quarta-feira, maio 27, 2026

Enigma na Televisão, de Marcos Rey

 


Marcos Rey, antes de se tornar um fenômeno da literatura infantojuvenil, exerceu várias profissões ligadas à escrita, entre elas a de roteirista de novelas e séries (chegando a escrever, por exemplo, para o Sítio do Picapau Amarelo). Ele trouxe essa bagagem da produção audiovisual para o livro O Enigma na Televisão, publicado pela icônica Coleção Vaga-Lume.

Na trama, um assassino misterioso está matando atores da TV Mundial (uma referência direta à Rede Globo). Quando um repórter acredita ter descoberto o padrão dos crimes graças a um livro, ele também é executado. Cabe, então, ao seu irmão mais novo, Ivo, a missão de desmascarar o culpado.

Marcos Rey nitidamente se divertiu ao escrever sobre um ambiente que conhecia tão bem. A obra começa, por exemplo, com uma lista de personagens apresentada como se fosse o elenco de uma novela. Além disso, o texto utiliza uma linguagem "telegráfica", quase como um roteiro, o que confere uma agilidade incrível ao romance. Um exemplo marcante dessa objetividade é o trecho: “Paulo estava sentado diante dum espelho. Às costas, uma enorme e crescente mancha de sangue. Morto”.

O autor também esbanja talento no humor, criando diálogos inusitados como: “Meu coração aguenta. Só tive três enfartes”. Essa comicidade estende-se até os títulos dos capítulos, frequentemente metalinguísticos, como: “Nem eu, que escrevi este livro, esperava por esta”.

O humor, aliás, não serve apenas para entreter, mas como ferramenta de crítica social. Rey inventa uma sociedade conservadora chamada "Sentinelas", cuja líder cronometra beijos na TV com o objetivo de proibir cenas românticas. A passagem em que essa fanática leva sua campanha para as praias, cronometrando o afeto de namorados na areia, é um dos momentos mais hilários e perspicazes da obra.

Foi graças a livros como este que Marcos Rey formou gerações de leitores e consolidou o gênero policial para o público jovem no Brasil.

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