quinta-feira, março 05, 2026

Demolidor – Purgatório

 


A saga da queda de Matt Murdock, de Frank Miller e David Mazzucchelli, é célebre por muitos motivos, mas o principal deles é o estudo psicológico de como as pessoas reagem diante das adversidades. Não por acaso, o número dois começa com Foggy Nelson tentando trocar uma lâmpada e caindo da escada. Glori, ex-namorada de Matt, preocupa-se, mas ele a tranquiliza: “Caí sobre a minha parte mais macia.”. Logo depois a garota recebe uma ligação do ex-namorado e podemos imaginar o que ele está dizendo pela expressão perplexa dessa: “Ele não está dizendo coisa com coisa”.

Como tudo o mais nessa saga impressionante, até mesmo esses pequenos fatos são pensados para refletir aspectos importantes dos personagens: diante da queda, Foggy reage com bom humor e Matt sucumbe à loucura e à paranoia.

Diante da queda, Foggy reage com bom humor, Matt Murdock enlouquece. 


Na imagem seguinte vemos Murdock deitado em uma cama de um hotel barato. A imagem traz um contraste assustador com a página de abertura do número anterior. As duas são vistas de cima, mas se antes víamos Matt em sua cama em sua mansão, agora a precariedade do lugar impressiona. Mazzucchelli contribui com a ambientação ao desenhar um rato embaixo da cama. “Este lugar fede a ratos. Eu preferia ficar com um amigo. Mostre-me um e fico com ele. Mostre-me uma única pessoa no mundo que não tenha me traído...”.

Esse quadro, no contraste com o da edição anterior, mostra a decadência do personagem e reflete sua deterioração mental.  

A splash page de abertura reflete da decadência do personagem. 


Nessa fase, Miller, embora não desenhasse mais, fazia o rafe das páginas e sua narrativa visual é impressionante incluindo o melhor uso da elipse quadrinística que já vi em toda a minha vida.

Na página em questão, Matt reflete sobre quem é o responsável por sua desgraça, O Rei, e decide sair para se vingar. As ações mostradas detalhadas, como se fosse uma câmera lenta. Ele se levanta da cama, aproxima-se da porta, coloca a mão na maçaneta, gira... Na página seguinte, vemos uma imagem do Rei caído ao chão, sua cabeça estourada numa poça de sangue. “Eu esmurro o rei sem dó e ele suplica por clemência e me devolve tudo que me tirou e se entrega à polícia”, pensa Matt Murdock.

A tentativa de sair do quarto é lenta, como uma câmera lenta... 


Mas é apenas a imaginação do personagem. Na imagem seguinte, ele está de volta à cama. A elipse é perfeita ao mostrar o quanto o personagem está quebrado: embora saiba quem é o responsável por sua ruína, ele é incapaz até mesmo de sair da cama. Seu caminho até a porta durou uma eternidade, mas ele voltou rapidamente para a cama e para a incapacidade de lidar com a situação. 

Enquanto isso, o Rei se rejubila como se estivesse jogando com um brinquedo novo, ou como uma criança que tortura uma mosca.

... e a volta para a cama é rápida. 


No final, quando Matt finalmente consegue ir ao seu encontro e enfrentá-lo, o Rei não só o surra, como manda prendê-lo num taxi roubado que é jogado no rio. “A Morte de Murdock não deve ser misteriosa ou suspeita. Não deve haver margem para dúvidas ou motivo para investigação”, diz o texto.

No entanto, no último quadrinhos, vemos o herói entrando em um beco cheio de mendigos, a roupa encharcada.

Matt Murdock é preso em um carro que é jogado no rio, mas sobrevive. 


É difícil explicar, hoje em dia, o impacto que essa sequência teve sobre os leitores da época. Para todos ficava óbvio que depois disso as histórias de super-heróis nunca mais seriam as mesmas.

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