Blueberry sempre foi uma série que desafiava os cânones do
faroeste.
Seu protagonista, visualmente feio, aproximava-se muito
mais da figura do anti-herói. No entanto, foi a partir do décimo álbum, General
Cabeça-Amarela, que a série se tornou realmente revolucionária. Produzido
em 1968, no mesmo período das revoltas estudantis, este álbum trazia consigo os
ecos dos acontecimentos da época.
![]() |
| O general quer uma grande vitória sobre os índios, mesmo que para isso precise massacrar mulheres e crianças. |
Para começar, o vilão da história é o General McAlister,
claramente baseado no General Custer, que entrou para a história por conseguir
uma "grande vitória contra os índios" ao massacrar mulheres, crianças
e idosos. O personagem, inclusive, é visualmente inspirado no Custer
verdadeiro. Assim nasceu o General Cabeça-Amarela, que deu título ao álbum.
Na história anterior, Blueberry havia conseguido negociar a
paz no oeste, fazendo com que os indígenas parassem seus ataques contra a
ferrovia. Mas a chegada de McAlister coloca todo o esforço a perder. O general
quer, a todo custo, uma vitória gloriosa para seu currículo. Ao encontrar um
grupo formado por mulheres, idosos e crianças, passa a persegui-los. Essa é uma
trama perfeita para um período em que os cânones estavam sendo questionados,
inclusive a ideia de que os indígenas eram os vilões.
![]() |
| Blueberry salva o general, mas nem isso o livra da fúria dos superior. |
Charlier aproveita essa deixa social, mas não a transforma
em um panfleto, como faria um roteirista menos competente. O resultado é uma história
frenética de ação em que o leitor não consegue respirar em paz por um minuto,
tal como os personagens.
O protagonista oscila constantemente entre dois imperativos
éticos: de um lado, ele quer ajudar os indígenas e impedir o massacre; por
outro, como militar, ele precisa obedecer a ordens. Um exemplo é quando ele e
um grupo são colocados na retaguarda para retardar um grupo de guerreiros que
pretendem auxiliar os atacados. Vale destacar que a trama aqui também é mais
crua: muita gente morre, de ambos os lados.
![]() |
| Blueberry é colocado para proteger a retaguarda do batalhão. |
Blueberry vive outros momentos de dilema ético quando
precisa enganar um grupo de guerreiros, fazendo-os ir na direção errada para
impedir que seu regimento seja massacrado... ou quando ele salva o general de
morrer afogado nas águas geladas.
No entanto, todos os seus atos de coragem só lhe valem acusações
de traição e covardia. Uma situação perfeita para conquistar a simpatia de uma
geração que via com maus olhos a autoridade e o militarismo.
![]() |
| Para evitar que os militares sejam atacados, o protagonista faz os indígenas desviarem do caminho. |
Além da própria qualidade do roteiro de Charlier e dos
desenhos de Giraud, essa característica de disruptura explica por que Blueberry
continuou sendo um sucesso enquanto muitas outras séries de faroeste caíram no
esquecimento.





Sem comentários:
Enviar um comentário