Marcos Rey, antes de se tornar um fenômeno da literatura
infantojuvenil, exerceu várias profissões ligadas à escrita, entre elas a de
roteirista de novelas e séries (chegando a escrever, por exemplo, para o Sítio
do Picapau Amarelo). Ele trouxe essa bagagem da produção audiovisual para o
livro O Enigma na Televisão, publicado pela icônica Coleção Vaga-Lume.
Na trama, um assassino misterioso está matando atores da TV
Mundial (uma referência direta à Rede Globo). Quando um repórter acredita ter
descoberto o padrão dos crimes graças a um livro, ele também é executado. Cabe,
então, ao seu irmão mais novo, Ivo, a missão de desmascarar o culpado.
Marcos Rey nitidamente se divertiu ao escrever sobre um
ambiente que conhecia tão bem. A obra começa, por exemplo, com uma lista de
personagens apresentada como se fosse o elenco de uma novela. Além disso, o
texto utiliza uma linguagem "telegráfica", quase como um roteiro, o
que confere uma agilidade incrível ao romance. Um exemplo marcante dessa
objetividade é o trecho: “Paulo estava sentado diante dum espelho. Às
costas, uma enorme e crescente mancha de sangue. Morto”.
O autor também esbanja talento no humor, criando diálogos
inusitados como: “Meu coração aguenta. Só tive três enfartes”. Essa
comicidade estende-se até os títulos dos capítulos, frequentemente
metalinguísticos, como: “Nem eu, que escrevi este livro, esperava por esta”.
O humor, aliás, não serve apenas para entreter, mas como
ferramenta de crítica social. Rey inventa uma sociedade conservadora chamada
"Sentinelas", cuja líder cronometra beijos na TV com o objetivo de
proibir cenas românticas. A passagem em que essa fanática leva sua campanha
para as praias, cronometrando o afeto de namorados na areia, é um dos momentos
mais hilários e perspicazes da obra.
Foi graças a livros como este que Marcos Rey formou
gerações de leitores e consolidou o gênero policial para o público jovem no
Brasil.

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