sexta-feira, julho 31, 2026
The Last Kingdon
Homem-aranha e Sonja: demônios do passado
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| ... e se transforma na guerreira. |
Lembranças da biblioteca
Na época em que eu fazia o ensino médio, um endereço certo, visitado todo dia depois das aulas, era a biblioteca do Centur, em Belém.
Eu lia uma barbaridade. Chegava a ler até mais de um livro por semana. Era meio que para tirar o atraso, pois até os 14 anos, quando descobri a biblioteca do Centur, eu só tinha lido Aventuras de Xisto (lido e relido mais de vinte vezes).
Eu ia direto à biblioteca circulante (que emprestava livros) e procurava algo interessante. Se não encontrava nada muito bom, levava um do Júlio Verne, que era diversão garantida.
Fiz amizade com as bibliotecárias e elas me indicavam livros. Uma delas me indicou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, um clássico da literatura regional nordestina. Mas o primeiro livro que li lá foi um volume de contos de H.G. Wells. A biblioteca tinha um mural em que ficavam as resenhas dos livros escritas pelos leitores. Incentivado pela bibliotecária, fiz uma resenha do livro de Wells (confesso que não lembro qual era o título). Com certeza foi minha primeira resenha. Chegou uma época em que todas as resenhas do mural eram de minha autoria. O curioso é que muitos anos depois, fui trabalhar no Centur e a bibliotecária que me dava dicas virou minha colega de trabalho...
Comecei a trabalhar no Centur quando eles resolveram montar a gibiteca. Antes disso, eu já freqüentava o local e ajudava as servidoras, inclusive dando dicas sobre como elas poderiam classificar as revistas em quadrinhos, que eram guardadas em caixas arquivo. Sugeri que elas fossem separadas por títulos ou por personagens. Aquelas que não tinham em quantidade suficiente para montar uma caixa, nós uníamos por gênero: humor, infantil, drama, terror, aventura, ficção-científica... antes de serem catalogcadas, as revistas ficavam todas guardadas em um armário de metal e para mim era mágico abrir aquelas portas e folhear as publicações. Era como nadar em um oceano de informação.
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| Nos dias de sábado eu podia ler clássicos, como o álbum de Flash Gordon da Ebal. |
No Centur ninguém gostava de trabalhar aos sábado. Eu gostava, pois era o dia que dava menos gente e era possível sentar para ler. Era o dia em que eu aproveitava para ler os clássicos, publicados em álbuns da Ebal ou na enorme revista GIBI. Impossível ler esse material grande e grandioso nos dias de corre-corre.
Foi nessa época em que li uma das melhores e mais desconhecidas HQs: Capitão César. O título original era Wash Tubs. O desenhista trabalhava muito bem com papel reticulado, criando efeitos fantásticos. E as histórias eram envolventes. Lembro de uma em que o Capitão César, em missão na Alemanha, acaba indo parar em um campo de concentração e escapa de lá. Propaganda norte-americana do tempo de guerra, evidentemente, mas quem liga? Como diria Spielberg, os nazistas são ótimos vilões porque não aparece ninguém com cara de pau para defende-los.
Fundo do baú - Spectreman
Spectreman foi, provavelmente, o primeiro herói ecológico.
A série surgiu em 1971 quando o presidente da produtora japonesa P Productions teve a ideia de fazer um seriado com macacos alienígenas para aproveitar o sucesso do filme O planeta dos macacos. O herói usava um uniforme vermelho com uma máscara na qual aparecia a parte de baixo do rosto e se chamava Elementman. A TV Fuji aceitou a proposta, mas exigiu algumas alterações. Assim, o nome do herói foi mudado para Spectreman, ele passou a usar um uniforme dourado e uma máscara que cobria todo o rosto.
Nessa nova versão, o herói, disfarçado entre os humanos como Kenji e viera para a Terra, a mando dos Dominantes, combater a poluição e a degradação do planeta. Já no primeiro episódio ele procura a Divisão de pesquisa e controle de poluição e avisa sobre um desastre ambiental que acontecerá na bahia de Tókio.
| A primeira versão do herói. A máscara fica estranha mesmo. |
Da água poluída surge um monstro que exala gás venenoso e esse é o primeiro adversário do herói.
O monstro foi criado a partir da poluição pelo doutor Góri, que pretende usar monstros gigantes para dominar a Terra. Ele e seu ajudante Karas são de um planeta de homens-macacos super-evoluídos que dominam alta tecnologia. Ao perceberem que Góri pretendia tomar o poder e transformar o local pacífico numa potência militar, ele é condenado à morte, mas foge com a ajuda de Karas. O irônico aí é que Karas, embora tenha vindo do mesmo planeta que Góri, não fala e age como um macaco humano. A dupla bizarra era uma das principais atrações do seriado com suas atuações exageradas.
| O gibi publicado pela Bloch e feito por uma equipe brasileira fez sucesso nas bancas. |
A P Productions era uma produtora pequena e o tempo de produção era curto, o que fazia com que os episódios fossem excessivamente toscos num gênero que era tosco por natureza. Os cenários eram mínimos e obviamente artificiais, os monstros mal-feitos e o herói quando voava era nitidamente um boneco pendurado numa corda. As explosões eram álcool queimando os raios eram feitos raspando diretamente no negativo do filme. A nave do Dr. Gori muitas vezes balançava enquanto voava. Mas a mistura de humor, ação e preocupação ecológica agradou e o seriado se tornou popular no Japão. No total foram produzidos 63 episódios.
No Brasil, o seriado chegou em 1981, na Band, mas só chamou atenção mesmo quando começou a ser exibido pelo SBT em 1986 no programa do Bozo. Tornou-se uma febre entre a criançada. Fez tanto sucesso que chegou a ter uma revista em quadrinhos pirata, produzida e publicada pela editora Bloch. Nessa versão o uniforme do herói foi modificado, de dourado para azul em consonância com a mania da editora de cores berrantes. Os roteiros eram de Carlos Araújo e os desenhos do estúdio de Eduardo Vetillo. A revista durou 30 números.
Tom Strong e o planeta do perigo
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| ... para salvá-la, Tom e o genro vão para a Terra Obscura, mas o local está arrasado por uma pandemia. |
Perry Rhodan: A Sexta Época
Os Senhores de Andrômeda foi o primeiro ciclo da série Perry Rhodan a durar 100 números. No entanto, talvez para não romper totalmente com a estrutura anterior, K.H. Scheer, o coordenador da série, escreveu o número 250 como se fosse um novo ciclo, resumindo os fatos anteriores, estabelecendo uma nova ambientação e definindo uma nova era — daí o nome A Sexta Época.
Em termos de novidades, Scheer apresenta a nova frota
terrana, destacando as naves mosquito e o supercouraçado, cuja
escala monumental faz com que as maiores naves anteriores pareçam anãs. Scheer
demonstra um verdadeiro fetiche por descrições técnicas e de engenharia
espacial, dedicando dezenas de páginas a trechos detalhados como estes:
"As cinquenta corvetas, com seus campos defensivos hiperenergéticos, as máquinas propulsoras compactas e o canhão conversor pesado, tinham um poder de combate por unidade que muitos povos astronautas não conseguiam alcançar com frotas inteiras."
Ou ainda:
"O poder de combate dos mosquitos já era conhecido. Quinhentas unidades pequenas desse tipo eram capazes, em virtude de seus campos hiperenergéticos e dos canhões conversores, de transformar grandes frotas de guerra em nuvens de gases incandescentes. Nem mesmo os supercouraçados da classe Império seriam capazes de resistir ao ataque concentrado de quarenta mosquitos."
Curiosamente, embora seja obsessivo nas especificações
técnicas, o autor na maioria das vezes omite detalhes visuais básicos: não
sabemos, por exemplo, qual é o formato exato dos mosquitos ou das corvetas
nesta descrição inicial.
Embora essa introdução técnica seja bem escrita, ela se
estende por mais da metade do volume. A ação propriamente dita só ganha fôlego
quando a nave Crest III encontra uma estrutura metálica colossal, do
tamanho de um pequeno planeta, aparentemente abandonada no vácuo.
O leitor que persiste até este ponto é recompensado com uma
trama repleta de Sense of Wonder
quando a estrutura se revela um estaleiro espacial automatizado,
especializado em consertar naves avariadas. Para conquistar clientes, os robôs
realizam um verdadeiro "show" de vendas:
"Ei, amigos, sejam bem-vindos ao KA-Barato!" — diz um dos robôs. — "Estão interessados num conserto? Pode ser feito. Será barato, amigos, barato mesmo. O estaleiro KA-Barato não quer apenas ser barato, ele não apenas afirma isso — ele realmente trabalha barato. E bem. Ouçam, amigos!"
É um início empolgante para uma nova fase, algo que Scheer,
como mestre da Space Opera militarista, sabia conduzir com maestria.
quinta-feira, julho 30, 2026
Primavera para Hitler
Primavera para Hitler é um filme de 1968, de Mel Brooks com Gene Wilder e Zero Mostel nos papeis principais.
Na trama um produtor de musicais (Zero Mostel) está decadente e é obrigado a namorar velhas endinheiradas para conseguir dinheiro, mas descobre, através de um contador (Gene Wilder) que um fracasso pode ser mais lucrativo que um sucesso. A receita é simples: basta arrecadar patrocínio muito a mais do que necessário para a produção. Se a peça for um fracasso total, apresentando-se um único dia, nenhum dos investidores irá procurar receber seu dinheiro de volta.
Para conseguir seu intento, a dupla procura a pior peça já escrita e encontram "Primavera para Hitler", escrita por um lunático nazista. Para dirigir o espetáculo escolhem o pior diretor da cidade: um cara afetado com mania de grandiosidade. Para o papel de Hitler, escolhem um rapaz que fora ao teatro por engano e só quer cantar rock. O produtor chega a subornar um crítico musical sabendo que isso o fará detonar o musical. Mas tudo dá errado quando a peça, inexplicavelmente, se torna um sucesso.
Na época o filme chegou a ser proibido na Alemanha, embora seu diretor fosse judeu.
Primavera para Hitler é comédia inteligente e politicamente incorreta. Destaque para a cena das moças semi-nuas cantando que Hitler está destruindo a Polônia ou a das moças vestidas como soldados nazistas dançando uma coreografia baseada no passo de ganso. Ou a secretária belíssima, mas que não fala em inglês e entende que trabalhar é dançar rock. Ou a do autor da peça tentando convencer a plateia de que não escreveu uma comédia (e todos acham que isso faz parte da piada). Enfim, Primavera para Hitller mostra bem porque Mel Brooks é considerado o homem que revolucionou o cinema de humor.
Esse filme, aliás, só seria possível nos revolucionários anos 1960. Hoje em dia Mel Brooks seria considerado persona non grata em Israel.
Roteiro de quadrinhos: objetos
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| A estatueta de um falcão é o que move a trama na história O falcão maltez. |
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| A caveira de crital é um exemplo de Mcguffin |
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| Os suspensórios representam a ética jornalística em A motanha dos sete abutres |
Admirável mundo novo
Dylan Dog – O coração dos homens
Tropa Alfa – No reino das bestas
O confronto com as bestas, saga mais grandiosa da Tropa Alfa, teve o seu de clímax na edição 24 do título.
Na história anterior, Pássaro da Neve havia sido obrigada a matar Sasquatch, arrancando seu coração quando ele foi domiando por uma fera ancestral. Mas é possível trazê-lo de volta à vida resgatando seu espírito no mumbro sombrio governado pelas bestas.
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| Byrne usa o preto e branco para caracterizar o mundo das bestas. |
Aqui entra a genialidade narrativa de John Byrne: quando os personagens entram na outra dimensão, ele os continua fazendo na maneira convencional, com traço limpo e cores. Mas o mundo no qual eles chegam é representado em preto e branco, em um traço repleto de detalhes e hachuras. É uma forma eficiente de representar visualmente que os heróis estão em um local alienígena.
Lá eles encontram o demônio Somon, que governa o local e impede que as feras ataquem umas às outras.
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| Os heróis descem ao poço das lamentações para resgatar a alma do amigo. |
Somon lança contra eles as bestas, e não desiste nem mesmo depois de derrotado. Ele os envia a um tal poço da lamentações, onde estaria a alma de Walter, mas isso acaba se revelando uma armadilha.
O fato da história ser grandiosa não significa que não tenha problemas. Pássaro da Neve, por exemplo, derrota com muita facilidade Somon e a solução para resgatar Walter é quase um deus ex machina, uma situação que surge do nada e não é muito bem explicada.
Ainda assim, é uma história empolgante, principalmente grandas à narrativa visual de Byrme.
X-men – O início da saga da Fênix Negra
A saga da Fênix Negra foi o ponto máximo de um longo processo que transformou a revista dos mutantes de um azarão sempre à beira do cancelamento na revista mais vendida da Marvel.
Essa grande e revolucionária saga começa em The Uncanny X-men 129. É curioso como uma história que iria sacudir o universo Marvel tenha começado de maneira tão pouco impactante. Nos quadrinhos Marvel, a splash page de abertura geralmente mostra uma espetacular cena de ação ou uma situação inusitada, que estimula a imaginação do leitor. Aqui a splash page é usada para mostrar apenas a despedida dos X-men dos que iriam ficar na Escócia logo após a derrota de Proteus. Banshee está sem poderes e prefere ficar consolando Moira após a morte do filho. O Homem múltiplo, Destrutor e Polaris preferem se manter longe da vida de super-heróis. Essa sequencia inicial é Chris Claremont desenvolvendo os personagens e estabelecendo o estilo novelão que caracterizaria os mutantes.
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| Uma splash page atípica. |
Enquanto isso, mestre Mental volta a invadir a mente da Fênix fazendo-a acreditar que está vivenciando a vida de uma antepassada do século XIX, um gancho para a parte principal da trama.
Mas logo as coisas esquentam quando a equipe se separa para contactar dois novos mutantes descobertos pelo cérebro.
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| O Mestre Mental manipula a mente de Jean Grey. |
O professor Xavier, Tempestade, Wolverine, Colossus e Ororo vão para Chicago, tentar convencer os pais de Kitty Pride a matriculá-la no colégio para jovens superdotados. Na mesma sequência a garota vai, aos poucos descobrindo seus poderes.
Claremont manipula muito bem o roteiro para mostrar esse processo como um desabrochar equivalente à puberdade, num paralelo direto com Carrie, de Stephen King: “Ô cabecinha, dá um tempo... o que eu fiz de errado, hein? Putz, como dói! Esta é a pior de todas! Deus, eu só tenho 13 anos e meio! Não posso morrer!”, desespera-se a menina.
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| Os X-men são atacados e Kitty Pride descobre seus poderes. |
Assim que surgiu, Kitty conquistou rapidamente a simpatia dos leitores. Ela era também um ponto de referencia para novos leitores que estavam chegando à revista naquela época, estimulados pelo buxixo provocado pela qualidade das histórias da dupla Claremont-Byrne.
Assim como esses leitores, ela estava descobrindo o mundo mutante e seus perigos. Perigos que logo aparecem quando homens com armaduras invadem a sorveteria onde ela, Ororo, Colossus e Wolverine estão. É nessa sequencia que temos também a primeira visão da rainha branca em sua roupa fetichista e seu fantástico poder mental. Poder, aliás, magistralmente ilustrado por John Byrne numa imagem em que os X-men, atingidos por sua rajada psíquica, são mostrados apenas em linhas e envoltos numa aura branca e vermelha.
Para as pessoas da minha geração, essa história prometia muito... e não decepcionou.

























