sexta-feira, abril 17, 2026

Supremo – Oculto pelas nuvens

 

A história é uma crítica de Moore à postura revisionista dos super-heróis. 

Na década de 1990, era famosa a rixa entre os escritores britânicos Alan Moore e Grant Morrison. Uma rixa unilateral, já que os ataques vinham mais da parte de Morrison. No entanto, na terceira história de sua versão de Supremo (publicada no número 43 da revista) Moore resolveu aproveitar que o protagonista era um desenhista de quadrinhos para dar uma resposta.

Na página de abertura, vemos um trecho do personagem Omniman, desenhado por Ethan Crane (o alter-ego do Supremo), com o herói em primeiro plano, arrancando o próprio coração, enquanto um ser monstruoso se aproxima em segundo plano. “Você nunca vai me matar de verdade”, diz o herói. “Da mesma forma que não conseguiu matar Jean Genet, Isidore Ducasse ou Mallarmé! Não enquanto eu puder... unngghhh... arrancar meu próprio coração como um manifesto final que justapõe a arte, o misticismo e o absurdismo!”.

O escritor Bill Friday é uma referência ao roteirista Grant Morrison. 


Era uma forma ácida de dizer que Morrison colocava referências aleatórias a artistas apenas para parecer intelectual e "descolado", por mais que essas referências não contribuíssem em nada para a trama.

Mas o escritor Bill Friday (o personagem que representa Morrison) acha o resultado genial: “Há uma mensagem importante nas palavras aqui e você pegou a ideia”. Em seguida, ele explica que está acabando com toda a mitologia de Omniman.

A história flash back é um passeio pela Cidadela Suprema. 


A sequência também é uma crítica à postura revisionista da década de 1990, que pretendia acabar com todas as mitologias dos personagens, surgidas na Era de Prata, em benefício de uma visão mais “adulta”. Vale lembrar que isso também foi feito pela DC no cinema e foi um desastre, de forma que personagens como o Superman só voltaram a fazer sucesso quando suas mitologias foram resgatadas, já na era James Gunn. Ou seja: mais uma vez, Moore tinha razão.

Além da crítica, a revista se destaca pela HQ flashback, desenhada por Rick Veitch e intitulada A charada do castelo das nuvens. Na trama, Supremo leva Jonas e Judy, seus parceiros jornalistas, para a Cidadela Suprema, escondida no meio das nuvens. Chegando lá, porém, encontram as portas abertas e um bilhete. Ou seja: alguém invadiu o local. A história reflete diretamente as HQs do Superman da Era de Prata, nas quais tudo era desculpa para mostrar em detalhes a Fortaleza da Solidão.

O local foi invadido. Quem é o responsável? 


O local inclui uma dimensão espelhada, onde ficam presos os inimigos do Supremo, entre eles o Supremo Sombrio, com a imagem em negativo, além de um zoológico de criaturas lendárias, incluindo Medusas, dragões e uma bela anjo Luriel. “Poderia ter acontecido algo entre nós no passado, mas Luriel nem existe nesta realidade. Nunca poderia acontecer”.

Passam também pela galeria dos aliados, heróis da Segunda Guerra Mundial, incluindo outra personagem de Rob Liefeld, Glory, para a qual Moore criou uma série fantástica que, infelizmente, ficou inacabada, mas serviu de base para Promethea.

A HQ serve para mostrar a mitologia do personagem. 


No final, a solução para o invasor da cidadela é infantil e, ao mesmo tempo, inteligente.

É sintomático que Alan Moore tenha colocado essa história, que explora toda a mitologia do personagem, exatamente no número em que começa criticando a tendência revisionista e realista dos super-heróis, que inclui apagar toda a sua mitologia. Era uma declaração de princípios.



Em tempo: Na contramão do conteúdo, Rob Liefeld deixou de colocar na capa ilustrações de Joe Bennett emulando quadrinhos clássicos, substituindo-as por pavorosas imagens de Stephen Platt no pior estilo Image.

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