sexta-feira, julho 24, 2020

Balada sideral


O motor de todas as histórias é o conflito. Sem conflito não há HQ. A maioria das pessoas costuma visualizar isso como algo externo, a exemplo das lutas entre heróis e vilões. Mas existe um outro tipo de história, em que o conflito ocorre dentro do personagem. Ótimo exemplo disso é o álbum Balada Sideral, de Rafael Senra, publicado em 2014 pela Bartleblee.
O álbum narra a trajetória de Markun, um jornalista hipocondríaco que vê suas certezas desabarem quando é escalado para entrevistar uma dupla de irmãos músicos que vivem na rustigaláxia.
O resultado é um road movie com o jornalista acompanhando Opala e seu irmão Arcus durante uma turnê e se deparando com um mundo totalmente diferente do seu, em que as pessoas ainda vivem de forma natural. Na multigaláxia, de onde vem Markun, as pessoas desaprenderam a comer, tomando pílulas nutritivas, e se empanturram com todo tipo de químicos. De um estranhamento inicial (e os conflitos inerentes ao choque cultural) à aceitação dessa nova experiência, vemos a evolução do personagem, que encontra seu ápice na chamada pira, show em que, com uso de tecnologia o personagem tem uma viagem pelo mundo dos arquétipos e do inconsciente coletivo.
É interessante acompanhar a evolução do protagonista e igualmente interessante obervar como Rafael Senra constrói um universo plausível e ao, mesmo tempo, muito diferente do nosso, com casas e carros que podem ser virtualizados, só para dar um exemplo. A sequência da viagem interna do personagem também é muito bem construída, poética e lembra algumas histórias de Alan Moore, inclusive na concepção da arte como magia.
De negativo o formato reduzido, que prejudica visualizar os quadros em que o desenho é mais detalhista ou que há uma grande quantidade de diálogos.

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