domingo, abril 09, 2017

O uivo da górgona - parte 34


34
- Já pensaram no que está acontecendo? – perguntou Jonas.
Zu segurava a galinha em seu colo e a acariciava, como se fosse um gato. O animal parecia gostar daquilo.
- Eu já disse. A música fritou o cérebro deles.
- Acho que a Zulmira pode ter mais razão do que imagina. – concordou Edgar.
- Pode me chamar de Zu.
- Está bem, Zu. Existe uma área do conhecimento chamada psicologia das massas, que estuda os comportamentos coletivos. Um desses comportamentos, provavelmente o mais primário deles, é o da multidão. É um comportamento instintivo, governado pela parte mais antiga de nosso cérebro, a amídala, ou cérebro reptiliano.
Jonas franziu o cenho:
- Temos mais de um cérebro?
- Temos basicamente três. São registros da evolução de nossa espécie. O primeiro deles é o reptiliano, depois o mamífero, o complexo límbico, e, finalmente, o neocórtex. O mamífero governa nossas emoções e nosso sentimento de pertencer a um grupo.
- É o instinto de boiada. – atalhou Alan.
- Isso mesmo. Quando imitamos outras pessoas, ou queremos muito fazer parte de um grupo, é essa parte do cérebro que está em ação. Por outro lado, o neocórtex governa nossa capacidade linguística e crítica. É a parte mais evoluída.
- E o que faz esse cérebro reptiliano?
- Um cientista definiu o cérebro reptiliano como o responsável por decidir algo como “Eu como isso, ou isso me come?”. – explicou Edgar.
- Isso quer dizer que era um cérebro usado para caçar?
- Também. Mas também foi uma parte importante de nosso cérebro quando se tratava de fugir de perigos. Ainda hoje o usamos quando tomamos atitudes impulsivas e impensadas.
- É um cérebro ruim. – decidiu Zu.
- Não necessariamente. Se, por exemplo, o teto começasse a cair e precisássemos sair daqui urgentemente, era essa parte de nosso cérebro que governaria nossa ação. Se fôssemos parar para pensar no que estávamos fazendo... instintos são importante. Jonas me salvou hoje graças à sua ação rápida.
- Eu não queria ter matado aquela mulher.  - suspirou Jonas.
- Mas se não tivesse feito isso, nós é que estaríamos mortos. Se ele tivesse parado para pensar no que estava fazendo, nunca teria agido, entendem?
Alan coçou o queixo:
- Mas o que isso tem a ver com os zumbis?
Edgar levantou as mãos por um minuto, as palmas viradas para cima.
- Não é óbvio? A Zu tem razão, em partes. A música alta fritou o cérebro deles, mas não todo o cérebro... Existem sons nocivos à saúde, como os infrassons, mas sabe-se que mesmo sons normais são capazes de diminuir a ação do neocórtex. As substâncias liberadas pelo corpo em pancadões ou aparelhagens fazem com que o cérebro reptiliano tome conta. Isso explica, por exemplo, por que razão há tantas brigas nesses tipos de shows musicais.
- Eu não usaria a expressão “show musical” para esses casos. – atalhou Zulmira.
- Quer dizer que o som destruiu o neocórtex deles e fez com que o cérebro reptiliano tomasse conta? – indagou Jonas.
- Sim.
Alan balançou a cabeça:
- Isso explica porque ficam tão violentos. E explicam porque sempre estão com fome...
- E preferem comida fresca, como feras. Sangue, eles gostam de sangue. Posso confirmar isso. – disse Zu.
- Mas há uma falha. Eles preferem andar em grupos...
Edgar assentiu:
- Isso pode significar que uma parte do cérebro mamífero sobreviveu. O instinto de boiada ainda existe neles. Em todo caso, vamos precisar de armas a próxima vez que sairmos.

O grupo ficou em silêncio, pensativo, enquanto Sofia se agitava, no colo de Edgar. 

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