quarta-feira, janeiro 14, 2026

Bacurau: A Metáfora Política do Safári Humano

 



Finalmente chegou à Netflix um dos filmes mais polêmicos e emblemáticos do cinema nacional recente: Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Essa obra se destaca por ser um thriller de ação misturado com ficção política.

A história se passa em uma cidadezinha no interior do Nordeste brasileiro. A primeira sequência, com a personagem Teresa (Barbara Colen), funciona como ambientação: a estrada é repleta de buracos e o acesso à água é restrito, de modo que os habitantes dependem de caminhões-pipa. Pouco tempo depois, o prefeito visita o local em campanha, trazendo livros (que são despejados de um caminhão como lixo), comida e remédios com a validade vencida.

A trama gira em torno de um plano de estrangeiros de empreender um verdadeiro safári humano, caçando os habitantes locais. Para isso, eles utilizam recursos de isolamento narrativo: tiram Bacurau do Google Maps e instalam um bloqueador de sinal que impede o uso de celulares e internet.

Essa estética, que remete diretamente aos thrillers e slashers norte-americanos da década de 1970 — inclusive com o uso técnico do zoom in em várias sequências —, vira uma metáfora política do colonialismo, inclusive do colonialismo interno. Exemplo disso é o casal do Sudeste que colabora com a caçada. Na famosa cena do jantar, os dois afirmam ser mais próximos dos norte-americanos do que dos nordestinos por serem brancos e descendentes de europeus, ao que os estrangeiros retrucam que, para eles, os dois são apenas "latinos".

Os caçadores são uma crítica direta à cultura do armamentismo. Um deles revela o desejo de matar a própria esposa; outro mata uma criança a sangue-frio apenas para "pontuar" no jogo; outra diz que ganhou a arma do avô e finalmente vai poder usá-la. Bacurau surge, para eles, como um parque de diversões violento. Do outro lado, temos Lunga (Silvero Pereira), cuja figura remete diretamente ao Cangaço, onde as armas surgem como uma ferramenta de sobrevivência e resistência em um sertão inóspito.

O filme equilibra com maestria o thriller de ação e a mensagem social. Quando finalmente começa o confronto, tanto o suspense quanto a catarse são efetivos. Não é por acaso que Bacurau se tornou um dos filmes brasileiros mais comentados e premiados dos últimos tempos.

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