sábado, abril 11, 2026

Quarteto Fantástico contra o Monge do Ódio

 


Quem acha que os quadrinhos Marvel eram bons “na época em que não se misturava super-heróis com política” nunca deve ter lido os quadrinhos clássicos da editora. Mesmo séries mais focadas na ficção científica, como o Quarteto Fantástico, tinham seus momentos altamente políticos, como podemos ver no número 21, em que a Primeira Família enfrenta o Monte do Ódio.

E quem é o Monge do ódio? Um homem com capuz da Kun Klux Khan que faz discursos inflamados contra imigrantes – convincente a ponto de fazer a multidão atacar pessoas que eles consideram estrangeiras. E seus asseclas usam roupas militares e braçadeiras que lembram as braçadeiras dos nazistas.

Os discursos do Monge do Ódio provocam perseguição contra imigrantes. 


Vale lembrar que tanto Stan Lee quanto Jack Kirby eram descendentes de judeus que tinham fugido da perseguição na Europa exatamente de grupos que tinham esse tipo de discurso de ódio. Mas ao colocar um capuz da Kun Klux Khan, os dois artistas atualizam a situação para os EUA, mostrando que esse discurso preconceituoso está entranhado até mesmo na sociedade norte-americana.

Claro que essa era uma história de super-heróis e para isso era necessário transformar o Monte do Ódio em um vilão, de modo que providenciaram para ele uma arma que, uma vez acionada, provocava discórdia. Essa arma faz com que o Quarteto comece a brigar entre si a ponto de separarem. Um discurso de ódio que faz até mesmo família se separarem. Parece com algo que vocês já viram?

A arma do Monge faz até mesmo a primeira família brigar entre si. 


Aqui Stan Lee usa novamente sua estratégia de marketing ao incluir na trama um personagem de outra série, Nick Fury, agente da SHIELD.  Fury convence Reed Richards a intervir em um país da América do Sul chamado San Gusto: “O Tio Sam tem gastado bilhões em San Gusto para fazer do lugar uma democracia! Mas de repente tudo isso deu errado! Uma revolução começou, e parece que o governo vai cair! Se isso acontecer, pode afetar todo o equilíbrio do poder na América do sul! E isso não pode rolar, pegou?”.

Considerando que nos anos seguintes os EUA patrocinariam ditaduras em praticamente todos os países da América do Sul, esse trecho se revelou uma grande ironia histórica.

Os discípulos do Monge do Ódio usam unformes parecidos com os dos nazistas e o monge usa um capuz da KKK. 


Quando os outros membros descobrem que Reed foi para a América do Sul, todo mundo se dirige para lá. Ocorre que os distúrbios em San Gusto estão sendo provocados pelo Monte do Ódio, o que leva o grupo a um confronto com o vilão.

No final, a história se perde ao colocar a identidade secreta do vilão como Hitler – o que parece uma solução preguiçosa e tira toda a sutileza da metáfora.   

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