domingo, fevereiro 26, 2017

O undigrudi


A paisagem no início da década de 70 era desoladora. As bancas de revistas que chegaram a ter dezenas revistas de terror nacional para oferecer, a seus leitores estavam sendo dominadas por revistas estrangeiras, especialmente da Marvel. O Brasil era uma ditadura que, em nome do patriotismo, censurava as edi­ções nacionais e abria cami­nho para um domínio estran­geiro na área de quadrinhos que vai muito bem, obrigado.
“Brasil. Ame-o, ou deixe-o”, o lema da ditadura, parece ter sido feito especial­mente para os quadrinhistas nacionais. Para quem queria ficar ou não tinha o dinheiro da passagem, a solução foi ape­lar para uma solução americana: o movimento under­ground, apelidado no Brasil de undigrudi. Esse movimen­to tinha sido inaugurado nos quadrinhos por Robert Crumb (Gato Fritz) que pro­duzia e publicava suas revis­tas, fugindo, assim, do esquema das grandes editoras. No Brasil surgiram revistas co­mo Grilo e Balão, que publi­cavam material altamente influenciado por Robert Crumb e tinham pequena tiragem.
O retorno financeiro era pequeno e essas revis­tas serviam muito mais para mostrar que o Brasil ainda ti­nha quadrinhos e talentos promissores, como Laerte, Luiz Gê, Angeli e Paulo Caru­zo. Esse último desenhou uma história que representa­va muito bem a luta desses heróis. Começava com um homem (o próprio Paulo) desenhando um “X” na calçada e subindo num prédio. A me­dida em que p elevador avan­çava na direção do topo, co­meçava a acumular gente ao redor do “X’, Quando o rapaz chegava ao telhado do prédio, já havia uma multidão lá em-baixo, esperando. De repente ele se joga, e grita “Viva o qua­drínho nacional!” e cai, fora do “X”. Desapontados, os populares vão embora, comen­tando entre si: “Esse pessoal’ do quadrinho nacional não dá mesmo uma dentro...”

Também na onda do un­derground (ou undigrudi, como queiram) Oscar Hern publica, em janeiro de 1970, o fanzine Historieta, inaugu­rando a onda zine no pais. Fanzines são os filhos mais pobres do movimento under­ground. Produzidos geral­mente em xerox ou mimeó­grafo, essas revistas já reve­laram grandes talentos, como Mozart Couto, Jonas Schiaffi­no e Deodato Filho, muitos dos quais hoje trabalham para os EUA ou para a Europa. Praticamente não há quadrinhistas nacionais que nunca tenham publicado alguma coisa em fanzines. Existem fanzines dos mais variados tipos e qualidades, mas a maior parte são impregnados de um espí­rito de liberdade e experi­mentação que influencia até hoje a linguagem nacional de quadrinhos.

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