sábado, maio 23, 2026

Amazônia, colônia do Brasil

 


Normalmente, quando pensamos em colonialismo, imaginamos o domínio e a exploração de uma nação sobre outra. Há, no entanto, uma vertente interna desse fenômeno: o colonialismo interno, que ocorre quando uma região de um país é transformada em colônia das demais. É o que demonstra Violeta Loureiro na obra Amazônia: Colônia do Brasil (Valer, 2022).

A autora evidencia como a região sempre foi encarada como um estoque de recursos: desde a escravização indígena até a extração das "drogas do sertão" e da borracha. O ciclo da borracha, inclusive, foi emblemático. Naquela época, Manaus e Belém abrigavam fábricas de manufaturados de látex, como botas e materiais hospitalares. Contudo, quando a demanda global cresceu, o governo federal interrompeu o financiamento dessas indústrias, forçando seu fechamento para que o beneficiamento fosse transferido para São Paulo.

De fato, o capital oriundo da borracha financiou a industrialização paulista. "São Paulo era a locomotiva da época", escreveu Antônio Loureiro, "mas a Amazônia lhe fornecia os trilhos e o combustível necessários às suas caldeiras".

O dinheiro da borracha bancou a industrialização de São Paulo. 


Se a Amazônia sempre foi vista como colônia, essa condição foi institucionalizada durante o regime militar. Diante de uma balança comercial deficitária, o governo federal elegeu a região como fonte de exploração permanente para sanar as contas nacionais.

Técnicos do sudeste elaboraram um plano de desenvolvimento que priorizava hidrelétricas — para abastecer as indústrias do próprio Centro-Sul —, a agropecuária extensiva e a mineração. Para blindar esses projetos de interferências locais ou judiciais, a ditadura consolidou o modelo colonial. Entre 1968 e 1985, 105 municípios do Norte foram declarados Áreas de Segurança Nacional. Sob domínio da União, essas cidades tinham prefeitos nomeados pelo presidente, sem qualquer ingerência dos governadores estaduais.

Além disso, uma faixa de 100 quilômetros ao longo das rodovias federais passou à jurisdição de Brasília. Isso facilitou a expulsão e o extermínio de populações locais, como indígenas e posseiros. No auge desse processo, os governos estaduais administravam apenas 29,7% das terras amazônicas; todo o restante estava sob o controle do governo federal.

O plano dos militares incluía usar os rios da Amazônia para produzir energia para o centro-sul. 


O isolamento dos formuladores desses projetos, que muitas vezes desconheciam a realidade local, gerou situações absurdas.

Na pecuária, a estratégia de financiamento do Banco da Amazônia (Basa) premiava a devastação: quanto mais floresta o fazendeiro derrubasse, mais crédito recebia. Ignorava-se que a criação de gado já existia na região sem necessidade de desmatamento, em campos naturais como os do Curiaú, no Amapá. Para a tecnocracia do Centro-Sul, contudo, a Amazônia era um bloco uniforme de "terra firme" que precisava ser "limpo" para o progresso.

Mesmo após a redemocratização, essa lógica persiste. A Lei Kandir, por exemplo, impede a cobrança de ICMS sobre a exportação de energia elétrica e produtos primários, privando os estados amazônicos de receitas vitais, apesar do impacto socioambiental das hidrelétricas em seus territórios. O ápice dessa contradição ocorreu no apagão do Amapá em 2020: a população ficou um mês sem luz, enquanto a hidrelétrica local continuava a bombear energia para o restante do país.

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