Nove em cada dez fãs consideram os números 241 e 242 como
alguns dos melhores volumes da série Perry Rhodan. Curiosamente, ambos
os livros não se concentram em histórias grandiosas ou personagens importantes.
O sucesso se deve ao talento do escritor William Voltz e à sua capacidade de
criar descrições poéticas, desenvolver personagens e demonstrar que uma
armadilha aparentemente inofensiva pode ser o maior perigo de todos.
Na trama, os Senhores da Galáxia identificaram a presença
dos humanos no sistema de Andro-Beta e colocaram em marcha um plano de
extermínio com mobys (seres do tamanho de planetas) devastando a região
com bombas nucleares. Rhodan envia oito grupos para tentar descobrir o
transmissor que está despertando os mobys. A história desses volumes é
focada em um desses grupos, chefiado pelo Capitão Don Redhorse.
A peculiaridade é que Redhorse escolhe os tipos mais
“imprestáveis” da Crest: “Pode-se sair com um grupo de astronautas
bem-comportados; nesse caso, a gente tem de contentar-se com as brincadeiras
sem graça e sua imaginação subdesenvolvida. Ou então, a gente se cerca de tudo
quanto é patife encontrado em uma nave e espera que surjam os problemas”, pensa
o Capitão em certa altura.
Entre os “patifes” escolhidos encontra-se Brazos Surfat, um
cabo que chegou ao posto de sargento pelo menos dez vezes, mas foi rebaixado em
todas elas.
A primeira aparição de Surfat já é memorável. O sargento
tinha sido preso em seu camarote por ter aprontado algo: “A luz acendeu, e
Redhorse viu um homem incrivelmente gordo deitado na cama. Estava com a barba
por fazer. Parecia ter dormido com o uniforme do corpo. O homem piscou os olhos
e seu rosto assumiu uma expressão de contrariedade”.
Surfat é um fanfarrão que conta histórias impossíveis a
respeito de glórias imaginárias. “Lembro de uma missão semelhante desempenhada
no Cinturão das Plêiades”, conta ele em certa altura. “Estava trancado sozinho
em um carro voador e tive que defender-me contra cem nativos amotinados”. Ao
que é corrigido por Redhorse: “Brazos, pare de contar mentiras. O único combate
que o senhor travou no Cinturão das Plêiades aconteceu na cantina de uma nave
de abastecimento, quando o senhor entrou em luta com o cozinheiro para
conseguir mais uma refeição”.
A equipe inclui um aspirante a oficial obcecado por um ovo
recolhido no planeta Horror, que ele tenta, a todo custo, chocar para descobrir
qual é o animal que dele sairá.
O grupo, contrariando ordens, acaba pousando em um planeta
onde desconfiam estar o transmissor, iniciando uma jornada bizarra que inclui
desde ameaças típicas de uma space opera, como seres gigantescos que
atacam os astronautas, até situações surreais, como robôs de segurança que
fazem um duelo e se autodestroem.
William Voltz acrescenta a essa mistura descrições poéticas
e vivas, que fazem o leitor visualizar com perfeição o planeta dos pântanos:
“Ouviu o farfalhar fraco do vento que descia das montanhas e atravessava o
vale. Se prestasse muita atenção, chegava a ouvir o estalo fino do musgo
esmagado por suas botas, e que voltava a erguer-se aos poucos. Para Redhorse, a
noite estava cheia de ruídos abafados. Era um zunido, um vozerio e um farfalhar
ininterruptos.”
Ao final do volume, surgem os habitantes do planeta – e com
eles, uma ameaça totalmente inusitada, mas muito mais perigosa.
Eu tive a sorte de este ter sido o primeiro livro que li da
série, em 1986, o que provavelmente foi a razão pela qual me tornei fã. Eu o
comprei em um sebo de rua e anotei a data e o número 23. Era o 23º livro da
minha biblioteca.


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