Alfred Hitchcock é um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. Sua influência sobre a cultura pop e sobre outros diretores é imensurável. Como resumir toda essa importância em meras 100 páginas de um livro de bolso? Esse é o desafio que Inácio Justo se propõe na biografia publicada a coleção Encanto Radical, da editora Brasiliense.
A parte mais interessante, para quem conhece a obra do
diretor, provavelmente é o início, que conta o início da vida e carreira.
Vindo de uma família católica inglesa, Hitchcock teve uma
educação rígida. Estudou em um colégio jesuíta, onde se usava não só a
palmatória, mas a tortura psicológica. Aos faltosos era facultada a
possiblidade de escolher o dia e a hora em que seriam punidos. Como a maioria
dos meninos procurava adiar ao máximo a surra, todo esse tempo tornava-se um
tormento.
Hitchcock conheceu F. W. Murnau quando ele filmava A última gargalhada.
Com cinco anos de idade, o pai do futuro diretor, deu-lhe
um bilhete para ser entregue ao delegado. A carta pedia que o delegado
prendesse o garoto, o que foi feito, para pavor dele. Essa pegadinha, que tinha
como objetivo fazer com que o garoto se comportasse, tornou-se uma fobia que o
acompanharia pelo o resto da vida.
Em 1919, conseguiu um emprego como desenhista de legendas,
mas seus superiores logo perceberam que era mais talentoso do que a função
exigia. Logo ele começou a melhorar os diálogos dos filmes, revelando-se um
ótimo roteirista. Nesse trabalho ele conheceu o diretor alemão F. W. Murnau,
que filmava na Inglaterra o seu clássico A última gargalhada. Murnau, dentro da
linha do expressionismo, distorcia absurdamente os cenários para conseguir um
resultado realista. “O que se vê no set não importa”, dizia ele. “A única
verdade que conta é o que aparece na tela”.
Essa influência do expressionismo alemão na obra de Hitchcock
é explorada pela biografia inclusive em termos de como ele misturou isso com o
estilo norte-americano para construir o seu próprio estilo.
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| The pleasure garden foi o primeiro filme do diretor. |
A primeira oportunidade de dirigir um filme surgiu só em
1926, com The Pleasure Garden e foi um pesadelo. O orçamento era mínimo e foi
quase todo gasto pela estrela, Virginia Valli, que exigiu ficar no melhor hotel
da cidade. Além disso, a alfândega apreendeu os rolos de filmes e um ladrão
entrou no quarto em que o diretor dormia e roubou todo o seu dinheiro.
Mesmo conseguindo mais dinheiro do estúdio, os problemas
não cessaram. Uma das cenas não podia ser filmada porque a atriz precisava
entrar na água e estava menstruada. A produção arranjou uma outra atriz, mas
essa era mais gorda que a outra e o ator não conseguia tirá-la da água conforme
previsto no roteiro. Quando finalmente parecia que iam conseguir um take
aproveitável, uma velhinha que passeava pela praia parou diante da câmera,
aproximou-se e olhou fixamente para a objetiva.
É de se admirar que um diretor com um início tão desastroso
tenha se tornado um dos maiores cineastas de todos os tempos.


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