Marcos Rey sempre foi fascinado pelo universos dos cabarés
e bordéis – e é exatamente nesse universo em que se passa um dos seus livros
mais célebres, Memórias de um gigolô.
A história gira em torno de Mariano, um garoto criado por
uma tia cartomante que, quando esta morre, vai morar em um bordel. Lá ele
conhece a fascinante Lu. Ela, no entanto, é apaixonada por Esmeraldo, o que
cria um triângulo amoroso em torno do qual toda a trama irá girar.
A escrita de Marcos Rey é deliciosa não só pela fluidez,
mas pelo humor refinado e irônico e pelos personagens carismáticos. Tia
Antonieta, por exemplo é mostrada como uma senhora caridosa que cuidava de
doentes e caso esse morria, banhava o corpo, vestia o cadáver, fazia café e
bolinhos no velório e rezava pela salvação da alma. “Tinha também as melhores
palavras para consolar os parentes e o dom de transformar o enterro numa festa,
contando na cozinha as anedotas mais picantes e impróprias para a ocasião”.
A belíssima Lu apaixona-se, ora por Mariano, ora por
Esmeraldo, cada um dos quais faz de tudo para passar a perna no outro e ficar
com a garota, incluindo provocar a prisão de um ou de outro. Alma caridosa, Lu
escolhe sempre o que está em situação pior, de modo que o outro, quando abandonado
por ela, cai em desgraça inclusive financeira. Já aquele que é escolhido chega
ao seu auge graças à garota, seja conquistando e tirando dinheiro de homens endinheirados,
seja através de apresentações em cabarés, como a Dançarina Mascarada.
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| Lauro Corona, Bruna Lombardi e Ney Latorraca protagonizaram a série da Globo. |
Através dessa trama (que lembra muito Satyricon, de
Petrônio), Marcos Rey faz um raio X da noite paulistana, dos costumes e até
músicas de cada época, em especial durante o Estado Novo, em que o país era
governado por Getúlio Vargas.
A história é tão atraente que se transformou em filme em
1970, dirigido por Alberto Pieralisi, mas ficou realmente conhecida pela série
da Globo, dirigida por Walter Avancini e com Lauro Corona como Mariano; Bruna
Lombardi como Lu e Ney Latorraca como Esmeraldo.
Aparentemente a gravação se perdeu, de modo que mesmo a
Globo Play não tem a série disponível. Mas, vendo trechos disponibilizados na internet,
é possível perceber que ali estava a origem da estética narrativa que se
tornaria padrão em novelas das 6, como Eita Mundo bão, O cravo e a rosa,
Chocolate com pimenta entre outras, em especial aquelas escritas por Walcyr
Carrasco.
O tema aparentemente pesado da prostituição era tratado com
leveza, humor e saudosismo – tudo muito bem representado pela abertura em animação
ao som da música Oh Nina, de Ary Barroso e Lamartine Babo: “Nina era uma
pequena levada demais/Flertes tinha uma centena com qualquer rapaz/Sempre
flertou, sempre brincou/Nunca se apaixonou/Oh! Nina”.
Ironicamente, a personagem Lu era exatamente o oposto: uma
apaixonada. Apenas não conseguia se decidir por quem era apaixonada.
Uma curiosidade é que, ao contrário da série, no livro só
descobrimos o nome do protagonista no último e emocionante capítulo.


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