Em 1939 o alpinista austríaco Heinrich Harrer tentou escalar
o monte Himalaia. Uma avalanche, seguida de tempestade, fez com que ele tivesse
que descer a montanha. Quando chegou ao pé do local, foi preso. Tinha começado
a II Guerra Mundial e todos os alemães e austríacos na Índia deveriam ser
presos (ainda mais ele, que era filiado ao partido nazista).
Desde as primeiras cenas, a impressão que temos de Harrer é
de que ele é um homem detestável. Ele vai escalar o Himalaia para não estar
presente quando seu filho nascer (a esposa está grávida), ele é arrogante e
trata mal os companheiros de escalada. Quando conseguem fugir do campo de
prisioneiros, ele demonstra toda a sua arrogância, egoísmo e mesquinharia. Em
uma certa situação, por exemplo, eles estão com fome e os locais se interessam
pelo relógio do seu companheiro de jornada. “Se tivesse um relógio, eu o
trocaria por comida”, diz ele. Algum tempo depois o companheiro descobre que
Harrer escondia três relógios em sua mochila.
É esse homem destável que vemos se transformando aos poucos,
em sua longa jornada pelo Tibet (o plano da dupla era atravessar o Tibet para
chegar à China).
Harrer encontra um país isolado, fundamentado na religião
budista, com costumes totalmente estranhos para um ocidental. Para cumprimentar
as pessoas mostram a língua, enquanto bater palmas é uma ofensa. É um país
totalmente pacífico, que dá grande valor à vida. Em certa cena, por exemplo, o
Dalai Lama (ainda criança) pede que ele construa um cinema. Mas, enquanto cavam
as fundações do local, os operários simplesmente paralisam o serviço porque
descobrem que a terra do local é cheia de minhocas. A solução é simplesmente
resgatar todas as minhocas e transplantá-las para um outro local.
Como o filme mostra, esse país totalmente pacífico, em que a
vida de qualquer um é valorizada mais que qualquer outra coisa, é invadido pela
China, num processo no qual morrem milhões de tibetanos e centenas de templos
são destruídos.
Dirigido por Jean-Jacques Annaud (o mesmo diretor de O nome
da Rosa), Sete anos no Tibet tem o mérito de extrair uma ótima interpretação de
Brad Pitt. Ele consegue passar perfeitamente o homem destável do início para o
humanista do final. E, convenhamos, uma jornada de rendenção faz muito mais
sentido quando o protagonista era alguém detestável, como, aliás, o próprio diretor
já destacou em entrevista.
Sete anos no Tibet é, portanto, tanto uma grande aventura
quanto uma jornada de redenção e, finalmente, um filme histórico e politico
sobre uma das invasões mais cruéis da história da humanidade – especialmente
por ter sido feita contra um inimigo totalmente idefeso.

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