segunda-feira, julho 25, 2016

As crianças criadas em bolhas


Um dos fenômenos mais preocupantes da saúde pública atual são as alergias. Cada vez mais crianças se tornam alérgicas a tudo, de animais domésticos a amendoim (nos EUA há escolas em que é proibido entrar com amendoim, tamanha a quantidade de alunos alérgicos a esse alimento).
Isso é provocado pela super-proteção por parte dos pais. Se por um lado há milhares de crianças das classes mais pobres que são criadas sem nenhuma assistência ou cuidado, no outro oposto temos crianças cujos pais as protegem de tudo.
Antigamente as crianças brincavam na rua, se sujavam, conviviam com cãs, gatos, galinhas, insetos, andavam descalças. Hoje, os pais protegem as crianças de tudo: não pode andar descalça, não pode ter contato com a terra, não pode tudo. O resultado: o organismo não aprende a lidar com o mundo, tudo passa a ser considerado uma ameaça, e como consequência o número cada vez maior de crianças alérgicas a tudo.
Isso é ainda mais concreto quando se trata de questões mais subjetivas. A mentalidade é de que as crianças devem ser criadas numa bolha e protegidas de tudo. Não pode existir publicidade infantil porque a criança que ver publicidade vai comprar descontroladamente, vai comer descontroladamente.
Livros de Monteiro Lobato devem ser proibidos na escolas porque as crianças negras precisam ser protegidas do racismo do Sítio do Pica-pau Amarelo.
O projeto Escola sem partido é um dos ápices dessa super-proteção. Crianças não podem na escola ter contato com ideologias diversas das dois pais. Devem viver numa bolha idelógica em que só se tem contato com aquilo que os pais acreditam, inclusive em termos religiosos. A ideia de que a vida é feita de vários pontos de vista e que a maturidade surge exatamente da percepção dessas diferenças e da análise crítica das mesmas é inconcebível. O importante é proteger as crianças.
Quando o tem é sexo a bolha é ainda mais encorpada.
Nas décadas de 1960 e 1970, adolescentes e pré-adolescentes compravam em bancas os catecismos de Carlos Zéfiro e era neles que descobriam o sexo. Se vivesse hoje em dia, Zéfiro seria um escândalo. Jornaleiros seriam presos. Bolsonaro faria vídeos irados acusando Zéfiro de pedofilia ou de estimular a sexualidade.
Na década de 1980 milhares de adolescentes adentraram os mistérios da sexualidade com o famoso comercial do primeiro sutiã que mostrava uma garota pré-adolescente ganhando seu primeiro sutiã do pai. Sutil e bonito foi quase uma aula para muitos garotos e garotas para aceitarem as transformações em seus corpos e lidarem com isso. Hoje em dia, um comercial desse tipo seria impensável. Estrearia num dia e no dia seguinte teríamos um vídeo irado de Bolsonaro afirmando que o comercial incitava a pedofilia.
Amigos desenhista que divulgam seus trabalhos no Facebook costumam reclamar que qualquer desenho um pouco mais sensual é imediatamente denunciado por pais preocupados caso seus filhos vejam aquela imagem. A paranóia por parte dos pais de impedir os filhos de terem contato com qualquer coisa que tenha mínima relação com o sexo em alguns casos alcança níveis extremos.
Não admira que a área da medicina que mais cresca seja exatamente a das disfunções sexuais. Superprotegidos de qualquer contato com qualquer coisa que lembre sexo, a nova geração fica totalmente perdida quando finalmente adentra na vida sexual (e, no outro extremo, as crianças criadas sem nenhuma orientação, cuja entrada na vida sexual é acompanhada de doenças e principalmente gravidez indesejada).

Proteger as crianças virou desculpa para proibir qualquer coisa. Não faz muito tempo, um deputado e delegado da polícia federal pediu a proibição do filme Ted com a justificativa de que não era adequado a crianças. Pouco importava que o filme fosse direcionado a adultos. O importante era proteger as crianças e criá-las numa bolha, longe de qualquer coisa que os pais considerem inadequado. 

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