quinta-feira, abril 28, 2016

O dupli-pensar dos bolsonarinhos

George Orwell lutou, ao lado dos anarquistas  e trotkistas, na guerra civil espanhola. Lá ele viu os dois lados totalitários do conflito - os stalinistas de um lado e os fascistas do outro - reescreverem a história e serem obedecidos por uma massa descerebrada, que apenas obedecia ordens e idolatrava seus ídolos. Diga-se de passagem, ele foi perseguido pelos dois lados e por pouco não foi morto.
Posteriormente, ao escrever 1984, ele levou esse conhecimento para a ficção através de dois conceitos: a história sendo continuamente reescrita para se adaptar aos interesses dos poderosos e o dupli-pensar.
O dupli-pensar significa acreditar, ao mesmo tempo, em dois conceitos absolutamente opostos. Seria o modo de pensar exigido pelos líderes autoritários. Quem não se adequasse a ele era o inimigo do sistema e deveria ser perseguido.
Fãs do Bolsonaro são, obrigatoriamente, especialistas em dupli-pensar. Eles acreditam, por exemplo, que a ditadura matou pouco e torturou pouco e errou ao torturar e não matar. Acreditam que Bolsonaro, uma vez eleito, fará uma limpeza, torturando e matando todos que discordam deles (há diversos vídeos de Bolsonaro defendendo a tortura e até dizendo que o erro da ditadura foi torturar e não matar). Mas os bolsonarinhos também acreditam que Bolsonaro é contra a tortura e nunca elogiaria um torturador.
Bolsonaro, claro, mudou o discurso depois de ter sido denunciado por seu elogio ao notório torturador Coronel Ustra.
Aí entra o outro lado de 1984: reescrever a história.
Ustra, acusado por centenas de pessoas de ter sido o responsável pelo sistema de torturas durante a ditadura militar - algumas das quais foram pessoalmente torturadas por ele - e conhecido por suas torturas sexuais, como introduzir ratos nas vaginas de mulheres, de repente vira "um democrata" e alguém contrário à tortura.
O argumento é que  os relatos de tortura foram feitos por pessoas que eram inimigas do regime militar, e inimigos do regime militar mentiriam sobre ele. Segundo os bolsonarinhos, como não há outra prova, além dos relatos, não havia tortura.
Curiosamente, esse é o mesmo argumento dos que defendem que o nazismo não perseguiu, prendeu e matou judeus. Segundo eles, a prova seria o relato dos judeus e judeus eram contra o nazismo, portanto os judeus que falaram sobre os campos de extermínio estavam mentindo.
É também o mesmo argumento dos que defendem a ditadura cubana. Segundo eles a única prova das prisões, torturas e paredões são os relatos dos inimigos do sistema - e inimigos do sistema sempre mentem.
1984, pelo jeito, é o livro de cabeceira de Bolsonaro. Foi com o Big Brother que ele aprendeu a dominar seus seguidores a ponto de fazê-los exercer o dupli-pensar e foi com ele que aprendeu a reescrever a história.

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