sexta-feira, janeiro 24, 2020

Link-se: a mídia mudando a arte


Marshall McLuhan dizia que a forma como o ser-humano se comunica molda a sociedade e até o seu o cérebro. E uma das áreas mais influenciadas pelas mudanças nas tecnologias de comunicação é a arte. Exemplo disso foi a invenção da fotografia, que transformou completamente os rumos da pintura, tendo como uma das consequências a criação do Impressionismo. Mais recentemente a invenção do computador, da internet e das redes sócias provocaram mudanças ainda maiores nas artes. É sobre esse fenômeno que Giselle Beiguelman se debruça em Link-se: arte/mídia/política/cibercultura (Peirópolis, 176 páginas).
Giselle Beiguelman é referência obrigatória quando o assunto é arte digital e on-line. Seu trabalho é referência em cursos de pós-graduação de universidades brasileiras, americanas e europeias. É autora dos premiados O livro depois do livro e Egoscópio e Paisagem. Desde 2001 cria projetos que utilizam dispositivos de comunicação móvel, como Poétrica e Esc for escape.
O livro reúne textos publicados em revistas, jornais e sites. Neles, a autora reflete sobre os mais diversos campos da arte e sua relação com a tecnologia.
Um dos autores mais interessantes é Eduardo Kac (http://www.ekac.org) , um artista especializado em bioarte. Um dos seus trabalhos mais famosos é “Gênesis”, exposto no Itaú Cultural no ano de 2000. Kac criou um gene sintético, chamado de gene artístico, com uma frase da Bíblia traduzida para código Morse e depois para código genético. A frase era: “Que o homem domine os peixes do mar e voo no ar e sobre todos os  seres que vivem na Terra”. O resultado foi uma bactéria fosforescente. Através da internet era possível aos expectadores  controlar a iluminação ultravioleta, causando modificações genéticas na bactéria.
Em “O oitavo dia”, uma colônia de  amebas fluorescentes vivem dentro de uma redoma de vidro, funcionando com o cérebro de um robô. A cada vez que as amebas se reproduziam, o robô se movia para cima e para baixo, ou para os lados. Os internautas também podiam interagir, modificando o ecossistema da obra.
Uma outra discussão interessante está relacionado ao fato de que a internet não é apenas um meio de comunicação, mas uma máquina de ler que transforma cada leitor em um editor em potencial. Assim, ela força o receptor a exercer com mais rigor sua faculdade mais exclusiva: a de intérprete. “A responsabilidade pelo conteúdo passa a ser fruto de seu crivo crítico, referendado pela solidez de sua formação cultural e não apenas calçado pela referência a um nome próprio, à logomarca de uma empresa ou o brasão de uma instituição”, escreve Giselle.
Um trabalho que se encaixa dentro dessa discussão é “Assina: do texto ao contexto”, de Cícero Inácio da Silva. Projeto de doutorado, usa a internet para discutir a autenticidade e autenticação, o nome próprio, assinatura, a legibilidade e o reconhecimento.
Cícero criou sites fakes com nomes pomposos, como Instituto Gilles Deleuze, repletos de citações dos autores homenageados. Os textos, no entanto, não fazem nenhum sentido. São gerados por um programa de computador em português e depois traduzidos para o espanhol por tradutores gratuitos na internet.
Os textos passaram a ser citados em dissertações de mestrado por pesquisadores brasileiros, que utilizam o texto em espanhol, convertendo-o para o português.
O projeto também mantém três periódicos internacionais, todos com registro de ISSN. Mas ISSN aqui significa Interstellar Synchronism Setup Noise. A mais famosa delas é “Plato on-line; Nothing, Science and Technology”, que só publica textos gerados por computador e não aceita contribuições a não ser que o autor concorde que seu texto seja modificado pelo algoritmo.
Quando alguém escreve para a revista submetendo um artigo, Cícero escreve em português e converte para o inglês usando um tradutor on-line. Apesar do resultado muitas vezes ser ininteligível, nenhum dos pesquisadores com os quais ele se correspondeu jamais reclamou.
Um ponto ainda mais esclarecedor foram os protestos e ameaças de processos por parte dos intelectuais cujo nome Cícero usa em seus sites. O editor de um dos mais respeitados periódicos sobre novas mídias, depois de “”entender” o projeto , autorizou o uso de seu nome por UM MÊS (em caixa alta), nenhum segundo mais .
Todos os sites trazem um rodapé explicando que se trata de um projeto de pesquisa e um experimento artístico, mas “as pessoas não leem as informações ou os detalhes. Ficam imersas nesse mundo cheio de textos e mais textos e somente se apropriam daquilo que ‘serve’ para elas em determinado momento. Não há mais pensamento ou reflexão sobre o dito”, diz Cícero.
Pelo jeito, nem mesmo nos meios acadêmicos há essa preocupação. Na exigência de se escrever e publicar textos e mais textos científicos, a leitura detalhada é deixada de lado. O que vale é citar muito e citar os autores certos, os autores da moda, como Deleuze.
Nesse sentido, o trabalho de Cícero se insere na mais verdadeira obra de arte: a que reflete sobre o mundo e, nesse sentido, sintetiza o tema de todo o livro de Giselle Beiguelman.
Como a obra é de 2005, ficam de fora vários trabalhos mais recentes dos artistas citados. Assim, vale a pena seguir os links indicados no final de cada capítulo para se inteirar sobre as obras mais recentes dos mesmos. Link-se, portanto, é uma obra que não se fecha no escrito, mas exige que o leitor interaja seguindo as indicações de sites e se atualizando sobre o que está no volume impresso.  

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