sábado, fevereiro 03, 2024

A cor que caiu do espaço

 


Lovecraft considerava A cor que caiu do espaço como uma de suas melhores obras. Não é por menos: essa novela é um exemplo perfeito de tudo que o autor considerava como ideal em uma história de terror. Segundo ele, tudo que o conto fantástico almeja é pintar, de maneira séria, “o retrato convincente de um determinado sentimento humano”. Segundo ele, a atmosfera, e não a ação, é o que deve ser cultivado no conto maravilhoso.
Em A cor que caiu do espaço, um meteorito cai numa fazenda de onde saem pequenas luzes indefiniveis. Com o tempo o local passa a ser dominado por uma estranha presença, que enlouquece os humanos, envenena as plantas e mata os animais. 
A história é narrada por um engenheiro que vai fazer observação para a construção de uma barragem que irá inundar o local. Ele ouve a narrativa da boca de um vizinho do local onde caiu o meteorito.
É uma construção lenta de ambientação, com os fatos, que inicialmente parecem inofensivos, se acumulado para criar uma a sensação de terror. Lovecraft abusa das descrições que não dizem nada (nos nunca sabemos como eram as tais cores) mas ajudam a criar o clima de estranhamento, uma atmosfera de terror. Mesmo em momentos mais narrativos o objetivo do autor parece ser muito mais criar uma ambientação do que descrever os fatos. Um exemplo: “em um instante febril e caldedoiscópico irrompeu da fazenda condenada e maldita um cataclismo eruptivo de centelhas e substâncias sobrenaturais, que ofuscou a visão dos presentes e lançou em direção ao zênite uma nuvem explosiva de fragmentos coloridos e fantásticos renegados pelo universo que conhecemos”.
Essa história foi publicada em formato de bolso pela editora Hedra em 2011. O volume inclui também dois textos autobiográficos de Lovecraft e um texto sobre a ficção interplanetária.

O massacre do Brigue Palhaço

 


A adesão do Pará à independência foi marcada por uma tragédia.
O Grão Pará foi a última província à aderir à independência do Brasil. A província era comandada por portugueses e estava mais próxima de Lisboa do que do Rio de Janeiro e, portanto, a classe dominante não tinha o menor interesse na independência.
Em 1823, para resolver a situação, Dom Pedro I chamou um militar inglês, John Pascoe Grenfell, que rumou para a capital da província com um navio de guerra. Mas, ao encontrar a elite portuguesa que governava a província, blefou dizendo que tinha toda uma esquadra. Os portugueses concordaram em aderir à independência, com uma condição: continuar mandando no Pará.
Os soldados paraenses e a população local ficaram revoltados. Afinal, esperava-se que a independência mudasse a configuração de poder. O acerto feito não mudava nada: quem mandava continuava mandando.
Estourou uma revolta. Casas comerciais de portugueses foram depredadas.
Grenfell foi implacável: fez com que suas tropas percorressem as ruas de Belém, prendendo qualquer um que parecesse suspeito. Mais de 250 pessoas foram detidas.
O inglês mandou fuzilar cinco dos detidos e prendeu o cônego Batista Campos à boca de um canhão, ameaçando atirar. Grenfell acreditava que o religioso tinha sido responsável pela revolta. Só depois de inúmeros apelos inclusive das principais famílias, Batista Campos foi libertado.
Mas o que fazer com os outros 252 presos?
Grenfell decidiu transferi-los para o porão de um navio, chamado Brigue Palhaço. Lá, apertados, em calor extremo, com pouco ar e sem água, os prisioneiros começaram a agonizar. Um dos soldados, apiedando-se deles, pegou um balde de água do rio e jogou lá dentro, o que só piorou a situação, pois a correria para beber um pouco do líquido provocou várias mortes. Grenfell mandou atirar no porão para calar seus gritos, mas isso só fez aumentar  o lamento dos sobreviventes. A situação afetava os nervos dos soldados e o inglês temia que sua tripulação se rebelasse.
Enfim, alguém achou uma solução: trouxeram cal virgem de uma obra, jogaram no porão e fecharam a entrada. 252 pessoas morreram sufocadas.
A tragédia marcou a história do Pará e seria um dos principais estopins da revolta cabana, que aconteceria treze anos depois.  
O massacre do brigue palhaço aparece no meu romance Cabanagem.

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Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. 

Viva - a vida é uma festa

 


O ser humano é o único animal que tem consciência da própria morte. A percepção da própria finitude fez com que ele procurasse formas de sobreviver na memória de outras pessoas. Ter filhos, família, deixar uma obra pela qual será lembrado são formas de continuar existindo após a morte, de alcançar a imortalidade.

O esquecimento como uma forma de morte é o tema central de Viva - a vida é uma festa, filme da Pixar dirigido por Lee Unkrich, de 2017.

A história se passa no México. O garoto Miguel sonha se tornar um músico, mas vive em uma família em que todos odeiam a música. A tararavó de Miguel, Amélia, foi abandonada pelo marido músico e a partir de então, a música foi banida do seio familiar.

Durante o Dia de los muertos, a família coloca em um altar as fotos de todos os seus ancestrais, incluindo a foto da taravó e seu marido, com o rosto recortado. Ao acidentalmente, quebrar a moldura, Miguel descobre que o marido de Amélia segurava o violão de Enersto De La Cruz, o que pode indicar que ele é descendente do cantor mais famoso do México. Quando seu violão é quebrado, ele resolve “emprestar” o violão do famoso tataravô como forma de apresentar em um festival de música. É quando a magia acontece: ele é transformado em um fantasma e começa sua jornada pelo mundo dos mortos. Seu objetivo é encontrar Ernesto de la Cruz e conseguir sua benção para voltar ao mundo dos vivos e, ao mesmo tempo, tornar-se um músico importante.

No caminho, encontra com um fantasma abandonado, cujo único sonho é voltar para a terra para visitar sua filha, a única pessoa que ainda se lembra dele. Na realidade do filme, quando alguém é totalmente esquecido, ela desaparece inclusive do mundo dos mortos, sumindo para sempre.

Em sua jornada, Miguel irá descobrir um novo significado para seu talento e se reconciliará com a família.

A cena em que Miguel canta para a vó é um dos momentos mais emocionantes.


O resultado disso é um filme repleto de ação, mas também repleto de significados, engraçado, mas emocionante. É um filme com roteiro pefeito, em que tudo se encaixa e até as piadas de fundo acabam se mostrando fundamentais para a história. E é um filme musical em que nada é forçado, todas as músicas encaixam perfeitamente na narrativa. A música “Lembre de mim”, por exemplo, praticamente resume a história e gera uma das cenas mais emocionantes do filme, quando o garoto canta para a bisavó:

 

Lembre de mim

Hoje eu tenho que partir

Lembre de mim

Se esforce pra sorrir

 

Não importa a distância

Nunca vou te esquecer

Cantando a nossa música

O amor só vai crescer

 

Lembre de mim

Não sei quando vou voltar

Lembre de mim

Se um violão você escutar

 

Ele, com seu triste canto

Te acompanhará

E até que eu possa te abraçar

Lembre de mim

A teoria dos jogos

 


Criada no rastro da revolução científica que foi o surgimento da cibernética, a teoria dos jogos é um interessante recurso científico para a solução de conflitos. Criada por John Von Neumann e depois desenvolvida pelo prêmio Nobel John Nash (do filme Uma mente brilhante), essa teoria parte do princípio de que estamos, constantemente, jogando, seja na empresa, no casamento, ou na relação com os amigos.

Existem dois tipos de jogos: os de soma zero e os de soma dois. Nos jogos de soma zero, se uma parte ganha, a outra, obrigatoriamente, perde (-1+1= 0). Nos jogos de soma 2, os ganhos de uma parte revertem em ganhos também para a outra parte envolvida na contenda (1+1="2)."

Aparentemente, todos os jogos são do tipo soma zero. Em um jogo de xadrez, todo mundo joga para ganhar, o que significará a derrota de seu adversário. Em uma guerra, os países lutam para ganhar e, portanto, derrotar seus adversários. Assim, para a maioria dos pensadores antigos, a melhor estratégia em um jogo é procurar ter o maior ganho

individual.

As situações de jogo ganharam uma metáfora do famoso paradoxo do prisioneiro. Nessse

dilema, dois bandidos são presos e colocados em selas separadas. Os policiais, então, fazem a mesma proposta para cada um deles:

1 -. se os dois ficarem quietos e não denunciarem seu companheiro, os dois serão libertados (nessa situação, os dois cooperam entre si).

2 - Se um deles denunciar o outro, mas o outro não o denunciar, o que denunciou ficará livre, enquanto o outro pegará um ano de detenção.

3 - Se os dois denunciarem um ao outro, ambos ficarão presos, juntos, por seis meses.

Na primeira situação, os dois cooperam entre si. Na segunda situação, um coopera e o outro não. Finalmente, na terceira situação, nenhum dos dois coopera. Detalhe: os bandidos estão em celas diferentes e um não sabe o que o outro fez.

O que você faria em uma situação como essa?

De todas as possibilidades, a segunda é sem dúvida a pior. Se eu coopero e o outro não, eu fico com todo o prejuízo e ele com todo o lucro.

A terceira opção também não é das melhores. Nesse caso, os dois não cooperam e dividem o prejuízo. Além de que, os dois na mesma cela, sabendo que um traiu o outro pode levar a algumas noites de sono.

A melhor opção seria, claro, os dois cooperarem. Mas é um jogo arriscado, pois se eu cooperar, o outro pode não cooperar e, como já vimos, essa é a pior solução.

A lógica nos diz que a melhor resposta seria não cooperar, ou seja, trair. Mas John Nash demonstrou que isso é válido apenas para jogos com uma única partida. Nos jogos com várias partidas, a melhor estratégia é começar cooperando e fazer depois o que o outro fez na partida anterior. Se ele cooperou, continuamos cooperando. Se ele traiu, nós o punimos traindo também. As estatísticas demonstram que essa é a estratégia que garante melhores resultados.

Na vida cotidiana, a maioria dos jogos é de várias partidas. As relações entre patrões e empregados, marido e mulher, colegas de classe, amigos, são sempre de várias partidas. O que a teoria dos jogos diz é se deve começar cooperando. Deve-se iniciar com boa vontade, cooperando, confiando na outra parte. Mas se a outra parte não cooperar, deve-se puni-la, não cooperando na partida seguinte.

Há algum tempo, Robert Axelrod organizou um torneio para testar a melhor estratégia diante do dilema do prisioneiro. Cada participante do torneio deveria criar uma programação com uma estratégia para ser jogada em 200 partidas. A ganhadora, chamada de TFT(Tif For Tat) tinha quatro regras bem simples, que podem ser usadas em partidas reais:

1 – Seja bacana. Nunca traia primeiro

2 – Seja vingantivo. Nunca deixe passar uma traição sem retaliar na mesma moeda no lance seguinte.

3 – seja generoso. Se o outro voltar a cooperar, volte a cooperar também.

4 – seja transparente. Deixe bem clara a sua estratégia.

Quarteto Fantástico – O retorno do Dr. Destino

 


Quando o Dr. Destino surgiu, nos números 5 e 6 da revista do Quarteto Fantástico, ele não parecia um vilão tão importante, tanto que a história terminava com ele vagando pelo espaço em uma rocha, rumo à morte inevitável.

Mas já no número 10 Stan Le e Jack Kirby resolveram trazê-lo de volta e a forma como fizeram isso deve ter causado um enorme burburinho entre os fãs, provando que a primeira família era o gibi mais revolucionário da época: eles simplesmente resolveram se colocar na história.

A aparição dos dois já acontece na capa com o Senhor Fantástico em primeiro plano com um olhar maligno observando os outros fantásticos enfrentando o Doutor Destino. “Que reviravolta, hein Jack? Doutor destino como um membro do quarteto fantástico!”, diz Stan Lee. “E o senhor fantástico como vilão!”, responde Jack Kirby.  

Os autores aparecem na história: uma mistura de metalinguagem com marketing. 


Isso era pura metalinguagem: os criadores aparecendo nos quadrinhos, refletindo sobre sua criação.

Na história, Lee e Kirby estão na redação da Marvel. Jack Kirby mostra um homem com óculos e longo bigode. “Que tal um cara assim como vilão, Stan? Nós o chamaremos de face-falsa!”. Stan acha que é muito lugar-comum e lamenta que tenham liquidado o Dr. Destino logo na primeira aparição: “Não dá para inventar um vilão como ele todo dia!”. É quando o próprio Destino surge à porta e convence Stan a ligar para o senhor fantástico e fazer com que ele caia numa armadilha.

A sequência inteira é uma mistura de metalinguagem, humor e marketing. No quadro em que kirby mostra o novo vilão, por exemplo, aparecem desenhos de novos lançamentos da Marvel, como o Homem-formiga, Hulk e Thor.

A explicação para o vilão ter sobrevivido era bizarra, mas quem liga? 


A explicação para o vilão ainda estar vivo é bizarra, mas o clima de humor faz com que ela seja verossímil: destino foi recolhido do meteoro por extraterrestres com cabeça ovóide que não só salvaram como ainda o ensinaram a trocar de corpo com outra pessoa, o que gera todo o conceito da trama, em que Destino troca de lugar com o Senhor Fantástico. Em tempo: o vilão parece ter esquecido essa habilidade nas histórias posteriores.

O Quarteto definitivamente era o gibi do qual se poderia esperar qualquer coisa.

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

Mulher-Hulk contra os Homens-sapo

 


Em uma das suas primeiras histórias do Hulk (quando nem Stan Lee nem Jack Kirby sabiam exatamente o que fazer com o personagem), o personagem enfrentou uma ridícula invasão alienígena orquestrada por... homens-sapo.

John Byrne caçoa dessa situação logo na capa do segundo número da revista She-Hulk. A personagem come biscoitos, toma leite e lê um gibi enquanto comenta: “Meu, o primo Bruce enfrentava cada bando esquisito no começo da carreira...!”. Enquanto isso, ao fundo, homens-sapo se aproximam ameaçadores.

Homens-sapo? Sério, Byrne? 


Já na primeira edição da revista, Byrne mostrava que a metalinguagem e o humor seria a tônica, algo que é extrapolado neste número com etiquetas do editor-chefe e dos editores nas laterais das páginas, como se fossem comentários sobre a trama. O editor-chefe reclama que falta ação nas primeiras páginas, que mostram a personagem se mudando para um novo apartamento – Byrne chega a usar uma página dupla para mostrar o novo lar.

Quando a ação finalmente explode, é também numa página dupla, com um amontoado de naves sobre o céu de Nova York. “E aí, não tá pra lá de cósmico?”, argumenta o editor, num dos bilhetes laterais. “Nada mal!”, responde o editor-chefe. “Mas eu teria colocado um pouco mais de espaçonaves!”.

Byrne usa bilhetes na laterais para fazer piadas metalinguísticas. 


A invasão parece ter um alvo: a mulher-hulk, tanto que eles invadem o apartamento da heroína, que exclama revoltada: “Homens-sapo, Byrne? Homens-sapo? Pensei que a capa fosse só uma piada!”.

Embora Byrne exagere nas piadas, ele consegue construir uma história simples, divertida e com uma reviravolta muito interessante no final.

Caligari: a história de uma adaptação

 



    O sucesso do filme Caligari fez com que ele fosse adaptado mais de uma vez para outras mídias. A obra já foi citada diversas vezes em gibis e ganhou uma adaptação em quadrinhos em 1992, pela editora Monster Comics, numa minissérie em três partes assinada por Ian Carney e Michael Hoffman. Em 1999, os roteiristas Randy e Jean-Marc Lofficer e o ilustrador Ted Mckeever juntaram elementos de Batman, Super-homem, Metrópolis e Caligari no especial Nosferatu. Quando Tim Burton lançou o segundo filme do Batman, em 1992, o visual do Pinguim era inspirado em Caligari, visual que depois foi aproveitado no desenhado animado dirigido por Bruce Tim.
    Curiosamente, embora os quadrinhos de terror sempre tenham feito muito sucesso no Brasil, em nosso país nunca o filme de Wiene havia sido adaptado para a nona arte.
    A idéia para isso surgiu em 1998. Nessa época estava sendo lançada a graphic novel Manticore, em duas partes, com roteiro meu, pela editora Monalisa. O sucesso de crítica (a revista ganhou o HQ Mix, o Angelo Agostini de melhor roteirista e o prêmio da Associação Brasileira de Arte Fantástica) fez crer que a revista teria uma continuidade. A idéia, então, era transformar a Manticore numa revista mix de terror e ficção-científica nos moldes da extinta Kripta. Uma das ideias era fazer histórias sobre mitos urbanos, como O bebê diabo e sobre clássicos de terror, como Caligari.
Uma série de decisões editoriais equivocadas fez com que a revista, apesar do sucesso, não tivesse continuidade, mas algumas dessas histórias seriam de fato produzidas. As duas citadas acima foram lançadas em 2008 pela editora HQM no especial Quadrinhofilia, que reúne trabalhos de José Aguiar.
O processo de adaptação começou com uma análise do filme. Eu e o desenhista assistimos ao Gabinete do Dr. Caligari juntos, fazendo anotações. A ideia era captar as principais características da história, afinal, o segredo de uma adaptação não é ser totalmente fiel à trama, mas ser fiel ao espírito da ideia original. Assim, a deformação dos cenários e a maquiagem exagerada foram os elementos mais facilmente percebidos. Como havia uma limitação de seis páginas, a história precisava ser condensada, mas ainda assim fazer sentido e ser fiel.
Uma das questões discutidas foi com relação ao uso de diálogos e legendas. Como o filme é mudo, o caminho mais fácil seria fazer uma HQ muda. Mas cinema e quadrinhos são mídias completamente diferentes e fazer isso seria um erro. Mesmo em seus primórdios, as HQs não eram mudas, pois não havia limitação técnica ao uso da linguagem falada. Assim, decidiu-se que se teria diálogos e legendas (representando a fala de Alan, em off).
    O passo seguinte, após a estruturação de um argumento-sinopse, foi a elaboração de um roteiro.  O roteiro das duas primeiras páginas é apresentado abaixo, para dar uma ideia dessa fase da adaptação:

Página 1
Q1 – Plano detalhe de folhas secas caídas no chão.
Velho (off): Os espíritos... eles estão em todos os lugares...
Q2 – Plano médio. Francis e o velho estão sentados, lado a lado, conversando.
Velho: Nos amedrontam... eles me afastaram de minha mulher e meus filhos.
Q3 – Os dois estão conversando, mas agora Francis olha para o lado, para Jane, que aparece vestida de branca, quase como um espírito.
Velho: Foi assim que aconteceu, meu rapaz...
Q4 – Jane passa pelos dois, sem notá-los. Quadro mudo. 
Q5 – Quadro horizontal. Créditos. Francis e o velho em primeiro plano, vistos de costas, enquanto Jane afasta-se, em último plano.
Velho: Conhece a jovem?
Francis: Aquela é minha noiva, Jane.
Q6 – Alan e o velho conversando, em plano médio.
Francis: A pobre jamais se recuperou do que nos aconteceu...
Q7 – Agora um plano fechado dos dois, conversando. Francis, agora em segundo plano, sendo observado, com olhar perdido, pelo velho.
Francis: Também tenho uma história...
Q8 – plano fechado de Francis, em gesto amplo, expressionista.
Francis: ... ainda mais extraordinária do que a sua...
Q9 – Close de Francis. Destaque para seu olhar melancólico, ampliado pela “maquiagem pesada”.
Francis: Tudo começou com a chegada da feira de variedades à nossa cidade.


Página 2 Nesta página teremos um quadro grande, o 4, ocupando boa parte da página, num tom expressionista.
Q1 – Quadro geral da feira, com Caligari aproximando-se do leitor.
Texto: E com a feira
Q2 – A continuação da mesma cena, mas agora Caligari já está mais próximo de nós.
Texto: veio
Q3 – Agora o quadro é tomado por Caligari.
Texto: O doutor Caligari.
Q4 – Chegamos ao quadro de impacto da página. Caligari espera o escrivão. Como combinamos, a mesa do escrivão é extraordinariamente alta e distorcida, simbolizando, como no filme, o monstro da burocracia. Caligari é visto como pequenino diante desse monstro.
Texto: Antes de instalar sua feira, o doutor foi pedir permissão ao escrivão. Ele foi duramente humilhado. Teve que esperar por horas para ser atendido.

O exemplo serve para demonstrar como foi o processo de adaptação nessa fase de estruturação do roteiro. Bom lembrar que tal roteiro foi construído a partir das conversas entre desenhista e escritor, e reflete essa conversa. Posto isso, passemos a analisar o texto. 
A fala de Francis, quebrada, nos três primeiros quadros da página 2, revela influência do quadrinho britânico do final dos anos 1980, em especial de autores como Neil Gaiman (Orquídea Negra) e Alan Moore (Monstro do Pântano).
A narrativa, em off, é intencionalmente coerente e racional, como forma de evitar que o leitor perceba que se trata de um conto de um louco, o que já é evidenciado pelo desenho, sendo uma pista de como a trama irá terminar. Assim, o roteiro procurou preservar o final surpresa.
Se o texto parece uma narrativa fantástica contada por um homem racional, o desenho distorce essa narrativa, demonstrando o real estado das coisas.
A segunda página, já descrita no roteiro acima, apresenta o quadro de impacto de Caligari pequeno, numa perspectiva distorcida, diante da enormidade da burocracia.

A página 3 é dominada pela figura esguia de Cesare. A magreza e altura atípica do personagem orientam a leitura, que ganha foco no rosto fantasmagórico do sonâmbulo. Os personagens normais são eclipsados por essa figura distorcida.

A página 4 é centralizada pela figura de Jane, como se os fatos refletissem dela. Ao fitar a página, o leitor tem seu olhar magnetizado pelo olhar assustado de Jane e sua figura, em sépia azul. A tendência do olhar é correr na direção do último quadro, em que Cesare agarra Jane, sequestrando-a.
Esse caos da diagramação reflete o caos interno dos personagens, suas angústias e inquietações, no que poderia ser considerado um equivalente quadrinístico da técnica expressionista.


Avançando, na página 6 temos a prisão de Caligari. Ele se contorce e grita, lutando com os médicos. Vista em oposição à página seguinte, vemos que ela se reflete no quadro 4 da página 7. Ali é o narrador que é preso e repete a mesma posição de Caligari, como se fossem duas faces da mesma moeda: num lado a racionalidade, no outro a loucura. Como o lado racional é na verdade uma narrativa distorcida, uma falsa racionalidade, esse contraste cria uma inquietação no leitor que nos lembra o conceito de obra aberta, de Umberto Eco, que pretende renovar nossa percepção e nosso modo de compreender as coisas.

    Na página 7 há um diálogo, não existente no filme, que pretende destacar exatamente a crítica ideológica do filme, pensada originalmente pelos roteiristas (Janowitz e Carl Mayer). Alan pula sobre Caligari e grita: “Tolos! Não percebem? Ele planeja nosso destino!”.
A fala é uma referência direta à interpretação de Kracauer, segundo o qual Caligari antecipa Hitler e o nazismo. Assim, se por um lado respeitamos a moldura introduzida por Fritz Lang, por outro destacamos a crítica social e política imaginada pelos roteiristas.