sexta-feira, julho 31, 2026

The Last Kingdon

 


Quem gostou de Vikings certamente irá apreciar The Last Kingdon, lançado recentemente no Brasil pela Netflix.
Se Vikings é focado nos nórdicos, Tha Last Kingdon é centrado nos saxões. Acompanhamos praticamente os mesmos eventos – a Inglaterra sendo invadida, a resistência, as vitórias e derrotas, mas agora do ponto de vista saxão.
O personagem principal, no entanto, é uma mistura das duas culturas, o que permite um equilíbrio interessante e um dilema que acompanha sempre.
A série conta a história de Uhtred, um garoto cujo pai foi morto em um ataque viking. O próprio garoto é pego como prisioneiro e é criado por seu captor, Ragnar Ragnarson, como se fosse um filho ao salvar a filha deste de uma tentativa de estupro. Uhtred, batizado como cristão, é criado como danês, reverenciando deuses como Thor e Odin e irá, durante toda a série oscilar entre esses dois opostos. Embora renegue os ensinamentos cristãos, seu melhor amigo na série é um padre.
A vida desse personagem fictício é usada para contar praticamente toda  a história da Inglaterra na época das invasões nórdicas, com um apuro histórico bem maior do que Vikings, que em alguns momentos abusava da liberdade poética. Assim, Uhtred é, muitas vezes sem querer, envolvido nos principais acontecimentos do período, em especial nas guerras, já que se revela um guerreiro sem igual.
Baseada na série de livros Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell, The Last Kingdon começa lenta, especialmente na comparação com Vikings, mas vai ganhando ritmo, principalmente a partir da segunda temporada. Na terceira temporada em diante, as batalhas parecem mais realistas, a direção mais frenética e até o figurino parece melhor (em uma das batalhas, a filha do rei é perseguida por daneses e a câmera a acompanha como se fosse alguém correndo próximo, num dos momentos mais eletrizantes da série). É também quando o expectador já conhece melhor os personagens e já simpatiza com eles.
Alexander Dreymon nem de longe é um ator tão versátil quanto Travis Fimmel, que faz papel de Ragnar em Vikings, mas mesmo assim consegue dar verossimilhança ao papel.
The Last Kigdon já está na quarta temporada e a Netflix já anunciou que será feita uma quinta temporada.
É uma ótima pedida para fãs de história.

Homem-aranha e Sonja: demônios do passado

 


Como fazer uma história unindo o Homem-aranha e Sonja, dois personagens que, pela cronologia da Marvel, são separados por milhares de anos? E como fazer isso de forma que a história parecesse verossímil?
Esse é o desafio que Chris Claremont e John Byrne se impuseram no volume 79 da revista Marvel Team-up e, por incrível que pareça, o resultado é incrivelmente bom. A roteiro da história é creditado aos dois, o que geralmente funcionava. Byrne sabia desenvolver visualmente a narrativa e criar situações interessantes. Já Claremont conseguia criar com o texto a ambientação e a caracterização dos personagens.
Mary segura a espada de Sonja... 


Na história, um museu está exibindo uma coleção de achados arqueológicos. O vigia do local fica encantado por um colar e uma voz lhe diz para colocá-lo. É quando ele se transforma em Kulan Gath, um mago dos tempo hiborianos. Um feixe escarlate de energia envolve o museu e Peter Parker vai fazer a matéria para o Clarin. Mary Jane faz questão de ir junto. Quando Peter entra no local, sua namorada também o faz e, da mesma forma que o vigia se transformou no feiticeiro, ela se transforma na heroína Sonja ao pegar sua espada, também em exposição no museu.
... e se transforma na guerreira.

Pronto: estava explicada a presença da guerreira ruiva na Nova York do século XX!
Byrne tinha nessa história a arte-final de Terry Austin, que não só valorizava o traço do canandense como ainda acrescentava mais detalhes. A splash page em que Sonja aparece pela primeira vez é um verdadeiro deslumbre e o grande momento da história. Byrne desenha a personagem com perfeição e, ao mesmo tempo, aproveita muito da caracterização Frank Thorne, o desenhista mais famoso da personagem, em especial os olhos felinos.
A história é pura ação e puro êxtase visual.

Lembranças da biblioteca

 

Menino de engenho foi um dos livros que li por indicação da bibliotecária.

Na época em que eu fazia o ensino médio, um endereço certo, visitado todo dia depois das aulas, era a biblioteca do Centur, em Belém.

Eu lia uma barbaridade. Chegava a ler até mais de um livro por semana. Era meio que para tirar o atraso, pois até os 14 anos, quando descobri a biblioteca do Centur, eu só tinha lido Aventuras de Xisto (lido e relido mais de vinte vezes).

Eu ia direto à biblioteca circulante (que emprestava livros) e procurava algo interessante. Se não encontrava nada muito bom, levava um do Júlio Verne, que era diversão garantida.

Fiz amizade com as bibliotecárias e elas me indicavam livros. Uma delas me indicou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, um clássico da literatura regional nordestina. Mas o primeiro livro que li lá foi um volume de contos de H.G. Wells. A biblioteca tinha um mural em que ficavam as resenhas dos livros escritas pelos leitores. Incentivado pela bibliotecária, fiz uma resenha do livro de Wells (confesso que não lembro qual era o título). Com certeza foi minha primeira resenha. Chegou uma época em que todas as resenhas do mural eram de minha autoria. O curioso é que muitos anos depois, fui trabalhar no Centur e a bibliotecária que me dava dicas virou minha colega de trabalho...

Comecei a trabalhar no Centur quando eles resolveram montar a gibiteca. Antes disso, eu já freqüentava o local e ajudava as servidoras, inclusive dando dicas sobre como elas poderiam classificar as revistas em quadrinhos, que eram guardadas em caixas arquivo. Sugeri que elas fossem separadas por títulos ou por personagens. Aquelas que não tinham em quantidade suficiente para montar uma caixa, nós uníamos por gênero: humor, infantil, drama, terror, aventura, ficção-científica... antes de serem catalogcadas, as revistas ficavam todas guardadas em um armário de metal e para mim era mágico abrir aquelas portas e folhear as publicações. Era como nadar em um oceano de informação.

Nos dias de sábado eu podia ler clássicos, como o álbum de Flash Gordon da Ebal.


No Centur ninguém gostava de trabalhar aos sábado. Eu gostava, pois era o dia que dava menos gente e era possível sentar para ler. Era o dia em que eu aproveitava para ler os clássicos, publicados em álbuns da Ebal ou na enorme revista GIBI. Impossível ler esse material grande e grandioso nos dias de corre-corre. 

Foi nessa época em que li uma das melhores e mais desconhecidas HQs: Capitão César. O título original era Wash Tubs. O desenhista trabalhava  muito bem com papel reticulado, criando efeitos fantásticos. E as histórias eram envolventes. Lembro de uma em que o Capitão César, em missão na Alemanha, acaba indo parar em um campo de concentração e escapa de lá. Propaganda norte-americana do tempo de guerra, evidentemente, mas quem liga? Como diria Spielberg, os nazistas são ótimos vilões porque não aparece ninguém com cara de pau para defende-los.

Fundo do baú - Spectreman

 


Spectreman foi, provavelmente, o primeiro herói ecológico.

A série surgiu em 1971 quando o presidente da produtora japonesa P Productions teve a ideia de fazer um seriado com macacos alienígenas para aproveitar o sucesso do filme O planeta dos macacos. O herói usava um uniforme vermelho com uma máscara na qual aparecia a parte de baixo do rosto e se chamava Elementman. A TV Fuji aceitou a proposta, mas exigiu algumas alterações. Assim, o nome do herói foi mudado para Spectreman, ele passou a usar um uniforme dourado e uma máscara que cobria todo o rosto.

Nessa nova versão, o herói, disfarçado entre os humanos como Kenji e viera para a Terra, a mando dos Dominantes, combater a poluição e a degradação do planeta. Já no primeiro episódio ele procura a Divisão de pesquisa e controle de poluição e avisa sobre um desastre ambiental que acontecerá na bahia de Tókio.

A primeira versão do herói. A máscara fica estranha mesmo. 


Da água poluída surge um monstro que exala gás venenoso e esse é o primeiro adversário do herói.

O monstro foi criado a partir da poluição pelo doutor Góri, que pretende usar monstros gigantes para dominar a Terra. Ele e seu ajudante Karas são de um planeta de homens-macacos super-evoluídos que dominam alta tecnologia. Ao perceberem que Góri pretendia tomar o poder e transformar o local pacífico numa potência militar, ele é condenado à morte, mas foge com a ajuda de Karas. O irônico aí é que Karas, embora tenha vindo do mesmo planeta que Góri, não fala e age como um macaco humano. A dupla bizarra era uma das principais atrações do seriado com suas atuações exageradas.

O gibi publicado pela Bloch e feito por uma equipe brasileira fez sucesso nas bancas.


A P Productions era uma produtora pequena e o tempo de produção era curto, o que fazia com que os episódios fossem excessivamente toscos num gênero que era tosco por natureza. Os cenários eram mínimos e obviamente artificiais, os monstros mal-feitos e o herói quando voava era nitidamente um boneco pendurado numa corda. As explosões eram álcool queimando os raios eram feitos raspando diretamente no negativo do filme.  A nave do Dr. Gori muitas vezes balançava enquanto voava. Mas a mistura de humor, ação e preocupação ecológica agradou e o seriado se tornou popular no Japão. No total foram produzidos 63 episódios.

No Brasil, o seriado chegou em 1981, na Band, mas só chamou atenção mesmo quando começou a ser exibido pelo SBT em 1986 no programa do Bozo. Tornou-se uma febre entre a criançada. Fez tanto sucesso que chegou a ter uma revista em quadrinhos pirata, produzida e publicada pela editora Bloch. Nessa versão o uniforme do herói foi modificado, de dourado para azul em consonância com a mania da editora de cores berrantes. Os roteiros eram de Carlos Araújo e os desenhos do estúdio de Eduardo Vetillo. A revista durou 30 números.

Tom Strong e o planeta do perigo

 

 


Imagine a responsabilidade de escrever um personagem concebido por Alan Moore. É esse desafio que Peter Hogan se impõe na série em seis partes Tom Strong e o planeta do perigo (publicada encadernada no Brasil pela Panini em 2019).
Hogan se aproveitou de uma história do personagem publicada nos números 11 e 12 do título regular no qual Tom descobre uma contraparte da terra, chamada por ele de terra obscura, ocupada por diversos heróis científicos, inclusive uma contraparte sua, chamada de Tom Strange. Nessa fase da revista, Moore estava fazendo homenagens a quadrinhos clássicos e o número 12 imitava as capas da liga da justiça, inclusive na logo da revista e era uma clara alusão às terras paralelas da DC.
Na história, Telsa está grávida, mas a gravidez pode matá-la...


Na série de Hogan, Strong precisa da ajuda de Strange para salvar sua filha, Tesla. Seu filho, como o pai, tem a propriedade de se transformar em lava incandescente e isso pode matar a mãe. A única forma de resolver a situação é tornar Tesla invulnerável usando a fórmula Alisson, de  Tom Strange.
Mas quando chega no planeta obscuro, Tom Strong percebe que sua missão não será fácil: o local está dominado por uma praga que matou milhões de pessoas. E ele e Val, seu genro, podem estar infectados e levar a doença para a seu planeta. 
... para salvá-la, Tom e o genro vão para a Terra Obscura, mas o local está arrasado por uma pandemia. 


Assim, para salvar sua filha, ele precisa primeiro salvar a terra obscura, ajudando a encontrar uma cura.
Peter Hogan não é Alan Moore, mas consegue dar conta do recado. Consegue fazer uma história divertida, que aprofunda a mitologia da terra obscura. A arte de Chris Sprouse também ajuda bastante.

Perry Rhodan: A Sexta Época


Os Senhores de Andrômeda foi o primeiro ciclo da série Perry Rhodan a durar 100 números. No entanto, talvez para não romper totalmente com a estrutura anterior, K.H. Scheer, o coordenador da série, escreveu o número 250  como se fosse um novo ciclo, resumindo os fatos anteriores, estabelecendo uma nova ambientação e definindo uma nova era — daí o nome A Sexta Época.

Em termos de novidades, Scheer apresenta a nova frota terrana, destacando as naves mosquito e o supercouraçado, cuja escala monumental faz com que as maiores naves anteriores pareçam anãs. Scheer demonstra um verdadeiro fetiche por descrições técnicas e de engenharia espacial, dedicando dezenas de páginas a trechos detalhados como estes:

"As cinquenta corvetas, com seus campos defensivos hiperenergéticos, as máquinas propulsoras compactas e o canhão conversor pesado, tinham um poder de combate por unidade que muitos povos astronautas não conseguiam alcançar com frotas inteiras."

Ou ainda:

"O poder de combate dos mosquitos já era conhecido. Quinhentas unidades pequenas desse tipo eram capazes, em virtude de seus campos hiperenergéticos e dos canhões conversores, de transformar grandes frotas de guerra em nuvens de gases incandescentes. Nem mesmo os supercouraçados da classe Império seriam capazes de resistir ao ataque concentrado de quarenta mosquitos."

Curiosamente, embora seja obsessivo nas especificações técnicas, o autor na maioria das vezes omite detalhes visuais básicos: não sabemos, por exemplo, qual é o formato exato dos mosquitos ou das corvetas nesta descrição inicial.



Embora essa introdução técnica seja bem escrita, ela se estende por mais da metade do volume. A ação propriamente dita só ganha fôlego quando a nave Crest III encontra uma estrutura metálica colossal, do tamanho de um pequeno planeta, aparentemente abandonada no vácuo.

O leitor que persiste até este ponto é recompensado com uma trama repleta de Sense of Wonder  quando a estrutura se revela um estaleiro espacial automatizado, especializado em consertar naves avariadas. Para conquistar clientes, os robôs realizam um verdadeiro "show" de vendas:

"Ei, amigos, sejam bem-vindos ao KA-Barato!" — diz um dos robôs. — "Estão interessados num conserto? Pode ser feito. Será barato, amigos, barato mesmo. O estaleiro KA-Barato não quer apenas ser barato, ele não apenas afirma isso — ele realmente trabalha barato. E bem. Ouçam, amigos!"

É um início empolgante para uma nova fase, algo que Scheer, como mestre da Space Opera militarista, sabia conduzir com maestria.

quinta-feira, julho 30, 2026

Primavera para Hitler

 

 

Primavera para Hitler é um filme de 1968, de Mel Brooks com Gene Wilder e Zero Mostel nos papeis principais.
Na trama um produtor de musicais (Zero Mostel) está decadente e é obrigado a namorar velhas endinheiradas para conseguir dinheiro, mas descobre, através de um contador (Gene Wilder) que um fracasso pode ser mais lucrativo que um sucesso. A receita é simples: basta arrecadar patrocínio muito a mais do que necessário para a produção. Se a peça for um fracasso total, apresentando-se um único dia, nenhum dos investidores irá procurar receber seu dinheiro de volta.
Para conseguir seu intento, a dupla procura a pior peça já escrita e encontram "Primavera para Hitler", escrita por um lunático nazista. Para dirigir o espetáculo escolhem o pior diretor da cidade: um cara afetado com mania de grandiosidade. Para o papel de Hitler, escolhem um rapaz que fora ao teatro por engano e só quer cantar rock. O produtor chega a subornar um crítico musical sabendo que isso o fará detonar o musical. Mas tudo dá errado quando a peça, inexplicavelmente, se torna um sucesso.
Na época o filme chegou a ser proibido na Alemanha, embora seu diretor fosse judeu.
Primavera para Hitler é comédia inteligente e politicamente incorreta. Destaque para a cena das moças semi-nuas cantando que Hitler está destruindo a Polônia ou a das moças vestidas como soldados nazistas dançando uma coreografia baseada no passo de ganso. Ou a secretária belíssima, mas que não fala em inglês e entende que trabalhar é dançar rock. Ou a do autor da peça tentando convencer a plateia de que não escreveu uma comédia (e todos acham que isso faz parte da piada). Enfim, Primavera para Hitller mostra bem porque Mel Brooks é considerado o homem que revolucionou o cinema de humor.

Esse filme, aliás, só seria possível nos revolucionários anos 1960. Hoje em dia Mel Brooks seria considerado persona non grata em Israel.

Roteiro de quadrinhos: objetos

 

A estatueta de um falcão é o que move a trama na história O falcão maltez.


Alguns objetos são fundamentais em determinadas tramas de quadrinhos.
Uma forma mais simples de uso de objetos num roteiro é o Mcguffin.
Mcguffin é aquele objeto que representa os anseios dos personagens, aquilo que o personagem e seus antogonistas querem.
Um exemplo clássico de Mcguffin é o romance policial O falcão maltez: a pequena estatueta na forma de falcão é algo que todos procuram e que provoca vários assassinatos. O desafio do detetive é descobrir o que está acontecendo e por que o falcão é um objeto tão importante (no final, descobre-se que há uma jóia dentro dele).
Os filmes de Indiana Jones sempre têm algum tipo de Mcguffin, seja a arca sagrada ou a caveira de cristal.
A caveira de crital é um exemplo de Mcguffin

Outro uso de objetos é o Leitmotiv.
Originalmente o Leitmotiv, ou motivo condutor, era uma música ou trilha que se repetia sempre que um personagem entrava em cena, caracterizando-o. Por exemplo, no filme M - O vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang, o assassino de crianças é sempre mostrado assoviando uma canção. Isso vai ser fundamental para a trama, pois irá permitir que um mendigo o indentifique.
Mas, como o desenvolvimento da dramaturgia, objetos também começaram a ser usados como lenimotiv, caracterizando personagens ou caracterizando mudanças em suas personalidades.
Um exemplo clássico de objeto como motivo condutor são os suspensórios no filme A montanha dos sete abutres.
Na história um jornalista sem escrúpulos chamado Charles Tatum acaba procurando emprego em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de todos os grandes jornais. Logo na cena inicial, em que pede o emprego, ele percebe que o editor usa cinto e suspensórios, um indício de que ele é alguém que sempre checa as informações duas vezes, uma atitude refletida no quadro sobre seu escritório: “Diga sempre a verdade”.
Os suspensórios representam a ética jornalística em A motanha dos sete abutres

Na cena seguinte vemos Tatum usando suspensórios, uma representação de que ele se adequou ao perfil ético do editor. Algum tempo depois ele descobre um homem preso em uma caverna e resolve usar o caso, aumentando o tempo de prisão do homem para conseguir voltar para os grandes jornais. Em determinado ponto ele tira os suspensórios e os joga no lixo. Esse gesto demonstra que, a partir daquele ponto ele abandona toda a ética e será capaz de fazer qualquer coisa para conseguir sucesso, incluindo seduzir a esposa do homem preso na caverna.
Mas, seja um Mcgufin ou um Leitmotiv ou qualquer outra função que um objeto importante tenha em cena, deve-se saber lidar com esse objeto, é preciso deixar claro ao leitor que aquele objeto é importante, para que ele o reconheça.
Vamos a um exemplo de uma história policial.
A solução de quem matou o prefeito está dentro de um livro na casa do mesmo. Os policias revistam tudo, mas não olham dentro do livro.
O roteirista inteligente vai dar destaque para esse livro. Vai mostrar um plano detalhe do mesmo, ou vai colocá-lo em primeiro plano enquanto os policiais procuram uma pista e um deles diz que não estão achando nada. Mas é essencial dar destaque para o livro, ser mostrado ao leitor. Não vale o livro surgir do nada, no final da HQ, com a solução do caso.
Imagine, no entanto, que por alguma razão, a solução do assassinato deve se dar na prefeitura. Por mais que tenha sido mostrado o livro antes, não faz sentido ele ter desmaterializado da casa do prefeito e surgido providencialmente na prefeitura na hora em que o crime é desvendado. É preciso mostrar, por exemplo, alguém levando para a prefeitura. Alguém, por exemplo, pode ter pegado para ler e esqueceu na prefeitura. Ou mesmo o detetive pode ter se apossado dele para usá-lo no momento certo.
Imagine mais uma outra situação: a casa do prefeito pegou fogo após o assassinato. Depois o livro, que estava na casa do prefeito, aparece em outro lugar. O leitor vai pensar: “Ué, o livro estava na casa que pegou fogo, o livro não tinha sido queimado?”. O roteiro vai precisar explicar como o livro se salvou.
Em suma: se um objeto é fundamental para a sua trama, dê destaque a ele para que o leitor perceba essa importância e justique tudo relacionado a esse objeto.

Admirável mundo novo

 

Ao lado de 1984, de George Orwell e de Farenheit 451, de Ray Bradbury, Admirável mundo novo, de Adous Huxley, constituí a tríade das mais famosas obras distópicas.
As distopias surgem no início do século XX quando fica claro que o paraíso antevisto no século XIX não iria se concretizar. As pessoas da era vitoriana vislumbrava o futuro como um éden em que a tecnologia libertaria a humanidade do trabalho, da opressão e das doenças. Viveríamos um mundo de felicidade, dedicado apenas ao prazer. Mas a primeira guerra mundial e a difusão de regimes totalitários logo em seguida mostrou que o século XX seria o oposto. A tecnologia seria usada para oprimir e matar e ao invés de liberdade, seríamos escravos de regimes autoritários.
No mundo de Admirável mundo novo, as pessoas são geradas de forma artificial de acordo com classes rígida – os mais aptos intelectualmente são a classe dominante, com funções administrativas. Os mais aptos fisicamente exercem profissões como faxineiros. Desde pequenos, são condicionados através de um sistema subliminar que lhes ensina a serem felizes com sua posição na sociedade e se conformarem com as coisas como elas são.
É um mundo de falsa felicidade, embalado pela droga soma, consumida avidamente por seres vazios. Esse mundo é abalado pela presença de um selvagem, cuja presença questiona faz com que alguns questionem essa falsa felicidade.
Admirável mundo novo é um livro complexo, rico, mas se sua mensagem pudesse ser expressa em uma única frase, seria: nenhuma felicidade vale o preço da liberdade.

Dylan Dog – O coração dos homens

 


O que faz de Dylan Dog um gibi tão especial é o fato de, embora muitas vezes usar monstros clássicos, não trazer histórias convencionais de terror. Desde a primeira história, Dylan surpreendia pela narrativa, muitas vezes flertando com o surreal ou o psicodélico.
O coração dos homens, publicado no número cinco dessa nova versão da Mythos, é um ótimo exemplo disso, a começar pela belíssima capa, que remete aos dois temas do volume: amor e morte. O herói aparece beijando uma de suas namoradas, Dora Caldwell, numa moldura de coração com fundo preto enquanto dois anjinhos flutuam acima do casal com uma furadeira e uma motosserra.
A HQ reflete sobre os relacionamentos do detetive do pesadelo. 


A HQ reflete sobre os relacionamentos de Dylan e sobre como eles são passageiros. Na história, Dora e seu pai sequestram o detetive e o torturam. O objetivo do pai é provar que Dylan não ama Dora. Já Dora pretende provar o amor de Dylan. Enquanto é torturado, o personagem tem delírios inicialmente românticos, que logo se transmutam para o mais puro horror. A lição aí, talvez, é de que o maior terror está no coração dos humanos.
O traço muda quando começam as alucinações. 


A história é escrita por Roberto Recchione e ilustrada por Piero Dall´Agnol. Há algo de curioso no desenho: o traço é jogado, quase um esboço, mas no momento em que começam as alucinações torna-se mais definido e realista, como se as alucinações fossem a verdadeira realidade.

Tropa Alfa – No reino das bestas

 


O confronto com as bestas, saga mais grandiosa da Tropa Alfa, teve o seu de clímax na edição 24 do título.

Na história anterior, Pássaro da Neve havia sido obrigada a matar Sasquatch, arrancando seu coração quando ele foi domiando por uma fera ancestral. Mas é possível trazê-lo de volta à vida resgatando seu espírito no mumbro sombrio governado pelas bestas.

Byrne usa o preto e branco para caracterizar o mundo das bestas. 


Aqui entra a genialidade narrativa de John Byrne: quando os personagens entram na outra dimensão, ele os continua fazendo na maneira convencional, com traço limpo e cores. Mas o mundo no qual eles chegam é representado em preto e branco, em um traço repleto de detalhes e hachuras. É uma forma eficiente de representar visualmente que os heróis estão em um local alienígena.

Lá eles encontram o demônio Somon, que governa o local e impede que as feras ataquem umas às outras.

Os heróis descem ao poço das lamentações para resgatar a alma do amigo. 


Somon lança contra eles as bestas, e não desiste nem mesmo depois de derrotado. Ele os envia a um tal poço da lamentações, onde estaria a alma de Walter, mas isso acaba se revelando uma armadilha.

O fato da história ser grandiosa não significa que não tenha problemas. Pássaro da Neve, por exemplo, derrota com muita facilidade Somon e a solução para resgatar Walter é quase um deus ex machina, uma situação que surge do nada e não é muito bem explicada.

Ainda assim, é uma história empolgante, principalmente grandas à narrativa visual de Byrme.

X-men – O início da saga da Fênix Negra

 



A saga da Fênix Negra foi o ponto máximo de um longo processo que transformou a revista dos mutantes de um azarão sempre à beira do cancelamento na revista mais vendida da Marvel.

Essa grande e revolucionária saga começa em The Uncanny X-men 129. É curioso como uma história que iria sacudir o universo Marvel tenha começado de maneira tão pouco impactante. Nos quadrinhos Marvel, a splash page de abertura geralmente mostra uma espetacular cena de ação ou uma situação inusitada, que estimula a imaginação do leitor. Aqui a splash page é usada para mostrar apenas a despedida dos X-men dos que iriam ficar na Escócia logo após a derrota de Proteus. Banshee está sem poderes e prefere ficar consolando Moira após a morte do filho. O Homem múltiplo, Destrutor e Polaris preferem se manter longe da vida de super-heróis. Essa sequencia inicial é Chris Claremont desenvolvendo os personagens e estabelecendo o estilo novelão que caracterizaria os mutantes.

Uma splash page atípica. 


Enquanto isso, mestre Mental volta a invadir a mente da Fênix fazendo-a acreditar que está vivenciando a vida de uma antepassada do século XIX, um gancho para a parte principal da trama.

Mas logo as coisas esquentam quando a equipe se separa para contactar dois novos mutantes descobertos pelo cérebro.

O Mestre Mental manipula a mente de Jean Grey. 


O professor Xavier, Tempestade, Wolverine, Colossus e Ororo vão para Chicago, tentar convencer os pais de Kitty Pride a matriculá-la no colégio para jovens superdotados. Na mesma sequência a garota vai, aos poucos descobrindo seus poderes.

Claremont manipula muito bem o roteiro para mostrar esse processo como um desabrochar equivalente à puberdade, num paralelo direto com Carrie, de Stephen King: “Ô cabecinha, dá um tempo... o que eu fiz de errado, hein? Putz, como dói! Esta é a pior de todas! Deus, eu só tenho 13 anos e meio! Não posso morrer!”, desespera-se a menina.

Os X-men são atacados e Kitty Pride descobre seus poderes. 


Assim que surgiu, Kitty conquistou rapidamente a simpatia dos leitores. Ela era também um ponto de referencia para novos leitores que estavam chegando à revista naquela época, estimulados pelo buxixo provocado pela qualidade das histórias da dupla Claremont-Byrne.

Assim como esses leitores, ela estava descobrindo o mundo mutante e seus perigos. Perigos que logo aparecem quando homens com armaduras invadem a sorveteria onde ela, Ororo, Colossus e Wolverine estão. É nessa sequencia que temos também a primeira visão da rainha branca em sua roupa fetichista e seu fantástico poder mental. Poder, aliás, magistralmente ilustrado por John Byrne numa imagem em que os X-men, atingidos por sua rajada psíquica, são mostrados apenas em linhas e envoltos numa aura branca e vermelha.

Para as pessoas da minha geração, essa história prometia muito... e não decepcionou.