Logo que surgiu, A Nova Geração parecia apenas uma
cópia genérica da série clássica. Com o tempo, no entanto, os personagens
ganharam profundidade e conquistaram a simpatia dos fãs. O episódio "O
Rapto dos Inocentes" (When the Bough Breaks), da primeira
temporada, ilustra bem esse processo de transição.
Na trama, a Enterprise encontra o lendário planeta Aldea,
protegido por um escudo de invisibilidade e dotado de tecnologias
extraordinárias, como um raio repulsor capaz de arremessar uma nave a anos-luz
de distância. A aparente hospitalidade dos habitantes, contudo, esconde um
propósito sombrio: devido à esterilidade da população local, eles decidem
sequestrar as crianças da Enterprise.
A narrativa é nitidamente uma adaptação de O
Flautista de Hamelin para o contexto espacial, incorporando também
discussões científicas latentes na década de 80, como os danos causados pela
destruição da camada de ozônio. O resultado dessa combinação é instigante.
Um ponto relevante é a presença de famílias inteiras a
bordo da Enterprise, um diferencial marcante em relação à série original. Por
outro lado, o pequeno número de crianças sequestradas compromete a
verossimilhança sob uma análise mais rigorosa: é difícil acreditar que, em uma
nave daquela magnitude, houvesse tão poucos jovens. Além disso, a facilidade
com que a tripulação resolve um impasse que parecia insolúvel enfraquece um
pouco a tensão dramática.
Apesar dessas ressalvas, é um episódio agradável e
divertido, que respeita a inteligência do espectador. O desfecho, que explora a
característica falta de jeito de Picard no trato social (especialmente com
crianças), introduz um humor leve e encerra bem a história.

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