terça-feira, fevereiro 24, 2026

O Último Azul: A Amazônia como Cenário, não Protagonista

 


Algo me incomodou desde os primeiros minutos de O Último Azul, de Gabriel Mascaro: embora a paisagem fosse nitidamente amazônida, as pessoas não falavam como nortistas. No Norte, o uso do "tu" é predominante e identitário, mas, no filme, o "você" domina os diálogos de forma artificial.

Conforme a trama confirmava que a história se passava, de fato, na Amazônia, esse estranhamento cresceu. O ponto crítico ocorre quando a protagonista, com fome, decide comprar um açaí. Apesar de estar em uma venda tipicamente nortista, o produto oferecido é o "açaí do Sul": uma mistura com granola, leite condensado e frutas — algo que simplesmente não faz parte do cotidiano tradicional da região. Fica a pergunta: não havia ninguém na produção para alertar que aquele não é o nosso jeito de falar, muito menos o nosso jeito de comer açaí?

A história, uma distopia, acompanha uma mulher prestes a ser internada em uma colônia para idosos. Em seus últimos dias de liberdade, ela deseja apenas voar. Impedida até de comprar uma passagem de ônibus sem a autorização da filha, ela recorre a um barco para chegar a um local que abriga um ultraleve.

A narrativa é poética e pungente, destacando-se por paisagens belíssimas. Entretanto, é uma pena que, nesta obra, a Amazônia seja tratada apenas como um pano de fundo estético, e não como a verdadeira protagonista que deveria ser.

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