poderia pular várias vezes a sua altura, um ser-humano também o poderia, se fosse alienígena. Se uma formiga era capaz de carregar várias vezes o seu peso, um ser-humano especial também o poderia. Estabelecido esse pacto, outros poderes foram sendo introduzidos ao longo do tempo.
Esses recursos, entretanto, podem ser eficientes a ponto de o público confundir o ficcional com o real.
Talvez o primeiro exemplo nesse sentido tenha sido o episódio conhecido no Brasil como "Balela do Balão".
Em 13 de abril de 1844, Edgar Alan Poe publicou no jornal The Sun uma matéria jornalística sobre um aventureiro que estaria cruzando o Atlântico em um balão. Para aumentar a credibilidade da história, o escritor usou até mesmo personagens reais, como o novelista inglês William Harrison Ainsworth. A notícia provocou furor e filas para comprar jornais, que rapidamente se esgotaram, fazendo com que muitas pessoas fossem até a sede do The Sun para comprar seu exemplar.
Discípulo de Poe, H. P. Lovecraft provavelmente se tornou o mais hiper-real escritor de todos os tempos. Sua descrição da mitologia dos velhos deuses, em especial de Cthullu, fez com que muitos acreditassem que seus contos não eram fantasia, mas realidade. O livro Necronomicon, citado em vários textos, foi cercado de tantos detalhes que não só foi tomado como real como, de fato, posteriormente, surgiram várias versões do mesmo. Lovecraft usou a tática de atribuir a autoria do livro a um autor antigo, o árabe louco Abdul Alhazred, criando inclusive sua biografia. Entre os detalhes agregados estavam o de que o livro teria sido proibida pelo papa Gregório IX quando de sua tradução para o latim, em 1232.
Apesar do próprio autor ter declarado diversas vezes que o Necronomicon era uma ficção de sua autoria, muitos acreditaram que ele existia mesmo. Uma dessas pessoas foi o escritor Frank G. Ripel, fundador da Ordem Rosa Mística. No seu livro La Magia Lunar, o autor, apresenta, em castelhano, o que seria o verdadeiro necronomicon, escrito há 4 mil anos, que Abdul Alhazred teria copiada e adulterado. Esse "verdadeiro" necronomicon fundamenta todos os rituais da Ordem. Ou seja: um grimoire ficcional acabou se tornando a base de uma seita real. Uma pesquisa rápida no Google permite encontrar vários Necronomicons à venda e até imagens do livro original - trabalhos feitos por fãs ou aproveitadores que só contribuem para aumentar ainda mais o fascínio sobre o livro fictício e levar mais pessoas a acreditarem que ele de fato existe.
Outra obra que de ficção que foi tida como verdadeira foi O código Da Vinci, de Dan Brown. Antes do início da narrativa, Brown introduziu uma página com o que chamou de fatos:
"O Priorado de Sião - sociedade secreta europeia fundada em 1099 - existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Os Dossiês Secretos, que identificam inúmeros membros do Priorado de Sião, inclusive Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.
A prelazia do Vaticano, conhecida como Opus Dei, é uma organização católica profundamente conservadora, que vem sendo objeto de controvérsias recentes, devido a relatos de lavagem cerebral, coerção e uma prática perigosa conhecida como "mortificação corporal". A Opus Dei acabou de completar a construção de uma Sede Nacional em Nova York, ao custo de aproximadamente 47 milhões de dólares.
Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos, rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade".
Embora não tenha dito que todos os fatos ali descritos eram reais, o autor usou uma estratégia lógica: apresentou diversas premissas, que aparecem no romance, como a existência do Opus Dei e os rituais secretos, como verdadeiros. E deixou para o leitor a conclusão. O leitor, por outro lado, pensou: se todos esses "fatos" são reais e estão no romance, então tudo que nele está também é real. O resultado disso nós vimos na maioria dos veículos de comunicação: matérias e mais matérias sobre Maria Madalena, o Santo Grall e sobre o suposto casamento de Jesus. Por mais que muitas dessas matérias tratassem de desmentir o romance, elas aumentavam o burburinho e o interesse pelo mesmo, fazendo com que aumentasse o roll das pessoas que confundiam ficção com realidade.
Outro que usou o recurso, talvez com mais delicadeza e certamente sem tanto alarde foi Umberto Eco em "O nome da Rosa". Na introdução do volume, intitulada "Um manuscrito, naturalmente", o autor declara que não está apresentando um texto original, mas uma tradução de uma versão francesa do século XIX de um texto de um monge germânico do século XIV.
Segundo Eco, enquanto lia, traduzia livremente o texto, até que o livro lhe foi levado por uma pessoa amada, sem querer, após o fim do relacionamento. O autor conta que consultou medievalistas ilustres, como Etienne Gilson, que não souberam lhe dar informações sobre o tal monge Adso de Melk. Já convencido de que tinha em mãos uma falsificação, ele já desistia de divulgar o texto quando achou, em um sebo da avenida Corrientes, em Buenos Aires, um livrinho de Milo Temesvar que citava diversas vezes o tal Adso.
A exemplo de Poe, Eco cita diversos pessoas e locais reais (a avenida Corrientes, de fato, é repleta de sebos) para dar credibilidade à sua narrativa. Em um pós-escrito, o autor italiano admitiu que seu objetivo com essa estratégia era fruto de pura covardia: ele não sabia como o livro seria recebido pela crítica (já que era seu primeiro romance) e preferiu apresenta-lo como sendo de outra pessoa.
JJ Benítez aperfeiçoou o recurso no livro "Operação Cavalo de Tróia", que conta a história de uma viagem no tempo organizada pelo governo norte-americano à época de Jesus. Benítez argumenta que o texto não é seu, mas é a transposição do diário de um major americano, que teria participado da missão.
A longa introdução do primeiro volume (mais de 50 páginas!) se dedica a narrar como conseguiu o diário em uma trama que mistura decifração de mensagens secretas e espionagem, com o escritor sendo perseguido pelo FBI enquanto tenta retirar os diários do major dos EUA. Se Eco diz que o livro original foi perdido e Lovecraft nos informa que seu original está disponível em algumas poucas universidade (a única nomeada nem mesmo existe), Benítez diz que tem os originais em posse, mas teme o serviço secreto norte-americano, que faria qualquer coisa para impedir a publicação dos livros. Ao final da introdução, faz a ressalva: "antes de passar ao diário propriamente dito, quero deixar assente que meu dever, como jornalista, começa e termina precisamente com a obtenção da notícia. Ao leitor (...) caberá tirar suas próprias conclusões". Esse arremate final, acrescido à toda a trama narrada levou muitos a acreditarem que os diários eram reais e que liam de fato a história de Jesus narrada por quem o conhecera.
No Brasil o exemplo mais famoso provavelmente é o desenhista Francisco Irwenten e seu personagem Capitão Gralha, um dos primeiros, senão primeiro super-herói brasileiro. Iwerten é verbete em enciclopédias, ganhou prêmios, foi objeto de várias matérias jornalísticas e até de artigos científicos e quase se torna enredo de escola de samba. Apesar da popularidade, tanto criador quanto criatura nunca existiram. Ele surgiu em 1997 em um texto publicado na revista Metal Pesado Curitiba. Na época os nove criadores do personagem Gralha haviam imaginado que seria interessante apresentá-lo não como um personagem original, mas como a recriação de um herói clássico, o Capitão Gralha.
Eu fui encarregado de escrever o texto que apresentava o herói clássico e seu criador. Na época acreditei que apenas estava dando verossimilhança à história do Gralha, a exemplo do que fizeram Umberto Eco em O nome da Rosa e Benítez em Operação Cavalo de Tróia. Assim, espantei-me quando a história começou a repercutir como verdadeira (com o surgimento da internet a lenda se alastrou e ganhou inclusive acréscimos, como a de que Irwenten teria estagiado com Bob kane, criador do Batman). O grupo de criadores se dividiu entre os que pretendiam revelar a história e os que achavam que se "deixasse quieto" a história logo sumiria. O dilema durou 17 anos, nos quais a história só se ampliou. Em 2014 a verdade sobre Iwerten e o Capitão Gralha foi finalmente contada em um álbum de quadrinhos e em uma mesa-redonda na Gibicon Curitiba. Mesmo depois da revelação, ainda há quem se recuse a acreditar. Corre agora o boato de que nós roubamos os exemplares das revistas originais da gibiteca de Curitiba para impedir que alguém provasse a existência do Capitão Gralha.
Num mundo em que ficção e realidade se misturam cada vez mais, o boato muitas vezes parece mais real que a realidade.
quarta-feira, abril 08, 2015
Amazônia Comic Con 2015 está chegando!
O Amazônia Comic Con, é um evento sobre Quadrinhos e Cultura Pop realizado pela Prefeitura de Abaetetuba – PA, pelo grupo Ponto de Fuga e produzido pelo CEMJA – Centro de Estudos e Memória da Juventude Amazônica. O evento será realizado simultaneamente em diversos pontos da cidade, com direito à palestras, debates, oficinas de HQ e animação, feiras de quadrinhos, exposições e demais produtos da cultura pop, com exibição de filmes, shows, Bandas musicais, heróis, cosplays e concurso de Histórias em Quadrinhos.
Dentre os artistas confirmados deste ano temos: Gian Danton(Roteirista), Sidney Gusman(Jornalista e Editor da MSP), Sonia Luyten (Pesquisadora), Carlos Amorin (Jornalista), Alex Barros(desenhista) entre outros.
domingo, abril 05, 2015
quinta-feira, abril 02, 2015
Enquete no blog: intevenção militar?
Nova enquete no blog. Hoje em dia mais e mais pessoas aderem à proposta de uma intervenção militar. Gostaria de saber de meus leitores se concordam ou não com isso. A enquete está aí do lado. É só clicar em sim ou não. A enquete vai até o dia 10 de abril. Dia 11 divulgo o resultado.
quarta-feira, abril 01, 2015
Exclusivo: Família Iwerten quebra o silêncio sobre o Capitão Gralha
Escrito por Emerson Vasconcelos
Depois de mais de 15 anos de silêncio, a família de Francisco Iwerten quebrou o silêncio sobre o Capitão Gralha, personagem do autor que muitos acreditam ter sido a inspiração para a criação do personagem curitibanoGralha, que já ganhou dois encadernados, sendo um deles publicado em 2014 pela editora Quadrinhópole.
O filho de Francisco, Fernando Iwerten, que hoje reside na cidade de Esteio, no Rio Grande do Sul, falou com exclusividade ao Terra Zero sobre a polêmica em torno do nome de seu pai. A existência de Francisco Iwerten sempre foi motivo de dúvidas no meio dos quadrinhos. Enquanto os autores do Gralha afirmavam que ele era um personagem fictício, alguns fãs duvidavam da versão e, após conversar com a velha guarda dos quadrinistas da Grafipar, encontrou os rastros da família Iwerten, que, à época, preferiu o silêncio e a discrição. O quadrinista recebeu, em 2006, o prestigioso prêmio Ângelo Agostini, na categoria Mestres do Quadrinho Nacional. Leia mais
Francisco Iwerten: o homem que sonhava com heróis
Completamente
desconhecida do público e até da maior parte dos historiadores, a obra de
Francisco Irwenten permanece desconcertante: em plena década de 40 ele criou um
super-herói curitibano chamado Capitão Gralha. Publicada pela editora Eclipse,
a revista do Gralha certamente teve uma vida tão curta quanto o fenômeno que
dava nome à editora. Durou três números, dos quais restam atualmente poucos
exemplares, a maioria deles em péssimo estado de conservação (na verdade,
fala-se de um quarto número, mas até hoje ninguém encontrou um exemplar).
O
envolvimento de Iwerten com os super-heróis aconteceu de forma inusitada. Era
época da segunda guerra mundial e os EUA temiam que o Brasil se aliasse ao
eixo. A maneira de evitar que isso acontecesse foi a chamada política de boa
vizinhança: artistas americanos vinham Brasil e artistas e intelectuais
brasileiros recebiam passagem e estadia para conhecer os EUA. Orson Welles e
Walt Disney vieram ao Brasil. Entre os intelectuais tupiniquins que visitaram o
país do Tio Sam, podemos citar Érico Veríssimo. Mas os americanos queriam
receber a visita de um desenhista. Talvez a ideia fosse preparar caminho para a
invasão dos quadrinhos americanos, que aconteceria na próxima década. Aí surgiu
o problema. A maior parte dos ilustradores, ou não queria ir, ou não podia. Quem
acabou recebendo a passagem foi Iwerten.
A viagem aos EUA influenciou fortemente sua
carreira. Lá ele conheceu o que se fazia em termos de quadrinhos e ficou
maravilhado. Em seu diário de viagem, a visita ao estúdio de Bob Kane (criador
do Batman) recebeu destaque especial. Quando voltou ao Brasil, tinha em mente
fazer aqui o mesmo que se estava fazendo lá. Queria criar um herói que entrasse
para o imaginário nacional. Assim nasceu o Capitão Gralha.
Iwerten anteviu que os super-heróis não eram
um sub-gênero do policial ou da ficção-científica, e sim um gênero
independente. Essa constatação é que faz com que seu trabalho seja diferente do
que era feito na época. Ele chegou até a criar um super-vilão, o Doutor
Destruição, cujo verdadeiro nome era David Dorgunts, um personagem excêntrico,
fanático pela letra D (uma das sequências mostra a biblioteca do vilão e só
vemos livros cujos autores tenham nomes ou sobrenomes iniciados com a letra D,
como Daniel Defoe e Charles Dickens).
Embora sejam completamente desconhecidos do
grande público, as escaramuças do Capitão Gralha contra o Dr. Destruição
poderiam figurar em qualquer catálogo do melhor da Golden Age, graças à
extraordinária imaginação de Iwerten.
Fala-se que no quarto número o Capitão Gralha
chegava a enfrentar uma invasão extra-terrestre numa curiosa antecipação do
terror dos discos voadores que invadiriam os EUA na década de 50. A solução
encontrada para impedir a invasão era digna de um H.G. Wells.
Apesar da qualidade, a revista do Capitão
Gralha não foi em frente. Na época parecia muito estranho um personagem com
super-poderes e ninguém levou a revista muito a sério. Alguns, entretanto,
devem ter se lembrado dele quando, alguns anos depois, as bancas foram
invadidas por super-heróis ianques. Mas já era tarde. Iwerten morreu em 1953,
desgostoso com o não reconhecimento de sua obra.
Matéria originalmente publicada na revista Metal Pesado Curitiba, de 1997.
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