quarta-feira, julho 18, 2018

Literatura, racismo e petróleo

Leia o trecho: "Ele propôs-lhe morarem juntos, e ela concordou de braços abertos, feliz de meter-se de novo com um português, porque, como toda cafuza, não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua". Parece racista, não? Esse é só um dos muitos exemplos de racismo encontrados na obra de de... Aluísio de Azevedo. O romance O cortiço, por exemplo, é todo construído a partir de ideias racistas – é um livro cujo racismo é a base a partir da qual foi construída a trama. Da mesma forma, vários outros escritores brasileiros do final do século XIX e início do século XX eram racistas e rechearam suas obras de textos racistas.
No entanto, você nunca viu capas de revistas com destaque para o racismo de Aluísio de Azevedo. Nunca viu campanhas na internet ou memes com suas frases racistas. Por que não? Por que Azevedo, assim como outros escritores racistas, nunca mexeu com petróleo.
Lobato morou algum tempo nos EUA e percebeu que a base da riqueza e do desenvolvimento daquele país estava no petróleo e no ferro. E voltou ao Brasil disposto a puxar uma campanha: o petróleo é nosso. Foi boicotado de todas as maneiras. Seus sócios foram mortos, ele foi preso, poços que jorravam petróleo foram concretados. Quando um dos entusiastas da campanha do petróleo foi equivocadamente para a sede da Standard Oil (conhecida como Shell) achando que era uma empresa nacional, o diretor regional explicou-lhe algumas verdades: “Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standar. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras”. 
Lobato denunciou a situação em um livro para crianças, O poço do Visconde, e em um livro para adultos, O escândalo do petróleo e do ferro. Toda uma geração cresceu sabendo a importância do petróleo para a economia de um país e como esse petróleo era cobiçado pelas grandes companhas estrangerias.
A campanha O petróleo é nosso, criada por Lobato ganhou força na década de 1950. Foi quando começou a primeira campanha contra Lobato: acusavam-no de ser comunista para desacreditá-lo. No final, o petróleo foi nacionalizado, mas quem ganhou os créditos foi Getúlio Vargas, o mesmo que havia perseguido Lobato anos antes justamente por conta do petróleo.
Em 2011 começou uma nova campanha. Agora com foco no racismo. O objetivo não era alertar para o fato de que a maioria dos escritores do final do século XIX e início do século XX eram racistas e esse racismo, fruto de sua época, se refletia em sua obra (a exemplo do romance O cortiço, cujo racismo permeia todas as páginas). Era focada única e exclusivamente em Monteiro Lobato. Nenhum outro escritor era sequer citado. Dava a impressão que Lobato tinha inventado o racismo no Brasil. Mães apavoradas devolviam livros de Lobato nas livrarias.
E o que estava acontecendo em 2011? Começava-se a discutir a venda dos direitos de exploração do pré-sal para empresas estrangeiras (foram vendidos alguns já naquela época e outras mais recentemente).          
Ninguém estrilou. Afinal, “O petróleo é nosso” passou a ser coisa de escritor racista. Coincidência? 

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