Quem acha que os quadrinhos Marvel eram bons “na época em
que não se misturava super-heróis com política” nunca deve ter lido os
quadrinhos clássicos da editora. Mesmo séries mais focadas na ficção
científica, como o Quarteto Fantástico, tinham seus momentos altamente
políticos, como podemos ver no número 21, em que a Primeira Família enfrenta o
Monte do Ódio.
E quem é o Monge do ódio? Um homem com capuz da Kun Klux
Khan que faz discursos inflamados contra imigrantes – convincente a ponto de
fazer a multidão atacar pessoas que eles consideram estrangeiras. E seus
asseclas usam roupas militares e braçadeiras que lembram as braçadeiras dos
nazistas.

Os discursos do Monge do Ódio provocam perseguição contra imigrantes.
Vale lembrar que tanto Stan Lee quanto Jack Kirby eram
descendentes de judeus que tinham fugido da perseguição na Europa exatamente de
grupos que tinham esse tipo de discurso de ódio. Mas ao colocar um capuz da Kun
Klux Khan, os dois artistas atualizam a situação para os EUA, mostrando que
esse discurso preconceituoso está entranhado até mesmo na sociedade
norte-americana.
Claro que essa era uma história de super-heróis e para isso
era necessário transformar o Monte do Ódio em um vilão, de modo que
providenciaram para ele uma arma que, uma vez acionada, provocava discórdia.
Essa arma faz com que o Quarteto comece a brigar entre si a ponto de separarem.
Um discurso de ódio que faz até mesmo família se separarem. Parece com algo que
vocês já viram?

A arma do Monge faz até mesmo a primeira família brigar entre si.
Aqui Stan Lee usa novamente sua estratégia de marketing ao
incluir na trama um personagem de outra série, Nick Fury, agente da
SHIELD. Fury convence Reed Richards a
intervir em um país da América do Sul chamado San Gusto: “O Tio Sam tem gastado
bilhões em San Gusto para fazer do lugar uma democracia! Mas de repente tudo
isso deu errado! Uma revolução começou, e parece que o governo vai cair! Se
isso acontecer, pode afetar todo o equilíbrio do poder na América do sul! E
isso não pode rolar, pegou?”.
Considerando que nos anos seguintes os EUA patrocinariam
ditaduras em praticamente todos os países da América do Sul, esse trecho se
revelou uma grande ironia histórica.

Os discípulos do Monge do Ódio usam unformes parecidos com os dos nazistas e o monge usa um capuz da KKK.
Quando os outros membros descobrem que Reed foi para a
América do Sul, todo mundo se dirige para lá. Ocorre que os distúrbios em San
Gusto estão sendo provocados pelo Monte do Ódio, o que leva o grupo a um
confronto com o vilão.
No final, a história se perde ao colocar a identidade
secreta do vilão como Hitler – o que parece uma solução preguiçosa e tira toda
a sutileza da metáfora.

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