sábado, fevereiro 07, 2026

Demolidor – Apocalipse


Quando a editora Abril anunciou a saga A queda de Murdock, informou que essa era a melhor história do Demolidor de todos os tempos. Eles não estavam mentindo. Essa saga elevou o título um nível que jamais tinha sido alcançado antes e jamais seria igualado depois.

A primeira sequência é visceral como nunca. Karen Page, ex-namorada de Matt Murdock, está no México, na casa de um traficante. Seu corpo esquálido, destruído pela droga, parece ainda mais frágil na iluminação entrecortada que entra pela janela. “Um dia como os demais. No entanto, este tem um fulgor especial. Não é sempre que se vende a alma”, diz o texto.
“Demolidor”, ela diz. “Tá entendendo? Esse é o nome. E ele tem outro nome. Tá escrito aqui. Vai querer ou não?”.
Karen Page vende a identidade do Demolidor por uma dose. 


Semanas depois, a informação chega ao Rei do crime. Miller já vinha modificando o personagem do gordo bufão das histórias do Homem Aranha para o mafioso implacável, mas aqui, sob o traço de David Mazzucchelli, ele parece aterrorizante, alguém que até mesmo os mais frios criminosos temem, um mafioso frio e calculista capaz de conseguir tudo que quer apenas puxando as cordas de suas marionetes. O Rei ordena a morte de todos que tocaram no envelope ou que falaram com quem tocou no envelope. “Enquanto isso... vou testar essa informação.”.

E como o Rei testa a informação? Destruindo a vida de Matt Murdock.
A imagem de Murdock deitado na cama, repetida ao longo das revistas, vai representar a decadência do personagem.  


Miller e Mazucchelli vão representar isso em uma série de splash pages que mostram o herói dormindo. Na imagem dessa primeira revista, Matt está dormindo em sua cama, em sua mansão em Nova York. O escritório de advocacia dele com o sócio Foggy Nelson acabara de ser fechado e Matt esperava propostas de emprego. Mas o que ele recebe são apenas péssimas notícias. Uma carta do banco dizendo que não recebeu as duas últimas hipotecas. Um aviso da receita federal de que sua declaração estava sendo examinada e, enquanto isso, suas contas estavam bloqueadas. É apenas o início das más notícias. Um policial testemunha que viu Matt pagando para uma testemunha cometer perjúrio, o que faz com que Matt perca a licença para advogar.
O Rei é representado como um mafioso calculista e mortal. 


O teste funciona. Quanto mais o Rei pressiona Matt Murdock, mais descontrolado se torna o Demolidor, ao ponto de ele invadir um bar da beira do cais, abater todos lá dentro gritando: “Quem vai falar sobre Matt Murdock?”.

A série é revolucionária em vários níveis, mais esse o ponto em que ela é mais disruptiva. O Rei descobre que o herói está sempre à beira da loucura: “Há uma fenda em sua alma... uma cunha lentamente debilitando sua razão”.
O Demolidor está à beira do loucura. 


Mazzucchelli mostra-se um verdadeiro mestre, retratando com perfeição essa decadência espiritual do personagem e inovando, por exemplo, ao mostrar o julgamento de Matt em retícula Preto e branco.

No final, Karen Page escapa por pouco de ser morta enquanto a mansão do protagonista explode, como se o Rei quisesse dar um aviso de quem era responsável pela queda de Murdock.

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