quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Memórias de um gigolô, de Marcos Rey

 


Marcos Rey sempre foi fascinado pelo universos dos cabarés e bordéis – e é exatamente nesse universo em que se passa um dos seus livros mais célebres, Memórias de um gigolô.

A história gira em torno de Mariano, um garoto criado por uma tia cartomante que, quando esta morre, vai morar em um bordel. Lá ele conhece a fascinante Lu. Ela, no entanto, é apaixonada por Esmeraldo, o que cria um triângulo amoroso em torno do qual toda a trama irá girar.

A escrita de Marcos Rey é deliciosa não só pela fluidez, mas pelo humor refinado e irônico e pelos personagens carismáticos. Tia Antonieta, por exemplo é mostrada como uma senhora caridosa que cuidava de doentes e caso esse morria, banhava o corpo, vestia o cadáver, fazia café e bolinhos no velório e rezava pela salvação da alma. “Tinha também as melhores palavras para consolar os parentes e o dom de transformar o enterro numa festa, contando na cozinha as anedotas mais picantes e impróprias para a ocasião”.

A belíssima Lu apaixona-se, ora por Mariano, ora por Esmeraldo, cada um dos quais faz de tudo para passar a perna no outro e ficar com a garota, incluindo provocar a prisão de um ou de outro. Alma caridosa, Lu escolhe sempre o que está em situação pior, de modo que o outro, quando abandonado por ela, cai em desgraça inclusive financeira. Já aquele que é escolhido chega ao seu auge graças à garota, seja conquistando e tirando dinheiro de homens endinheirados, seja através de apresentações em cabarés, como a Dançarina Mascarada.

Lauro Corona, Bruna Lombardi e Ney Latorraca protagonizaram a série da Globo. 


Através dessa trama (que lembra muito Satyricon, de Petrônio), Marcos Rey faz um raio X da noite paulistana, dos costumes e até músicas de cada época, em especial durante o Estado Novo, em que o país era governado por Getúlio Vargas.

A história é tão atraente que se transformou em filme em 1970, dirigido por Alberto Pieralisi, mas ficou realmente conhecida pela série da Globo, dirigida por Walter Avancini e com Lauro Corona como Mariano; Bruna Lombardi como Lu e Ney Latorraca como Esmeraldo.

Aparentemente a gravação se perdeu, de modo que mesmo a Globo Play não tem a série disponível. Mas, vendo trechos disponibilizados na internet, é possível perceber que ali estava a origem da estética narrativa que se tornaria padrão em novelas das 6, como Eita Mundo bão, O cravo e a rosa, Chocolate com pimenta entre outras, em especial aquelas escritas por Walcyr Carrasco.

O tema aparentemente pesado da prostituição era tratado com leveza, humor e saudosismo – tudo muito bem representado pela abertura em animação ao som da música Oh Nina, de Ary Barroso e Lamartine Babo: “Nina era uma pequena levada demais/Flertes tinha uma centena com qualquer rapaz/Sempre flertou, sempre brincou/Nunca se apaixonou/Oh! Nina”.

Ironicamente, a personagem Lu era exatamente o oposto: uma apaixonada. Apenas não conseguia se decidir por quem era apaixonada.

Uma curiosidade é que, ao contrário da série, no livro só descobrimos o nome do protagonista no último e emocionante capítulo.

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