terça-feira, maio 05, 2020

A última caçada de Kraven



No final da década de 1980 o Homem-aranha vivia uma fase complicada. Os editores haviam decidido casar o personagem, o que se revelara uma boa estratégia de marketing, pois trouxera mais leitores para o título, mas parecia ser um problema editorial: o matrimônio se revelara um complicador narrativo e parecia que não seria fácil escrever boas histórias com um herói casado. Foi quando J M De Matteis criou uma das melhores histórias do personagem, usando exatamente o casamento como mote narrativo.
A história surgira em 1984 quando De Matteis apresentou à Marvel uma proposta de minissérie do personagem Magnum em que ele era enterrado vivo por seu irmã, o Ceifador, e abre caminho até a superfície para só então descobrir que estivera debaixo da terra por meses. O editor-executivo da Marvel, Tom de Falco, recusou a ideia imediatamente.
Mas o roteirista sabia que ali havia uma boa história e ofereceu a história como uma trama do Batman, para a DC Comics, mas foi novamente recusado.
Quando em 1986 lhe ofereceram o título do Homem-aranha, ele resolveu que aquela seria sua chance de ressuscitar a ideia de um herói que é enterrado vivo. Na verdade, ele percebeu que aquele era o personagem ideal para a trama: “Seu amor pela esposa, pela vida que estão construindo juntos, foi o combustível emocional que moveu a trama. A presença de Mary Jane alcançou as profundezas do coração e da alma de Peter, forçando-o a sair daquele caixão”, declarou o roteirista.
A ideia inicial era criar um novo vilão, mas quando De Matteis leu que Kraven era russo, percebeu que era o personagem certo para a trama. Usando como inspiração Dostoievisky, o roteirista deu uma profundidade ao caçador nunca imaginada. Nas histórias anteriores ele era apenas um caçador que se dedicava a caçar o Homem-aranha. Na história de De Matteis ele era um aristocrata russo, obcecado pela ideia de honra e oscilando entre a selvageria e a civilização. Poucas vezes um vilão havia sido mostrado de forma tão tridimensional. A sequência inicial, em que o personagem é mostrado em suas três facetas (a fera, o nobre, o caçador) deu o tom da série e mostrou que as historias do aracnídeo haviam chegado a outro patamar.  
Para desenhar a história foi chamado Mike Zeck, uma escolha perfeita para a história com seu traço elegante e poderoso.
A última caçada de Kraven era para ser apenas mais uma das histórias da revista mensal do Homem-aranha, mas se tornou um dos maiores clássicos do personagem, sendo republicada diversas vezes como minissérie ou álbum de luxo.

segunda-feira, maio 04, 2020

Versailles – série histórica da Netflix


No século XVIII a França vivia uma grande transformação. O poder, que até então estivera nas mãos da nobreza feudal, começou a ser abocanhado pelo rei no processo que ficaria conhecido como absolutismo francês. O maior exemplo disso foi Luís XIV, o rei-sol, que dizia: “O estado sou eu”. E a maior representação desse poder foi o palácio de Versailles.
Versailles foi construída no antigo pavilhão de caça do pai de Luis XIV e tinha dois objetivos: um deles era sair de Paris, diminuindo as possibilidades de uma revolta por parte dos nobres feudais. O segundo objetivo era abrigar os nobres que se conformavam com a nova situação. Destituídos de seu poder e de suas terras, estes recebiam, em troca, um emprego na corte (podia ser abotoar o sapato do rei, por exemplo), onde viviam em meio ao luxo no maior e mais espetacular palácio da Europa.
A vida na corte era um eterno teatro cujo principal ator era o rei-sol. Nobres se acotovelavam para ver o rei acordar ou se recolher, como se vissem o espetáculo do nascer e do por-do-sol. Ou se amontoavam para vê-lo almoçar – os de mais prestígio eram chamados até mesmo para comer junto com o soberano. E Luis parecia ser também o centro sexual do palácio, com suas várias amantes e várias mulheres que pretendiam cair em sua graça.
Versailles era um local de festas eternas, mas também era um local de intrigas palacianas. Os nobres jamais se conformaram em perder o poder e houve vários complôs contra o rei.
A série Versalhes, lançada no Brasil pela Netflix, se propõe a abordar a construção do castelo, o luxo e as intrigas que envolviam a corte francesa. E não decepciona. O figuro é realmente esplêndido, assim como cenário. Há incongruências, claro. Em algumas cenas, o palácio, filmado atualmente, aparece inteiro, com partes que não existiam na época em que a história decorre. Mas elas passam facilmente despercebidas diante do bom roteiro, da direção inspirada e principalmente das grandes atuações – a começar pelo protagonista, George Blagden (de Vikings). A série tem duas temporadas na plataforma e já se fala em uma terceira. 
Versalhes é perfeito para quem gosta de histórias de intrigas palacianas. É um Guerra dos Tronos sem dragões. E com um final realmente de tirar o fôlego. 

Igreja de Santo Alexandre em Belém

Um dos pontos históricos obrigatórios para quem visita Belém é a Igreja de Santo Alexandre, uma das mais antigas de Belém e um belíssimo exemplo do barroco amazônida. A igreja, na verdade, acabou ganhando esse nome graças ao colégio, que fica ao lado. O nome original era Igreja de São Francisco Xavier. No colégio, em anexo, estão as relíquias de Santo Alexandre, doadas pelo Vaticano, daí o seu nome. Atualmente a igreja abriga o Museu de Arte Sacra de Belém. Em tempo: a igreja fica no centro histórico de Belém, próxima de vários outros prédios antigos.






A terra plana dá voltas


Tudo muda, as pessoas mudam. Isso é comum. Mas em alguns casos as mudanças são extremas. Muito extremas. Tenho visto guinadas de uma ponta a outra. Exemplo disso é um ex-amigo. Ele era fã do Raul Seixas, hoje em dia é fã do mito e diz que Raul Seixas é marxismo cultural. Era fã do Alan Moore, hoje em dia é fã do mito e diz que Alan Moore é marxismo cultural. Era professor de universidade pública, hoje em dia diz que universidades são marxismo cultural. Como as pessoas mudam!

As vidas de Chico Xavier


Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.
Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro “As vidas de Chico Xavier”. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. “Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?”, ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.
Outro obstáculo filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14. Surpreendentemente, naquele dia, ele resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.
Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial.
Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. Chico respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:
- Deus é que autoriza.
- E ele autoriza?
- Autoriza.
Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai.  Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos do jornalista. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:
- Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!
O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso.
O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo) faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.
O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a ave-maria. Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.
O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos em, alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.
Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.
Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: “E agora aceitavam cavalos lá?”.
Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: “É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê”. O diabo reclamou: “É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!” e sumiu.
Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro.

Quem é o Pantera Negra?



Quando o roteirista Reginald Hudlin contou aos amigos que ia escrever a revista do Pantera Negra, eles perguntaram: Quem? Isso o levou a escrever uma história que não só apresenta o personagem, mas também o reino de Wakanda e mas também criou as principais bases do que viria a ser o filme de enorme sucesso de 2018. Essa história, reunida no volume 38 da coleção de graphic novels Marvel chamou-se “Quem é o Pantera Negra?”.
Hudlin avança muito além do que até então tinha sido feito, remontando ao passado longíncuo de Wakanda, mais precisamente no século V, quando uma tribo rival tenta invadir o local e seus guerreiros são dizimados pelo sistema de defesa incluindo balestras gigantes. Depois, no século XIX, um grupo de aventureiros belgas tenta invadir o local com metralhadoras e é igualmente repelido.
A história pula para o presente, quando o rei de Wakanda está enfrentando adversários em uma disputa pela coroa enquanto dois grupos planejam invadir o país: de um lado vilões, chefiados pelo Garra Sônica, e do outro os americanos interessados nas riquezas naturais do país.
A história não só amplia em muito a mitologia do personagem, acrescentando informações (como a de que o Garra Sônica é descendente do belga que foi morto tentando invadir Wakanda no século XIX). E faz isso com muita ação e uma trama envolvente e empolgante. Além disso, acrescenta uma viva crítica social sobre como os países de primeiro mundo sempre viram a África como um quintal do qual poderiam retirar o que quisessem.
Os desenhos ficam por conta de John Romita Jr. Ele é adorado por muitos e odiado por outros (no geral eu gosto muito). Mas mesmo quem odeia dificilmente diria que ele não foi uma boa escolha. Fortemente influenciado por Jack Kirby, ele traz de volta toda a grandiosidade de Wakanda e cria um visual que seria a principal influencia para o design do filme.

domingo, maio 03, 2020

Conhecimento artístico na revista Filosofia


A revista Conhecimento Prático Filosofia era uma publicação da Editora Escala voltada para professores de Filosofia. Eu colaborei com o número 17 com uma matéria sobre O conhecimento artístico. Trata-se de uma abordagem nova, ancorada em autores como Edgar Morin, segundo o qual a arte é uma forma de adquirirmos conhecimento sobre o mundo. Através da arte (aqui entendida de forma geral, incluindo quadrinhos, cinema, literatura etc), podemos compreender melhor o mundo em que vivemos e até antecipar como será o mundo futuro. Na matéria, além de Morin, cito Jung, pesquisas sobre o lado direito e lado esquerdo do cérebro, Stephen King, Flash Gordon, Arquivo X etc.

Quem é X-9?


Não faz muito tempo, os bolsonaristas levantaram uma tag chamando o ex-ministro Moro de X-9. Muita gente não entendeu. Agente secreto X-9 era um personagem de quadrinhos criado por Dashiell Hammett (famoso escritor policial noir) e pelo desenhista Alex Raymond. X-9 era uma espécie de detetive que se infiltrava em quadrilhas para conseguir provas para mandar os bandidos para a cadeia. Como essa era sua principalmente estratégia para colocar os criminosos atrás das grades, a expressão X-9 ficou conhecida na gíria dos ladrões como alguém que entrega informações sobre criminosos para a polícia. A série, distribuída pela King Features Syndicate e fez grande sucesso, sendo publicada nos jornais até 1996.
X-9 se infiltrava em grupos criminosos para conseguir provas. 

Na década de 1960 Archie Goodwin e Al Williamson assumiram o personagem, naquela que seria considerada a sua melhor fase.

Como escrever quadrinhos


O livro Como escrever quadrinhos ensina os fundamentos básicos do roteiro a partir da experiência do premiado roteirista Gian Danton. Valor: 25 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

Almanaque Conan 3



Um dos itens favoritos da minha coleção é O almanaque Conan número 3. A publicação reunia encontros do cimério com a ruiva Sonja em uma das melhores fases do personagem.
A edição mostrava também a marotice da editora Abril. A primeira história, “A maldição do morto-vivo”, trazia uma história publicada em Conan The Barbarian 78. As duas histórias seguintes, “A torre de sangue” e “Inferno na torre de sangue” traziam histórias publicadas em Conan The Barbarian 43 e 44. Ou seja, a história seguinte era anterior, mas a Abril publicou como se fosse continuação da primeira.
A edição também traz uma história do redi Kull com roteiro de Gerry Conway e arte dos irmãos Marie e John Severin publicada em Kull The Conqueror  4.
As duas histórias de Conan têm roteiro de Roy Thomas e desenhos de John Buscema (que desenha Sonja como poucos).
O que chama atenção é a incrível capacidade do bárbaro e da ruiva de se meterem em encrencas. Na primeira histórias eles acabam se metendo no meio de uma história de vingança de um bruxo, na segunda eles estão fugindo de caçadores de recompensas quando entram num vão escuro da parede e acabam se tornando presas de dois irmãos magos vampiros. Afinal, se você vê no meio de uma montanha uma fenda tenebrosa, por que não entrar?
Mas talvez o mais interessante seja comparar a narrativa de Thomas em Conan e de Coway em Kull. Thomas escreve sua história quase como um plano sequência, em que acompanhamos as aventuras de Conan praticamente em tempo real. E tudo é focado no protagonista. Isso já não acontece em Kull, que na maioria das vezes têm grandes cortes temporais e muitas sequências focadas nos conspiradores do rei. Isso dava a Conan um ritmo vibrante, de ação initerrupta e provavelmente era parte de sua receita de sucesso nos quadrinhos.
E, claro, a edição tem a linda capa de Earl Norem, um dos melhores capitas do cimério de todos os tempos.

Outros tempos, outros mundos


Robert Silverberg é um dos mais importantes escritores de ficção científica de todos os tempos. A antologia Outros tempos, outros mundos, lançada pelo Círculo do Livro é um bom exemplo da habilidade do autor e se tornou um clássico do gênero.
Silverberg mistura a ficção científica com biologia, psicologia, filosofia, em um emaranhado instigante.
O primeiro conto do livro, “O homem que jamais esquecia”, mostra as agruras de uma pessoa incapaz de esquecer. A maioria das pessoas considera, ingenuamente, que a capacidade de se lembrar das coisas é uma benção, mas ela pode ser um martírio. O protagonista é rejeitado pela sociedade e vive o tempo todo viajando – tanto para evitar locais que já conhece nos mínimos detalhes quando para evitar pessoas que o conheçam.
“Ismael apaixonado” é um dos contos mais curiosos do volume – e certamente um dos mais interessantes já escritos por um autor de ficção científica. Nele, um golfinho responsável por limpar as turbinas de um mecanismo que desaliniza água do mar se apaixona por uma cientista. A grande sacada: o conto é narrado pelo próprio golfinho, o que faz o escritor usar de contorcionismos estilísticos para simular o modo de pensar e de se expressar de um cetáceo.
“Viagem de ida sem volta” nos conta a história de um astronauta que se apaixona por uma mulher de uma colônia terrestre – uma mulher monstruosa para nossos padrões. É uma curiosa investigação psicológica que flerta com a teoria freudiana.
“Nascer do sol em Mercúrio” mostra uma missão para espacial que corre o risco de terminar com a morte de todos os tripulantes porque um dos astronautas decide se matar. Uma interessante abordagem psicológica, inclusive sobre inteligências alienígenas. Daria um ótimo filme de suspense.
“Os exógamos” traz uma interessante questão antropológica. Em um planeta distante, colonizado por humanos, duas famílias se transformaram em clãs que não se misturam por séculos: os Clingert (morenos) e os Baille (loiros). Como tal, cada um cria uma cultura totalmente diferente – além das diferenças exteriores. A inimizade entre eles é tão grande que famílias Baille que tenham filhos morenos são apedrejadas. Tudo se complica quando um rapaz Baille encontra uma moça do clã rival e se apaixona por ela. Silveberg usa esse plot Romeu e Julieta como uma investigação antropológica. 
“Um descer suave” mostra um computador especializado em terapias psicológicas que enlouquece graças ao contato com seus pacientes. O interessante aí é que a história é narrada em primeira pessoa.  Da mesma forma que em “Ismael apaixonado”, o destaque fica por conta da maneira como o escritor se coloca no lugar do personagem, um golfinho no outro conto, um computador aqui.
Enfim, uma coletânea obrigatória. Um único ponto negativo: a horrível capa, com imagem que mostra o horrível robô filme Logan´s run e uma fonte que deveria remeter à ficção científica, mas é apenas datada (e provavelmente já era datada na época em que o livro foi publicado).

sábado, maio 02, 2020

A arte única de Alex Toth


Alex Toth é um desenhista norte-americano mais conhecido pelos seus desenhos de produção para a Hanna Barbera, para animações como Superamigos, Jonny Quest e Herculóides. Mas Toth também tem uma produção memorável nos quadrinhos, com o destaque para o Zorro que ilustrou para Disney. Seu desenho aparentemente simples, mas extremamente funcional e bonito influenciou diversos artistas. 







Um recado dos Simpsons


Superaventuras Marvel 25

Superaventuras Marvel 25 foi a primeira revista que comprei em banca. É uma edição "morna", especialmente a história dos X-men, que apresenta um interlúdio entre a saga de Protheus e a saga da Fênix. Mesmo assim tinha uma boa história de Kull. E foi o suficiente para me conquistar. Nas edições seguintes seriam publicadas algumas das melhores histórias Marvel já lançadas no brasil. A capa seguia o modelo de capas da Abril: uma junção de mais de uma capa americana, ou de desenhos internos. Mas aqui temos um caso em que esse trabalho bem feito. A figura de Ororo em especial domina a capa, chamando atenção para seus olhos expressivos, no traço de John Byrne.

5 Quadrinhos EUROPEUS que VOCÊ deveria CONHECER

Mentira de artista e o fake na arte

Mentira de artista, de Fabio Fon é um livro fundamental para quem quiser entender a arte contemporânea. 
Fábio se debruça sobre casos em que a arte utilizou o fake como elemento criador - estratégia antecipada na frase de Picasso, segundo o qual a arte é uma mentira que revela a verdade. 
A estratégia não é nova. Edgar Allan Poe, inovador como sempre, a usou no episódio conhecido como A balela do balão, em que criou uma viagem imaginária da França aos EUA a bordo de um balão e provocou furor entre os leitores do jornal The Sun.
Mas Fábio se concentra na arte contemporânea, e não por acaso.
Num mundo de simulacros, em que é cada vez mais difícil separar realidade de ficção, a arte se torna essencial para refletirmos sobre esses processos.
Os capítulos vão desde artistas fakes a robôs que se fazem passar por artistas, passando pelo ótimo filme F for Fake, de Orson Welles, o mesmo que protagonizou o episódio Guerra dos Mundos, em a dramatização do clássico livro de H.G. Wells foi tida como verdade e provocou alvoroço nos EUA (tanto Welles quanto Wells foram processados e ambos absolvidos).
A arte que lida com o fake é algo tão novo e perturbador que mesmo entre os estudiosos da arte, muitos não consideram arte, até porque muitas dessas obras contestam até mesmo as noções atuais do que é arte ou do que legitima uma obra como artística.
Mas arte é exatamente isso. A arte verdadeira não conforma, não nos acomoda em nossas noções cristalizadas, mas nos faz pensar, refletir e colocarmos em cheque nossas convicções. E o livro Mentira de artista apresenta vários casos em que a arte fez exatamente isso.

sexta-feira, maio 01, 2020

Liga da Justiça enfrenta o poderoso Tortolini



No ano de 1987 o editor Andy Helfer estava com uma puta bomba nas mãos. Ele tinha sido designado pela direção da DC Comics para ser editor da nova revista da Liga da Justiça. O editor-chefe Dick Giordano tinha lhe dito: “Faça com que a Liga da Justiça volte a ser grande. Faça com que ela seja genial!”.
O problema é que a DC estava saindo da saga Lendas e os editores estavam reformulando seus personagens e não queriam atrapalhar isso colocando-os num grupo. Batman, Superman, Mulher Maravilha, Flash, nenhum dos grandes estava disponível. Na verdade, até personagens menos conhecidos estavam comprometidos.
Tudo que o editor conseguiu foram personagens de terceiro escalão e a promessa de alguns de segundo escalão. No final, o editor do Batman apiedou-se dele e permitiu que ele usasse o Cavaleiro das Trevas no título. Mas não dá para fazer um grupo só com o Batman. Além disso, não havia certeza sobre quais seriam os outros integrantes, o que dificultava criar uma trama.
Desesperado, Andy Helfer apelou para o desenhista Keith Giffen, que toda semana colocava a cabeça na sua porta e implorava pela Liga da Justiça. O próprio Giffen não acreditou, até perceber a roubada na qual tinha se metido.
Foi quando tiveram a ideia de focar no cotidiano e na convivência dos personagens no lugar de grandes sagas e fizeram uma aposta ainda mais arriscada: colocar humor nas histórias.
Antes todas as tentativas de fazer isso tinham resultado em desastre. Bom exemplo disso era o terceiro filme do Superman de Christopher Reeve, que era odiado pelos fãs.
Além disso, aquela era uma época de heróis darks e “profundos”, todos muito sérios, todos imitando o cavaleiro das trevas de Frank Miller. Será que os leitores iriam gostar de uma versão humorística da Liga?
Giffen ficou responsável pelo plot e pelos esboços. Para escrever os diálogos chamaram JM DeMatteis, mais uma aposta arriscada, pois até então nunca escrevera nada na linha humorística.
Gladiador Dourado, Besouro Azul e o lanterna verde Guy Gardner eram o centro da maioria das piadas. 


Para desenhar, o pouco conhecido Kevin Maguire, que acabou sendo escolhido apenas porque estava sem trabalho e, se o editor não lhe oferecesse algo, iria de malas e cuia para a Marvel. No final, acabou sendo um tremendo acerto. Sua aptidão para expressões faciais eram perfeitas para histórias de cotidiano e principalmente humorísticas.
Surpreendentemente essa nova versão foi um sucesso, a ponto de gerar diversos derivados, como a Liga da Justiça Europa e séries solos de personagens como Senhor Milagre e Senhor Destino.
Conforme o sucesso da fórmula ia se estabelecendo, os roterististas iam se arriscando a colocar cada vez mais humor nas histórias. Em uma das HQs, por exemplo, a Liga enfrenta um ser extremamente poderoso, Mr. Nebula, o decorador de mundos e seu arauto Esquiador Escarlate. Eles vencem o vilão levando-o a Las Vegas e, assim demonstrando que a Terra já era brega o suficiente.
O vilão Mr. Nebula, uma sátira de Galactus, queria redecorar o planeta Terra. 

Em outra história memorável (que se estendeu da revista principal da Liga para a Liga Europa), a mansão dos heróis é invadida por... um gato! E as confusões que o felino provoca seriam muito maiores do que as de muitos vilões.
Há ainda a edição em que Gladiador Dourador e Besouro Azul resolvem montar um cassino em uma ilha tropical com o dinheiro da Liga da Justiça – claro que no final tudo vira um tremendo desastre.
Mas talvez a história que melhor representou essa fase foi aquela em que o vilão é o Poderoso Tortoloni, um jornalista que ganha no jogo de cartas diversos apetrechos de vilões e, ao ser atacado por um grupo que quer as informações que ele recolheu sobre a Liga (baseadas no que ele descobriu vasculhando o lixo do grupo), provoca pânico na cidade. Nessa fase a revista já era desenhada por Adam Hughes, que manteve o mesmo nível de qualidade de Maguire e tinha o mesmo pendão para expressões faciais.
Outros grandes desenhista que passaram pelo título foram Bart Sears, Darick Robertson e Marshall Rogers. Até Chris Sprouse, que depois se tornaria célebre ao desenhar Tom Strong, de Alan Moore, trabalhou no título no início da carreira.   

Cachorro sincero


A ilha do Cumbu em Belém

Uma das atrações mais incríveis para quem visita Belém é a ilha do Cumbu, a apenas 15 minutos de Belém. Para ir para a ilha é possível pegar um barco na praça Princesa Isabel, na rua Alcindo Cacela, no bairro do Condor. A passagem é uma média de cinco reais a sete reais por pessoa.

A ilha é uma grande produtora de açaí e cacau e tem uma fábrica de chocolate - um dos itens básicos do passeio é visitar a fábrica e comprar o chcolate artesanal.
Há vários restaurantes-balneários, mas o melhor parece ser o Saldosa Maloca. Sim, saldosa com L. Pelo que nos explicaram, a primeira placa foi escrita de maneira errada e para não perdê-la, o dono resolveu deixar esse nome diferenciado.

O restaurante, como fica de frente para o rio, é muito ventilado e ornamentação é um dos diferenciais. Fica uma dica: eles vendem um copo de água por cinco reais. O copo vem caracterizado e já seria uma ótima lembrança, mas tem mais: dá direito a refil. Ou seja, o cliente pode beber água quantas vezes quiser. Ou seja: uma ótima lembrança e água a preço muito baixo. Os pratos são deliciosos, com destaque para o peixe.
Vários barquinhos fazem a travessia para a ilha. 



A ilha permite uma bela vista de Belém. 

Heróis da TV 16

Essa foi a primeira revista de super-herói que me lembro de ter visto. Na época eu morava em uma cidade do interior de São Paulo que não tinha banca de revistas. Um dia, saindo da escola, vi um aglomerado de garotos em frente ao balcão de uma mercearia. Fui abrindo caminho até me deparar com a revista, inalcançável atrás do vidro. Os garotos comentava sobre a figura demoníaca e sobre o herói igualmente tenebroso que fugia dela. A composição dinâmica da capa realmente se destacava e fazia parecer que moto e motoqueiro vinham em nossa direção. Tudo que vi da revista foi a capa, mas me marcou assim mesmo.

Fake news


Os crimes do olho de boi



Marcos Rey foi um dos principais roteiristas das pornochanchadas brasileiras da década de 1970. Também foi um autor juvenil de sucesso, escrevendo principalmente histórias policiais. Ele mistura as duas coisas no romance Os crimes do olho de boi, publicado pela editora Global em 2010.
Na história, um detetive amador, sua governanta germânica, uma cantora de boate e um jornalista tentam desvendar um mistério: várias pessoas ricas, com um único herdeiro, morreram recentemente. A suspeita é de que elas foram assassinadas por uma quadrilha, que ficaria com parte da herança.
Rey é um mestre da criação de personagens, dos diálogos inspirados e da narrativa fluída, daquelas que tornam impossível largar um livro pela metade. Todas essas qualidades aparecem em Os crimes do olho de boi acrescidas de mais um deleite: o pendor único para retratar erotismo sem ser pornográfico, com um leve toque de humor.
O protagonista da história é Adão Flores, um empresário que agencia antigos artistas. Ele ficou famoso com um programa de TV chamado “Você é o detetive”, em que vários convidados eram desafiados a descobrir quem era o assassino de uma história policial. Adão participara uma vez e abocanhara o prêmio com tanta segurança e estilo na exposição que se tornou atração fixa, transformando-se em uma celebridade, ainda mais depois um amigo jornalista continuou contando suas peripécias, a maioria delas ficcionais, em sua coluna no jornal.
A história começa quando esse amigo jornalista desafia Adão a descobrir se há uma conexão entre os vários assassinatos de ricaços.
O resultado é um livro de 190 páginas que passam voando, deliciosas não só pela trama policial, mas pelo desfile de personagens secundários carismáticos:a  governanta germânica apaixonada pelo patrão, a contora Diana Bandida, com a qual Adão tem, todo ano, um encontro de dia inteiro em um hotel, no dia 23 de dezembro.
O resultado é como se lêssemos uma pornochanchada policial, e com maravilhosas sequências, como a seguir, de um momento íntimo do detetive com sua partner:
“Diana ergeu-se e sem trilha sonora de streaptease ficou de calcinha e sutiã.
- Acha que ainda estou em forma, Flores?
Saiu fumaça dos ouvidos e narinas de Adão, mas ela não percebeu. O visitante, embora sufocado, pôde pronunciar algumas palavras:
- Ainda está com muito pano, não dá para emitir uma opinião honesta”.

El Greco - Cristo carregando a cruz


El grego é o mais importante nome do maneirismo na pintura.
O maneirismo é um movimento intermediário entre o racional renascimento e o emocional barroco.
No maneirismo, o tema principal deixa de ocupar o centro do quadro, quebrando com a estrutura certinha e rígida do renascimento. Além disso, a imagem deixa de ser delineada de maneira clara, abrindo espaço para a linha esfumaçada do barroco.
El Grego usou as características do movimento para imprimir uma qualidade transcendental aos seus quadros religiosos. E acrescentou mais um item: a proporção anatômica distorcida. Suas figuras santas eram alongadas, mostrando que estavam mais próximas do mundo espiritual que do mundo material.
Nesta imagem de Cristo carregando a cruz, embora não seja possível ver seu corpo, é possível advinhar sua estatura elevada pelas mãos de dedos alongados. Além disso, o rosto de Jesus, que em obras do renascimento teriam ocupado o centro do quadro, aqui se desloca para a parte superior.