A saga da queda de Matt Murdock, de Frank Miller e David
Mazzucchelli, é célebre por muitos motivos, mas o principal deles é o estudo
psicológico de como as pessoas reagem diante das adversidades. Não por acaso, o
número dois começa com Foggy Nelson tentando trocar uma lâmpada e caindo da
escada. Glori, ex-namorada de Matt, preocupa-se, mas ele a tranquiliza: “Caí
sobre a minha parte mais macia.”. Logo depois a garota recebe uma ligação do
ex-namorado e podemos imaginar o que ele está dizendo pela expressão perplexa
dessa: “Ele não está dizendo coisa com coisa”.
Como tudo o mais nessa saga impressionante, até mesmo esses
pequenos fatos são pensados para refletir aspectos importantes dos personagens:
diante da queda, Foggy reage com bom humor e Matt sucumbe à loucura e à paranoia.

Diante da queda, Foggy reage com bom humor, Matt Murdock enlouquece.
Na imagem seguinte vemos Murdock deitado em uma cama de um
hotel barato. A imagem traz um contraste assustador com a página de abertura do
número anterior. As duas são vistas de cima, mas se antes víamos Matt em sua
cama em sua mansão, agora a precariedade do lugar impressiona. Mazzucchelli
contribui com a ambientação ao desenhar um rato embaixo da cama. “Este lugar
fede a ratos. Eu preferia ficar com um amigo. Mostre-me um e fico com ele. Mostre-me
uma única pessoa no mundo que não tenha me traído...”.
Esse quadro, no contraste com o da edição anterior, mostra
a decadência do personagem e reflete sua deterioração mental.

A splash page de abertura reflete da decadência do personagem.
Nessa fase, Miller, embora não desenhasse mais, fazia o
rafe das páginas e sua narrativa visual é impressionante incluindo o melhor uso
da elipse quadrinística que já vi em toda a minha vida.
Na página em questão, Matt reflete sobre quem é o
responsável por sua desgraça, O Rei, e decide sair para se vingar. As ações mostradas
detalhadas, como se fosse uma câmera lenta. Ele se levanta da cama, aproxima-se
da porta, coloca a mão na maçaneta, gira... Na página seguinte, vemos uma
imagem do Rei caído ao chão, sua cabeça estourada numa poça de sangue. “Eu
esmurro o rei sem dó e ele suplica por clemência e me devolve tudo que me tirou
e se entrega à polícia”, pensa Matt Murdock.

A tentativa de sair do quarto é lenta, como uma câmera lenta...
Mas é apenas a imaginação do personagem. Na imagem
seguinte, ele está de volta à cama. A elipse é perfeita ao mostrar o quanto o
personagem está quebrado: embora saiba quem é o responsável por sua ruína, ele
é incapaz até mesmo de sair da cama. Seu caminho até a porta durou uma
eternidade, mas ele voltou rapidamente para a cama e para a incapacidade de
lidar com a situação.
Enquanto isso, o Rei se rejubila como se estivesse jogando
com um brinquedo novo, ou como uma criança que tortura uma mosca.

... e a volta para a cama é rápida.
No final, quando Matt finalmente consegue ir ao seu
encontro e enfrentá-lo, o Rei não só o surra, como manda prendê-lo num taxi
roubado que é jogado no rio. “A Morte de Murdock não deve ser misteriosa ou
suspeita. Não deve haver margem para dúvidas ou motivo para investigação”, diz
o texto.
No entanto, no último quadrinhos, vemos o herói entrando em
um beco cheio de mendigos, a roupa encharcada.

Matt Murdock é preso em um carro que é jogado no rio, mas sobrevive.
É difícil explicar, hoje em dia, o impacto que essa
sequência teve sobre os leitores da época. Para todos ficava óbvio que depois
disso as histórias de super-heróis nunca mais seriam as mesmas.

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