sexta-feira, maio 12, 2017

O uivo da górgona - parte 52


52
Qual era sua recordação mais antiga? Era uma casa? Sim, uma casa vazia. Roberto andava por ela numa noite escura e não encontrava ninguém. A casa tinha vários quartos e todos eles tinham as portas abertas, exceto um. Como se estivesse num sonho, Roberto andava por aquela casa noites e noites.
O que havia naquela porta? Que tipo de mistério insondável se escondia atrás dela?
Quantos anos ele tinha? Cinco? Seis anos? Não sabia ao certo. Tudo se misturava numa bruma sem sentido, como se o mundo fosse coberto por uma névoa.
As lembranças de outros momentos só começam a surgir algum tempo depois. Roberto tinha o que? Sete, oito anos quando finalmente compreendeu o que se escondia atrás daquela porta misteriosa.
Eram seus pais, eram eles que estavam por trás daquela porta. Todos trancados atrás daquela porta, a casa vazia e totalmente disponível para ele à noite.
Nessa fase as brumas da lembrança começavam a se desfazer e Roberto conseguia ver cenas de dia. Seus pais e seus dois irmãos, um menino e uma menina, ambos mais velhos do que ele. O olhar deles lhes deu a explicação do mistério da noite: tinham medo dele. Eles se trancavam no quarto por medo dele.
Onde ele está agora? Em uma sala ampla e aconchegante. Há uma mulher ali. Ela usa óculos de grau e faz anotações enquanto ouve os pais.
- A senhora não compreende? Ele tentou matar a irmã! Ele tinha quatro anos quando nós o pegamos apertando o pescoço dela!
- Minha senhora, crianças brincam. Nem sempre uma criança tem noção de que está machucando a outra.
- Ele sabia, ele sabia! Eu podia ver no rosto dele!
Roberto, em seus olhos infantis, observa friamente a mulher chorando. Essa é sua mãe? É essa pessoa que lhe disseram que devia amar?
O homem que lhe disseram que era seu pai abraça a mulher que chora, mas mesmo assim ela não parece consolada. Seu choro agora é um engasgo.
- Doutora, entenda. Não foi a única vez. Nós tivemos que esconder todas as facas da casa. Por duas vezes ele feriu os irmãos. Se nós não estivéssemos perto, teria matado eles.
A mulher ajeita os óculos e sorri:
- Senhor, não existem crianças más. É possível que seu filho estivesse passando por algum stress. Talvez fosse falta de carinho e diversão...
- Doutora, nós...
A mulher faz um gesto, pedindo silêncio:
- Não continue. Eu conversei muito tempo com seu filho. Ele é a criança mais doce e simpática que já conheci. Ele me disse que ama vocês de todo o coração.

Roberto olha para ela e depois para seus pais, satisfeito. Tinha feito sua lição. Tinha aprendido a ser simpático e agradável. Aprendera também que dizer aquilo, que amava seus pais, era uma forma de desarmar a acusação dos dois. Ninguém nunca acreditaria neles.

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