sexta-feira, maio 26, 2017

O uivo da górgona - parte 63


63
- Você voltou lá embaixo desde então? – perguntou Edgar.
A garota balançou a cabeça, em negativa. O professor podia ver o pavor em seus olhos.
- Fiquei o tempo todo aqui em cima.
- Nunca encontrou ninguém além de nós?
- Não. Desde então tenho comido apenas doces do quiosque e dormido no cinema.
Edgar coçou o queixo:
- Isso salvou você do uivo da górgona...
- Uivo da górgona? – perguntou a garota.
- Foi o que começou tudo isso. – explicou Jonas. É uma espécie de barulho que transforma as pessoas em seres irracionais, como aqueles que você viu no estacionamento. Depois da primeira noite ele soou outra vez. Mas não sabemos se isso acontecerá sempre.
- Vamos precisar de comida. Não podemos passar o resto de nossos dias comendo doce. – avisou Zulmira.
Jonas apontou para as lojas de refeições.
- Há muitas lojas na praça de alimentação. Em muitas delas deve haver freezer. Mesmo desligados, eles conseguem manter a comida preservada por um bom tempo.
- Mas para isso precisamos abrir os cadeados.
- Eu cuido disso, mas vou precisar da ajuda de alguém. Edgar?
- Conte comigo.
Os dois se aproximaram de um McDonad´s. Jonas testou a fechadura da porta de correr:
- Está trancado.
- Imaginei que estaria. – respondeu Edgar.
Jonas remexeu nos bolsos:
- Não que isso seja um problema tão grande.
Edgar viu-o pegar alguns clipes e remexer com eles na fechadura e perguntou-se: onde ele aprendera aquilo?
Enquanto testava a fechadura, Jonas olhou para trás, apontando para Dani. Alan se aproximara dela e estavam conversando.
- Há algo de estranho sobre essa garota...
- Sem dúvida é estranha a história dela. Ninguém ficaria sozinha no shopping apenas porque não consegue contato com a mãe. Qualquer outra pessoa teria arranjado outra maneira de voltar para casa...
Jonas concordou. Na fechadura, algo estalou.
- Há outra coisa que gostaria de conversar com você. Uma suspeita. Não queria falar na frente dos outros.
Edgar aproximou-se do outro. Então era por isso que ele lhe pediria sua ajuda.
- Duvido que isso mude alguma coisa. – disse Jonas. Mas eu precisava desabafar sobre isso com alguém...
Edgar fez um gesto com a cabeça, estimulando o outro a continuar.
- Lembra-se do almoço que tivemos na casa de Roberto?
- Claro. Mas...
- Eu sabia que havia algo errado ali. Por que uma pessoa teria tanta carne guardada na geladeira?
- Do que está falando?
Jonas parou o serviço e olhou fixo para o outro:
- Escute, eu já trabalhei como açougueiro. Conheço cortes de carnes. Aquela carne não era nem de porco, nem de boi...
- Está dizendo que comemos...
O outro fez que sim com a cabeça e continuou o serviço.

Edgar engoliu em seco. De repente tinha perdido a fome. 

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