quarta-feira, maio 30, 2018

O moderno prometeu


Muitos conhecem o personagem Frankenstein, especialmente graças às suas adaptações cinematográficas, mas poucos conhecem sua origem. Uma quantidade ainda menor de pessoas sabe que o livro que lançou o mito foi um dos primeiros a discutir a ética científica.
A história tem sua origem em uma noite sombria do ano de 1816. O poeta Lord Byron, que havia fugido da Inglaterra, encontrava-se em um castelo à beira do lago de Genebra, na Suíça, e junto com ele estavam vários outros intelectuais e escritores, entre eles Percy Shelley e a sua mulher Mary.
O grupo divertia-se contando histórias de fantasmas e estabeleceu-se um concurso para saber quem escreveria a história mais aterrorizante.
Para espanto de todos, foi Mary, uma desconhecida até então, que conseguiu vencer o concurso. Ela se ba-seou nas pesquisas do anatomista italiano Luigi Galvani com a eletricidade. Enquanto dissecava uma rã, ele descobriu, acidentalmente que os músculos da mesma se contraiam quando percorridos por uma corrente elétrica.
Intrigado, Galvani repetiu o experimento, publicando os resultados no livros De Verbis Eletricitatis.
Uma consequência imediata da descoberta foi a percepção de que a eletricidade parecia ter uma relação íntima com a vida. Alguns começaram até a cogitar a possibilidade de se criar vida artificial através dela.
Mary partiu dessa idéia para construir sua história. Nela, o doutor Victor (Von Frankenstein (ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, esse é o nome do cientista, e não do monstro) rouba cadáveres e, juntando os órgãos de um e de outro, monta um novo ser, que é trazido à vida graças a uma descarga elétrica. Vendo o resultado de sua experiência, Victor se arrepende e abandona a criatura, que passa a persegui-lo.
O livro, além de ser o marco fundador do chamado romance científico (mais recentemente denominado de ficção científica), traz outras caraterísticas interessantes. A principal delas é a discussão sobre o limite ético da pesquisa científica. O extraordinário é que tal discussão se desse em plena modernidade.
O pensamento científico surge na era moderna como uma utopia. Não só o mundo, como a vida de cada pessoa seria melhorada com os avanços tecnológicos. A era da razão, propagada pelo iluminismo, tiraria a civilização das trevas da ignorância representadas pela Idade Média.
Essa crença cega na razão e na ciência é predominante na modernidade. Entretanto, essa visão idílica foi totalmente abalada com a explo¬são da bomba atômica sobre Hiroshima. Ficou claro, então, que a mesma ciência que trazia conforto, saúde e felicidade, poderia trazer horror, morte e destruição.
Mais tarde os estudantes rebeldes de maio de 68 também criticaram o caráter ideológico da ciência, seu envolvimento com o poder e a manutenção do status quo.
Boa parte dessa discussão pós-moderna é antecipada por Shelley em seu livro. O Dr. Frankenstein não tem o senso ético que deveria nortear sua pesquisa. Para ele, o conhecimento visando apenas o conhecimento, sem uma preocupação com os resultados sociais. Tanto que, ao ver o monstro, ele simplesmente o abandona, deixando-o à própria sorte.
O livro de Mary é cada vez mais atual. Afinal, com o desenvolvimento da genética, o homem pode, afinal, criar um ser humano artificial, Os obstáculos para tal experiência não são técnicos (a tecnologia para tal, se ainda não existe, existirá em pouco tempo), mas éticos.

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