quinta-feira, janeiro 19, 2017

Código

              Segundo a enciclopédia Larousse Cultural, “o código é um sistema de probabilidades que, aplicado a um sistema desordenado (entrópico ou caótico), reduz as possibilidades de ocorrência caótica de eventos, facilitando a comunicação” (Larousse Cultural, 1987, 1489)
              A citação pode parecer complicada, mas não é. Para começar, vamos nos ater ao objetivo. O código tem como objetivo facilitar a comunicação. Ou seja, sempre que emitimos algum tipo de comunicação, utilizamos um código, ou nossa mensagem não seria compreendida.
              Mesmo quando fazemos um gesto (de adeus, por exemplo) estamos usando um código.
              As diferenças de código gestual já provocaram até um incidente diplomático. Um presidente norte-americano, em visita ao Brasil, fez, para os jornalistas, um sinal com a mão que consistia em juntar o polegar e o indicador em círculo, deixando estendidos os outros dedos.
              No código gestual norte-americano, esse gesto representa OK, mas no Brasil o sinal tem forte conotação obscena.
              O corpo humano tem a possibilidade de realizar os mais variados tipos de movimentos. Se todos eles fossem portadores de mensagens, estaríamos diante de um estado entrópico, ou caótico, em que tudo é válido.
              Assim, poderíamos um dia dar tchau balançando a mão aberta e, no outro, rodopiando o pé, ou abanando as orelhas. E, na semana seguinte, esses mesmos sinais poderiam ter outros significados.
              Não é necessário ser um expert em cibernética ou semiótica para compreender que um tal estado de coisas, em que pode tudo, não seria favorável a uma comunicação eficaz.
              Se encontro alguém na rua e ele me abana as orelhas, como poderei saber qual é a mensagem que ele quer, de fato, transmitir?  (ele poderia estar abanando as orelhas sem qualquer objetivo de estabelecer uma comunicação).
              É necessário haver um conjunto de regras que organize as várias possibilidades de sinais, nos dizendo o que pode e o que não pode, quais sinais têm significado e quais não têm.
              No código gestual brasileiro, por exemplo, abanar as orelhas não tem significado nenhum.
               O código diminui consideravelmente as possibilidades de transmissão de mensagens de um canal.
              Como já dissemos anteriormente, um macaco datilografando é um exemplo de entropia. Ele utiliza todas as possibilidades combinatórias dos sinais que estão à sua disposição.
              O primata pode, por exemplo, escrever uma mensagem do tipo:
              RZHPOITQAAJ
              O texto é muito informativo, mas não comunica nada, pois não respeita as regras de combinação (sistema de probabilidades) da língua portuguesa.
              Em português, quando temos a letra Q, há uma probabilidade enorme de que a letra seguinte seja um U acompanhado de uma das seguintes vogais: A, E, O, I.
              Assim, a combinação QA não é possível.
              Também de acordo com o código língua portuguesa, as consoantes são geralmente acompanhadas de uma vogal. Dessa forma, ao vermos um R, intuímos que a seguinte será uma vogal, como em RATO.
              O encontro RZ não é aceito pelo código e a probabilidade dele ocorrer é mínima.
              Diante das letras S, C, A e A, algumas combinações se revelam possíveis, outras não.
              CASA é um agrupamento possível, assim como SACA, mas SCAA é uma mensagem completamente entrópica, a não ser que seja a sigla de uma entidade, por exemplo.
              O código diminui consideravelmente a possibilidade informativa do canal, introduzindo redundância nela como uma forma de protegê-la contra o ruído e a entropia.
              Para visualizar a noção de código, vamos imaginar um canal simples: quatro lâmpadas. (exemplo extraído de Epstein, 1986)
              Imaginemos que essas quatro lâmpadas sejam usadas para transmitir ao piloto de um avião as seguintes mensagens: TREM DE POUSO FUNCIONANDO e TREM DE POUSO COM DEFEITO.
              O leitor implicante irá me perguntar: por que usar quatro lâmpadas se eu posso transmitir a mesma mensagem com apenas uma?
              De fato, esse é o sistema utilizado em um carro, por exemplo. Algumas funções internas do veículos são transmitidas ao condutor através de uma única lâmpada. É o que ocorre, por exemplo, com o fluído de freio. Se o fluído de freio está normal, a lâmpada permanece apagada. Se ela acende, é porque há algum problema.
              Acontece que há uma diferença brutal entre o resultado de uma falha de comunicação em um carro e um avião.
              Se a lâmpada do fluído de freio estiver queimada, o motorista, ainda assim, tem condições de descobrir que há algo errado (o freio começa a falhar, por exemplo) e parar o carro no acostamento.
              No avião, não há tal possibilidade. Uma única falha de comunicação pode provocar um acidente no qual morrerão dezenas de pessoas.
              Como vimos no capítulo sobre redundância, quanto maior a importância da mensagem e quanto mais grave a conseqüência de um possível ruído, maior deve ser a redundância empregada. 
              Para isso, usa-se quatro lâmpadas em nosso exemplo: a falha em uma delas não irá prejudicar a transmissão da mensagem.
              Diante das quatro lâmpadas, temos de estabelecer um código, um conjunto de regras para a transmissão da mensagem.
              O canal quatro lâmpadas permite 16 combinações possíveis. Usá-las todas seria equivalente a um estado entrópico/caótico. O mesmo que um macaco brincando com uma máquina de escrever.
              Para evitar isso, reduzimos para apenas duas as combinações possíveis. Assim: as duas primeiras lâmpadas acesas e as outras apagadas significa TREM DE POUSO FUNCIONANDO e as duas primeiras apagas e as outras acesas significa TREM DE POUSO COM DEFEITO.

              Caso ocorra um ruído (uma lâmpada queimada, por exemplo), ainda assim o receptor terá capacidade de receber a mensagem e perceberá que a lâmpada queimada é um ruído, não uma parte da mensagem. 

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