quinta-feira, maio 21, 2026

Blueberry – O general Cabeça Amarela

 


Blueberry sempre foi uma série que desafiava os cânones do faroeste.

Seu protagonista, visualmente feio, aproximava-se muito mais da figura do anti-herói. No entanto, foi a partir do décimo álbum, General Cabeça-Amarela, que a série se tornou realmente revolucionária. Produzido em 1968, no mesmo período das revoltas estudantis, este álbum trazia consigo os ecos dos acontecimentos da época.

O general quer uma grande vitória sobre os índios, mesmo que para isso precise massacrar mulheres e crianças. 


Para começar, o vilão da história é o General McAlister, claramente baseado no General Custer, que entrou para a história por conseguir uma "grande vitória contra os índios" ao massacrar mulheres, crianças e idosos. O personagem, inclusive, é visualmente inspirado no Custer verdadeiro. Assim nasceu o General Cabeça-Amarela, que deu título ao álbum.

Na história anterior, Blueberry havia conseguido negociar a paz no oeste, fazendo com que os indígenas parassem seus ataques contra a ferrovia. Mas a chegada de McAlister coloca todo o esforço a perder. O general quer, a todo custo, uma vitória gloriosa para seu currículo. Ao encontrar um grupo formado por mulheres, idosos e crianças, passa a persegui-los. Essa é uma trama perfeita para um período em que os cânones estavam sendo questionados, inclusive a ideia de que os indígenas eram os vilões.

Blueberry salva o general, mas nem isso o livra da fúria dos superior. 


Charlier aproveita essa deixa social, mas não a transforma em um panfleto, como faria um roteirista menos competente. O resultado é uma história frenética de ação em que o leitor não consegue respirar em paz por um minuto, tal como os personagens.

O protagonista oscila constantemente entre dois imperativos éticos: de um lado, ele quer ajudar os indígenas e impedir o massacre; por outro, como militar, ele precisa obedecer a ordens. Um exemplo é quando ele e um grupo são colocados na retaguarda para retardar um grupo de guerreiros que pretendem auxiliar os atacados. Vale destacar que a trama aqui também é mais crua: muita gente morre, de ambos os lados.

Blueberry é colocado para proteger a retaguarda do batalhão. 


Blueberry vive outros momentos de dilema ético quando precisa enganar um grupo de guerreiros, fazendo-os ir na direção errada para impedir que seu regimento seja massacrado... ou quando ele salva o general de morrer afogado nas águas geladas.

No entanto, todos os seus atos de coragem só lhe valem acusações de traição e covardia. Uma situação perfeita para conquistar a simpatia de uma geração que via com maus olhos a autoridade e o militarismo.

Para evitar que os militares sejam atacados, o protagonista faz os indígenas desviarem do caminho. 


Além da própria qualidade do roteiro de Charlier e dos desenhos de Giraud, essa característica de disruptura explica por que Blueberry continuou sendo um sucesso enquanto muitas outras séries de faroeste caíram no esquecimento.

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