A editora abril ficou célebre por modificar os quadrinhos de super-heróis publicados por ela. Essas mudanças muitas vezes tinham a ver com a mudança de formato e muitas vezes relação com a cronologia Marvel criada pela editora. Mas em nenhuma outra publicação essas mudanças foram tão infames quanto em Guerras Secretas. E, em toda a série, em nenhum número isso foi tão infame quanto no último número da série.
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| Anúncio no número 11 resumia os acontecimentos do último capítulo. Depois a Abril mudou tudo. |
As mudanças eram tão óbvias que até eu, no alto dos meus 15
anos e sem nunca ter visto uma revista original da Marvel, percebi que havia
alguma coisa errada. Até porque, no número 11 a Abril havia publicado um
pequeno resumo do que aconteceria no número seguinte... e o que eu estava lendo
era algo completamente diferente!

A sequência da Ninfa d´água cortada pela Abril: a explicação sobre Beyonder não fazia sentido.
Para começar, a Abril simplesmente cortou da revista toda a
sequência dos vilões no espaço, a sequência em que Encantor invoca uma
elemental da água e esta lhe conta o que tinha acontecido. Segundo ela, uma
fenda em sua dimensão fez com que Beyonder observasse a Terra e ficasse curioso
a respeito dela, o que lhe deu a ideia de coletar cobaias e colocá-las em
confronto. Embora isso dê uma explicação para os acontecimentos da série Guerras
Secretas, ela não faz sentido para Galactus, afinal ele não é humano, então
porque foi levado para o planeta? Era Jim Shooter tentando dar um pouco de verossimilhança
para seu deus ex machina, mas esquecendo que isso tinha que combinar com o
restante da série.
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| Depois de serem fulminados, os heróis são ressuscitados. Ninguém morria em Guerras Secretas. |
A sequência com os vilões acaba pela metade, como se o
roteirista Jim Shooter tivesse se esquecido de voltar a ela conforme escrevia o
roteiro. Mesmo lendo a história original, nós não sabemos nem se os vilões
conseguem chegar à Terra. Assim, os editores da Abril devem ter achando que o
ideal era deixar apenas o gancho do número anterior, com os personagens indo
para a terra através do poder do homem molecular.
Para cortar toda essa sequência, a Abril fez um verdadeiro
malabarismo, principalmente porque essa sequência é entremeada com a sequência
de Destino, no qual ele discute com o Garra Sônica, dorme e depois acorda.
Assim, a edição da Abril mostra os dois conversando, e de repente, sem
explicação nenhuma, o doutor Destino está lavando o rosto. Se a história não
fazia muito sentido na versão original, aqui faz menos sentido ainda.
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| O Capitão morre várias vezes só nessa edição. |
Na edição anterior todos os heróis haviam sido fulminados
por um raio, mas na explicação do Garra Sônica, Colossus vira aço antes do
raio, o que permite à curandeira Zsji trazê-lo de volta à vida. Colossos por
sua vez consegue salvar o Senhor Fantástico, que traz todos de volta à vida. Mais
forçado, impossível.
Os caras tinham sido fulminados por um raio, mas mesmo
assim Jim Shooter dá um jeito de revivê-los. A Vespa morre duas vezes durante a
série e volta à vida. O Capitão América bate as botas três vezes, duas só na
última edição e também volta à vida. Fica evidente demais que as mortes na
série são apenas um artifício dramático barato que não tem nenhuma efetividade.
É um artificio que, de tão usado, perde completamente a eficácia. O leitor vê
alguém morrendo e pensa: “Sem problemas, daqui a duas páginas esse aí está vivo
de novo”.
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| A página remontada pela Abril. |
No final, tudo se resolve e Beyonder manda todo mundo de
volta à terra. Como a cronologia da Abril estava atrasada e eles queriam que
essa história se encaixasse na cronologia deles, eles produziram uma página
inteira na qual o Beyonder volta o uniforme do Aranha para a versão clássica,
faz o professor Xavier voltar a ser paralítico e faz a tTempestade voltar ao
uniforme antigo. “Agora tudo retornou ao que era”, diz o texto. “Nada mais devo
a vocês! Voltarei aos meus domínios para meditar sobre o que aconteceu nesses
dias!”.
A abril já tinha feito muita coisa, principalmente cortar
páginas e mudar texto, mas essa a primeira vez que chegavam ao ponto de incluir
uma página inteira feita no Brasil no meio de uma história.
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| A Abril chegou a criar uma página inteira para adequar o final à sua cronologia. |
Lendo finalmente a versão original, chego à conclusão de
que, apesar dos muitos problemas de roteiro e de ser uma indisfarçada
propaganda de brinquedos, Guerras Secretas era divertido. Não chegava nem perto
de ser um clássico como Crise nas Infinitas Terras, mas era divertido. Já a
versão da Abril era heresia total.







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