Um bom escritor pode escrever um livro interessante mesmo
partindo de uma trama fraca. É o que acontece com o volume 235 da série Perry
Rhodan, de autoria de William Voltz.
No livro anterior a nave terrana havia sido puxada para um
Moby morto e aprisionados pelos seres de duas trombas. Em tempo: os mobys eram
seres tão grandes que se alimentavam de pequenos planetas.
A história do número 235 trata, basicamente, da viagem de
trem com eles sendo levados para trabalhar em fazendas de bioparasitas, usados
como alimentos pela população local. Ou seja: dois terços do livro é apenas uma
viagem de trem, mas Voltz consegue fazer esse mote se tornar interessante com
uma boa escrita e principalmente com um bom desenvolvimento de personagens.
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| A capa original alemã. |
Para isso, ele foca sua narrativa no sargento Kendall
Baynes, que diz ser descendente de nobres e é chamado de Lorde pelos colegas em
alusão ao seu perfil convencido. Conforme a história – e o trem – avançam,
vamos conhecendo cada vez mais desse personagem, até descobrirmos, por exemplo,
que ele foi criado em um orfanato, depois de se tornar órfão. Embora o texto
não entre em detalhes, ele dá a entender que Baynes foi maltratado lá, o que o
levou a criar a persona de um nobre como forma de compensação por todas as
humilhações recebidas na adolescência.
Voltz também faz um bom trabalho ao descrever a organização
social dos alienígenas, cuja sociedade é dividida em castas. Na base estão os
trombas brancas, trabalhadores braçais. Acima deles, os trombas azuis, que
exercem a função de vigilância e polícia, e no topo os trombas vermelhas, os
governantes. Quando descobre que os trombas azuis e vermelhas apenas pintam
seus apêndices, Rhodan comenta com um tromba branca: “Quer dizer que a única
coisa que o senhor precisa fazer para subir de casta é pintar sua tromba?”, ao
que o outro reage violentamente, ameaçando matá-lo.
Em um trecho extremamente crítico, o escritor pondera que é
extremamente difícil libertar uma inteligência dos preconceitos que pairam
sobre ela.
Nas mãos de um escritor mediano, A casta dos trombas
brancas seria um volume insuportável, mas William Voltz faz dele um boa
leitura.


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