sábado, junho 24, 2017

Uma insólita obra-prima


Jefferson Nunes 

Em 1990 a dupla Gian e Bené, deu um tempo de suas estórias de terror para contar aquela que é sem duvida a melhor estória de super heróis já produzida em solo brasileiro: A Insólita  Família Titã.
Influenciados pela leitura de Watchmen e principalmente de Miracleman (ambas obras primas de Alan Morre), a dupla resolveu homenagear a Família Marvel da DC Comics através de uma ótica inovadora e totalmente inusitada.
Franco Rosa, Editor da Editora Nova Sampa na época, pediu que a dupla fizesse uma história de 30 páginas um a revista que ele estava lançando e só havia uma semana para realizar todo o trabalho, do roteiro à arte-final.
Assim, Bennett e Gian se reuniram em um cômodo que eles chamavam de estúdio situado na clínica de um tio do desenhista, que estava fechada. Então, eles conversaram sobre as possíveis estórias e surgiu a idéia de fazer uma homenagem à Família Marvel.
A estória foi elaborada naquele momento. À pedido de Franco, ela deveria conter cenas de sexo, entretanto, para os autores, não havia como encaixar sexo na HQ. Então, Bené ficou como responsável para adicionar esse tema. De fato, das 30 páginas, apenas duas contiveram cenas de sexo.
No mesmo dia, Benné fez o rafe da estória e Danton os balões. Em menos de uma semana, o artista desenhou e arte-finalizou a Família Titã. Foi um recorde, afinal, era um trabalho urgente.
O interessante foi que, como tiveram pouco tempo para conversar sobre a HQ, cada um teve uma interpretação diferente sobre ela. Para Gian, o personagem Tribuno era o herói, para Bené, o vilão. Assim, enquanto o desenho mostrava o protagonista em uma cruzada de vingança, o texto intimista justificava suas ações. Isso criou uma dupla possibilidade de interpretação: alguns leitores entenderam o personagem como um sanguinário, outros como um homem bem-intencionado.
Outra característica interessante é que a história se passa, boa parte, numa favela da cidade fictícia de Santa Helena e o herói Tribuno é, na verdade, um deficiente físico.
Embora fosse publicada em revista lacrada com saco plástico, a história fez grande sucesso entre os fãs. Chegou a ter quatro tiragens, vendendo um total de 120 mil exemplares, mais do que a venda do Homem-aranha na época.
A história foi também a responsável pela entrada de Bené no mercado de quadrinhos dos EUA. Ao vê-la, um agente americano se convenceu de que ele seria um ótimo desenhista de super-heróis. Atualmente, Bené assina como Joe Bennett e desenha as histórias da Liga da Justiça.

A história da Família Titã desenrola se durante um período de 15 anos e se passa em Santa Helena, uma cidade fictícia. E em uma favela daquela cidade, viviam César – deficiente físico acometido por leucemia, que fugia da realidade abusando da leitura de livros achados no lixo e que idolatrava a antiga sociedade greco-romana; Paulo e Melissa, garotos amantes. Todos órfãos com, aproximadamente, 14 anos, que viviam de sobras de lixo e catando papel para reciclagem.
César amava Melissa, que amava Paulo. Esse triângulo, de fato, foi a fonte para todos os eventos da trama. César, inadvertidamente, encontrou um artefato alienígena que lhe garantiu toda e qualquer forma de poder. Por ser um trágico humanitário, o jovem deficiente decidiu compartilhar sua descoberta com seus amigos, que fizeram uso do disco e se tornaram os super-heróis Tribuno, Centurião e Vésper.
E durante algum tempo, eles foram os heróis do planeta, salvando as pessoas de ameaças e tragédias. Mas o clímax atinge quando todos passam a confrontar os ideais, resultando em uma tragédia digna da civilização grega.
"Quando Hulk 2 foi lançado, notei o entusiasmo do pessoal, dizendo que havia ficado legal o uso da Favela. Poxa, é isso aí! Na época que eu e Bené produzimos a Família Titã, as pessoas diziam que estória de super-herói não combinava com favela. Então, é necessário a vinda dos gringos para mostrar que isso podia ser feito, sim. Mas, com certeza, nós fomos os pioneiros", disse Danton.

"Sim, tragédia e realismo fazem a cabeça dos leitores de hoje e o engraçado é que nós introduzimos isso há quase 20 anos", completou Bennett.
Danton continua brincando que eles são Stan Lee e Jack Kirby, "dois caras bem diferentes, mas que usam essas diferenças nas estórias".
"Tanto que Franco a publicou várias vezes [Risos]", concluiu o artista.

Fora de catalogo, os exemplares da Familia Titã são  disputadíssima entre os colecionadores de Hqs e e sempre lembrada por vários estudiosos do quadrinhos nacionais como sinônimo de qualidade. Alem disso a dupla Gian e Bene mostrou que e possível sim criar boas estórias de super heróis no Brasil, desde que fuja das imitações baratas e da falta de originalidade que sempre caracterizou e caracteriza o gênero  no nosso pais. Um possível remake da estória vem sendo preparado e devera sair pela editora Quadrix aina este ano.

 Apesar de seu roteirista Gian Danton  afirmar que “Esta não é uma história de super-heróis”, Familia Tita e totalmente antenada com as mudanças  que o gênero estava passando naquela virada de década. O ambiente sombrio, os personagens psicologicamente profundos e o clima de niilismo eram típicos da cahamada “Era Sombria” dos quadrinhos. A dupla despretensiosamente  coloca essa pequena obra prima em pe de igualdade com a revolução  que mestres como Alan Moore, Grant Morrison e Frank Miller  imprimiam nas paginas dos então cansados comics americanos.

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