segunda-feira, março 29, 2021

Ken Parker – os pioneiros

 



Algumas histórias de Ken Parker poderiam facilmente serem adaptadas para o cinema – e com certeza dariam bons filmes.

O episódio Os pioneiros, número 53 da série, é um exemplo. A história tinha toda a estrutura para se transformar num bom filme.

A trama começa com Ken Parker salvando um fazendeiro no meio de uma tempestade areia. O homem havia tentando ir para a cidade chamar um médico para o filho, que arde em febre. Pioneiro da região, ele viu o rio secar e toda a sua fazenda se transformar num verdadeiro deserto.

Trevisan dominava perfeitamente a narrativa visual. 


Essa história tem um enredo muito parecido com o de um filme famoso, Os brutos também amam: um desconhecido chega a uma fazenda com sérios problemas, passa a ser idolatrado pelo filho do casal e desperta a paixão da esposa do fazendeiro.

Mas Giancarlo Berardi traz questões e dilemas que vão muito além de Os brutos também amam. Uma das mais interessantes é caracterizar o fazendeiro como um pacifista, que jogou fora a única arma que tinha em casa. A trama toda gira em torno desse dilema: pode alguém pacifista continuar íntegro no meio de um ambiente bruto como o velho oeste?

A sequência em que Parker ensina o garoto a caçar é memorável.


A edição traz momentos memoráveis: Ken Parker ensinando o menino a caçar; a esposa enlouquecida com a morte do filho mais novo; a própria tempestade de areia. Essas sequências são destacadas pelo ótimo desenho de Trevisan, com traços soltos e rápidos e ótima narrativa visual. 

No limite da traição

 


Os problemas no filme No limite da traição, filme de Tyler Perry lançado pela Netflix  começam no título nacional. O título original, “A Fall From Grace” poderia ser traduzido mais ou menos como Caída em desgraça, algo que faz muito mais sentido na trama do que a “tradução”.
Na história, uma advogada inexperiente é escalada para negociar um acordo de confissão com o Ministério Público para uma mulher que matou o marido muitos anos mais jovem que ela, um caso que mobiliza a opinião pública. Mas, conforme investiga o caso, vai descobrindo que a história pode não ser o que aparenta.
O plot em si é interessante, mas é um daqueles casos em que a gente fica pensando: caramba, como conseguiram arruinar uma boa história com uma direção ruim e problemas no roteiro?
Os problemas começam na cena inicial, com o marido da advogada tentando impedir uma idosa de se suicidar. A cena é mal dirigida a ponto de parecer patético o que deveria ser dramático. O problema maior é que essa cena será essencial para o final, mas se ela realmente tivesse acontecido, na vida real, toda a trama já teria sido descoberta pela polícia nos primeiros segundos do filme.
A direção ruim se mantém por toda película, fazendo com que as cenas de conversa do casal de protagonistas, que deveriam dar profundidade aos personagens, sejam apenas chatas.
Mas o bolo da cereja é o final, em que a advogada descobre o que está acontecendo por um puro acaso, um tremendo deus ex machina.
Como dito anteriormente, o que sobra do filme é a sensação de uma boa história que foi desperdiçada.  

Um Quarteto clássico

 


Quem hoje em dia vê o Quarteto Fantástico naufragar no cinema filme após filme dificilmente poderia imaginar que esse pequeno grupo de super-heróis foi durante muito tempo o que havia de mais interessante e revolucionário nos quadrinhos americanos de super-heróis. A coleção histórica Marvel, recentemente lançada pelo Panini, serve como exemplo disso.
O Quarteto surgiu em 1961, graças a uma partida de golfe. Martin Goodman, dono da Marvel (que na época chamava-se Atlas) jogava com Jack Liebowitz, dono da National (atual DC Comics) e Liebowtiz se vangloriou que a revista da Liga da Justiça, lançada recentemente, estava se tornando um sucesso absoluto entre os jovens leitores.
Goodman correu para a Marvel e pediu para seu editor-chefe, Stan Lee, que criasse um grupo de heróis aos moldes a Liga: unindo heróis da Era de Ouro.
Lee, à essa altura, estava pensando em abandonar os quadrinhos e se dedicar à literatura. Queria propor algo diferente, mas achava que o chefe não iria aceitar. Foi sua esposa que o encorajou a apresentar a nova ideia. Afinal, o máximo que poderia acontecer seria ele ser demitido, algo que ele já queria.
A ideia de Lee era um grupo totalmente diferente de heróis, humanizados, com histórias dotadas de cronologia e que nem mesmo usavam uniformes ou máscaras (posteriormente eles usariam um informe azul, mas sem máscaras). Surpreendentemente, o dono da Atlas aceitou e assim surgiu o Quarteto Fantástico.
 Além da continuidade, dos heróis bidimensionais (em oposição aos heróis unidimensionais da DC da época), Stan Lee e Jack Kirby criaram uma série de tirar o fôlego, em que a ação acontecia de maneira ininterrupta e ganchos e mais ganchos seguravam o leitor e o deixavam se fôlego.
Provavelmente o melhor exemplo disso seja o volume dois da coleção histórica, dedicado aos confronto do Quarteto com Galactus. Dizem que a sinopse, escrita por Stan Lee para a história foi: “O Quarteto enfrenta Deus!”. E de fato era um deus, um ser tão poderoso que se alimentava de planetas. Essa história elevou o nível dos vilões. Se antes eles queriam roubar um banco, ou dominar um país, esse singrava as estrelas e tinha tanta consideração pela humanidade quanto um ser humano tinha por uma formiga.
O volume apresenta histórias de duas fases, ambas escritas por Lee, mas com dois desenhistas diferentes. Na primeira fase, Jack Kirby imprime seu traço simples, mas potente, de ação pura. Na segunda fase, John Buscema imprime elegância aos desenhos e dá o visual que seria definitivo do Surfista Prateado, que havia sido colocado na primeira história como um simples coadjuvante, que deveria desaparecer depois. Dizem que Stan Lee viu o desenho e viu ali um ser nobre, um profeta ou filósofo das estrelas, mas essa nobreza só foi alcançada no traço de Buscema em um trabalho tão fantástico que deu origem à revista do personagem, de vida curta, mas que virou cult entre os leitores.    

E-book do livro Cabanagem, de Gian Danton

 

1836. A cabanagem foi derrotada em Belém e se espalhou pelos rios da Amazônia. Um pequeno grupo de índios, negros e mestiços liderada pelo misterioso Chico Patuá se dirige para o Amapá singrando os pequenos igarapés da região. No seu encalço, o governo regencial mandou soldados comandados por um psicopata assassino, Dom Rodrigo. Em meio a essa disputa, soma-se outra, quando os seres da floresta resolvem tomar partido na contenda.
Cabanagem é um romance de fantasia histórica que mistura fatos reais com mitologia amazônica e terror no melhor estilo Gian Danton. Clique aqui para baixar o e-book com os primeiros capítulos. 

domingo, março 28, 2021

Quadrinhos na escola

 


Discutindo Língua Portuguesa era uma revista da editora Escala voltada para professores de Português e disciplinas afins. No número dois da revista eu publiquei um texto sobre uso de quadrinhos em sala de aula. O texto falava do preconceito contra os quadrinhos (razão pela qual muitos professores se recusam a usar gibis em sala de aula), sobre os elementos dos quadrinhos, tipos de HQs e até explicava como é feito um gibi. Além disso, trazia sugestões de atividades em várias disciplinas e indicações de leituras. 

Xuxulu, nós temos pirulito!

 

Fundo do baú - Viagem ao fundo do mar

 


Viagem ao fundo do mar foi um seriado de aventura criado por Irwin Allen e exibido na TV americana na década de 1960.
O seriado teve origem em um filme dirigido por Allen sobre um submarino nuclear que tenta salvar a terra de um desastre. O diretor conseguiu convencer a Fox a produzir o seriado com o argumento de que os principais cenários já estavam prontos e poderiam ser reaproveitados.
Assim, surgiu o seriado no qual o submarino seaview enfrentava monstros, extraterrestres e nações inimigas dos EUA.
Uma curiosidade é que a marinha americana inicialmente se negou a ajudar a produção, temendo que o desenho de seus submarinos fosse divulgado. Assim, o pessoal do design teve de se infiltrar em grupos de turistas em exposições de submarinos alemães capturados durante a II Guerra e fazer desenhos escondidos.
Com o sucesso da série, o submarino a principal estrela. O Marechal Costa e Silva, então presidente do Brasil, fez questão de visitar o seaview quando visitou os EUA, em 1967.

A forma da água

 


Guilhermo del Toro é um cineasta famoso por filmes de fantasia, com uso intensivo de efeitos especiais (a exemplo de Hell Boy). Embora sempre tenha feito um sucesso relativo, em especial entre os fãs do gênero, nunca o vimos arrebatando prêmios, como no caso de A forma da água, sua mais recente película.
Por um lado, o óscar de melhor filme mostra que a academia está mais aberta a esse tipo de obra. Por outro lado, mostra uma evolução do diretor: A forma da água é muito mais que um filme de fantasia com ótimo uso de efeitos especiais. É uma fábula muito bem construída em que diversos elementos – da fotografia à trilha sonora.
Na história acompanhamos a rotina solitária de uma faxineira muda que trabalha em um laboratório do governo. Tudo muda com a chegada de uma criatura capturada no rio Amazonas, um ser meio homem – meio peixe, que era considerado um deus pelos indígenas. Em plena guerra fria, a criatura passa a ser disputada pelos dois lados do conflito – seu pulmão capaz de respirar na água e na superfície pode ser fundamental na corrida espacial. A trama gira em torno da relação da faxineira com a criatura e a inusitada história de amor que surge desse encontro.
A Forma da água é uma história sobre desajustados, seres que vivem à margem da sociedade. A história da criatura incompreendida e da faxineira muda são uma metáfora de outros excluídos (no filme há referências diretas aos negros e gays, ambos vítimas de forte preconceito, em uma época em que uma pessoa podia perder o emprego apenas por descobrirem que ela era homossexual).
Em suma: um filme bonito, sensível (que lembra, por exemplo, Edward Mãos de tesoura), em que tudo se encaixa inclusive nos pequenos detalhes, como na gelatinha verde servida pela esposa ao chefe de segurança.
Pena que uma história tão bem construída tenha uma falha de roteiro tão gritante: a criatura foi capturada no rio Amazonas, portanto em um rio de águas doces, distante centenas de quilômetros do mar – mas na história precisa ficar imerso em água salgada para não morrer.

Você sabe a diferença entre ficção e fraude?

 

Atualmente nos quadrinhos, na literatura, na arte, existem trabalhos tão hiper-reais, tão verossimilhantes que muitos acreditam que se trata de realidade. Por conta dessa confusão, há quem diga que trabalhos que utilizam essa estratégia são na verdade fraudes.
Isso aconteceu, por exemplo, com o e-book Delegado Tobias, de Ricardo Lísias. A narrativa usa recortes de jornais e documentos jurídicos fictícios e vários outros simulacros para tecer a narativa.
Alguém, ou ingênuo, ou mal-intencionado, denunciou-o à justiça por falsificação de documentos jurídicos e instalou-se um processo para investigar o caso. Justiça federal, Ministério Público Federal e Polícia Federal foram mobilizados para investigar o caso, com enorme gasto de dinheiro público. Quando ficou claro do que se tratava, cada órgão jogou a culpa no outro e todos declararam que não investigavam ficção. A própria justiça teve que declarar oficialmente aquilo que todo mundo deveria saber: falsificação é falsificação e ficção é ficção (por mais verossimilhante que seja).
A situação é simples: se o autor do livro tivesse entrado num fórum e adulterado documentos jurídicos reais, ele estaria cometendo uma fraude. Ao criar um documento jurídico e incluir em seu livro, o autor só está criando... ficção.
Um outro exemplo, famoso, agora na área de quadrinhos.

No final de cada capítulo de Watchmen, o leitor encontra uma série de anexos: matérias de jornais, recortes de artigos e até o prontuário médico do personagem Roschach.
Esses anexos são fraudes? Não.
Seria uma fraude se Alan Moore tivesse, por exemplo, ido em uma clínica médica e modificado o prontuário de um paciente real. Mas criar o prontuário médico de um personagem fictício é apenas... ficção!
Mas Gian, eu acreditei que determinado personagem de um quadrinho existia! No quadrinho que eu li tinha até a carteira de identidade dele! Isso não é uma fraude?
Não. Isso só demonstra que o autor do quadrinho conseguiu usar bem a verossimilhança para caracterizar esse personagem.
Isso seria uma fraude se, por exemplo, alguém criasse um personagem chamado Peter Parker e forjasse uma carteira de identidade dele para inscrevê-lo no tribunal eleitoral para que esse "personagem" pudesse votar. Ou usar essa identidade para pegar dinheiro emprestado e não pagar.
- Mas, Gian, o quadrinista cobrou pela HQ. Então ele teve lucro. Isso não é fraude?
Claro que não. Se fosse assim, qualquer um que vendesse uma HQ estaria incorrendo em fraude, já que toda HQ usa em maior ou menor grau, estratégias de verossimilhança.
O que caracteriza a fraude é a manipulação de DOCUMENTO OFICIAL visando prejudicar alguém. E todos nós sabemos, crianças, que uma história em quadrinhos não é um documento oficial. História em quadrinhos é apenas... ficção!

Arte é entropia

 

Aquelas pessoas que se interessam por arte devem ter ouvido falar do garoto de 21 anos que pregou uma peça no público e nos organizadores da 25ª Bienal de São Paulo. Cleiton Campos, estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, pintou um navio pirata em um quadro pequeno. No dia 31 de março, um mês após a abertura da Bienal, ele colocou uma bermuda folgada, enfiou o quadro no bolso e, com a ajuda da namorada, infiltrou o seu pequeno quadro entre as obras de arte que ali se encontravam.
O Navio Fantasma ficou exposto, no chão, ao lado de pinturas e fotos eslovenas e foi visto por, talvez, milhares de pessoas.Passaram-se dois meses e ninguém da coordenação da maior exposição de artes da América Latina percebeu o intruso.
Quando a Bienal acabou ele ainda estava lá, no chão, entre outros quadros.Embora o pequeno quadro tivesse sido feito com esmero, o objetivo de Cleiton não foi expor sua arte. Afinal, ele mesmo não leva muito a sério suas produções de final de semana: "Não tive pretensão artística; não sou artista. Estava indo visitar a exposição e tive a idéia de passar esse trote. Foi uma piada".
A brincadeira de Cleiton é, mais do que nunca, oportuna. Ela nos leva a refletir sobre o que é arte.
Alguns certamente criticarão meu tecnicismo, mas vejo a arte do ponto de vista da teoria da informação. Para essa teoria, há duas categorias básicas para se entender qualquer mensagem: a informação e a redundância.Informação é o que é novo, diferente, inusitado. Redundância é o que já conhecemos, aquilo que já foi dito e repetido e já faz parte de nosso repertório. A verdadeira arte é essencialmente informativa. Ela nos apresenta o novo, acrescenta algo a nosso repertório.Claro que nem tudo que é informativo é arte. Um jornal está repleto de informação, e nem por isso é arte, até porque seu objetivos são diferentes. A informação em arte é uma informação diferente, transformadora (quando falo de arte, não penso apenas em artes plásticas, mas também em cinema, quadrinhos, literatura, música...) que nos leva a refletir sobre o mundo em que vivemos ou até mesmo sobre nós mesmos.
É esse caráter informativo que faz com que alguns grandes artistas sejam rejeitados em sua época. Van Gogh que o diga. Há, aqui, um jogo de gato e rato entre o sistema e o artista.
Enquanto o artista busca o novo, o sistema quer a redundância. Toda proposta deixa de ser artística quando é assimilada pelo status quo. É por isso que os dadaístas faziam obras sem sentido: numa tentativa de impedir essa apropriação do sistema.Isso nos leva à conclusão de que a arte tem muito a ver com atitude. Quando os dadaístas colocaram um vaso sanitário em um museu, eles estavam fazendo verdadeira arte. Estavam rompendo com nossos conceitos estabelecidos, nos fazendo refletir não só sobre o mundo ou sobre nós mesmos, mas, principalmente, sobre o que é arte. Só é artístico o que está no Museu ou na Galeria? Um vaso sanitário torna-se uma obra de arte só por estar em um Museu?
Entretanto, quem, hoje, colocar um vaso sanitário numa galeria pode ser chamado de idiota.
Alguém já fez isso e isso já foi assimilado pelo sistema. É pura redundância.Fazer arte consiste em encontrar formas diferentes de fazer aquilo que outros fizeram.
Nesse sentido, Cleiton Campos foi o mais importante artista da Bienal. Seu pequeno quadro tinha a mesma importância das grandes obras das artes plásticas não pela qualidade estética, mas, principalmente, pela atitude.
Esse caráter informativo da arte foi bem definido por Caetano Veloso: "Onde queres o ato, eu sou o espírito; onde queres ternura, eu sou tesão; onde queres o livre, decassílabo". O artista não procura acomodar o receptor, mas ao contrário, frustrar suas expectativas (incluindo as expectativas dos críticos de arte).Os exemplos são muitos: Bob Dylan deixando de fazer canções políticas porque seu público estava acostumado a só ouvir canções desse tipo; Alan Moore escrevendo quadrinhos de super-heróis para frustrar o público que só esperava dele trabalhos intelectuais...
Também da teoria da informação tiramos outro conceito importante: o de entropia. Entropia é sinônimo de caos, destruição, degradação, mistura. Embora possa ser muito negativa, ela tem um aspecto importante: o de criação. Toda criação começa com um processo entrópico. Não é por outra razão que Chico Science dizia: "Eu me desorganizando vou me organizar". A obra de Cleiton é entropia para o sistema artístico, mas é também sinergia, pois apresenta a possibilidade de novo.

Lendas - o samba do Byrne doido

 


Lendas foi o primeiro crossover da DC após Crise nas infinitas Terras. Criado a partir de uma ideia de John Ostrander, teve como principal roteirista Len Wein e a maior parte dos desenhos por conta de John Byrne (que também fez as capas).
Aqui foi lançada pela editora Abril em uma minissérie de seis capítulos, em 1988.
Se Crise era uma obra coesa, em que roteiro e desenho se casavam à perfeição para compor uma obra que vai num crescendo até seu final apoteótico, Lendas parece um bolo que desandou porque todo mundo botou a mão.
Para começar, a própria premissa não nada é original: Darkside resolve acabar com os heróis (as Lendas) introduzindo um personagem que controla mentes e faz a população ficar contra os heróis. Quem leu os quadrinhos da Marvel na década de 1970 sabe que essa premissa foi usada em mais de uma história. Além disso, o personagem que faz isso é muito mal construído. Gordon Godfrey é um político? Um estudioso? Um jornalista? Ele surge do nada na história, concedendo uma entrevista televisiva. Não há nenhuma explicação de porque ele está sendo entrevistado e não temos nenhuma explicação de nada durante a série: Godfrey não tem existência como personagem, é apenas um roteirismo, alguém necessário para que a trama ande.


E, bem, a trama não anda. Há muitas idas e voltas, mas pouco desenvolvimento. A ida do Superman para Apokolips, por exemplo, é totalmente desnecessária e não contribuiu em nada para o enredo (tanto que no final dessa subtrama o herói perde a memória do que aconteceu).
O desenho de Byrne ajuda a dar um charme para a série, especialmente quando o roteiro está a cargo de Len Wein, que tenta salvar a história como pode. Mas Byrne encontra tempo até mesmo para dar uma alfinetada em seu antigo-chefe, Jim Shoter, colocando-o como vilão em uma sequência totalmente desnecessária. Como àquela altura ele era um astro dos comics, parece que ninguém teve coragem de dizer que aquelas quatro páginas não encaixavam na trama.
Um dos piores capítulos é o segundo, escrito por John Ostrander e desenhado por Joe Brozowski, focado inteiramente em Nuclear, em que a subtrama se resolve com... tortas na cara. Não, não é brincadeira. A trama se resolve com tortas na cara.
Lendas foi um verdadeiro samba do Byrne doido.

sábado, março 27, 2021

Jornada nas estrelas: O demônio da escuridão

 


Na década de 1960, vários seriados de ficção científica (o mais famoso deles Viagem ao fundo do mar), trazia semanalmente monstros irracionais e assassinos que deveriam ser destruídos a qualquer custo.
O episódio O demônio da escuridão, da primeira temporada de Jornada nas estrelas, ecoa esse tema, mas o subverte completamente.
Na história, a Enterprise chega num planeta repleto dos mais variados tipos de minérios, mas os mineiros estão sendo mortos por uma criatura estranha e muito poderosa, que Spock acaba descobrindo ser feita de silício.
O episódio fala de como os humanos temem o que parece ser diferente e tentam destruí-lo ao invés de compreendê-lo, uma ideia muito à frente da década de 1960, o que mostra que Jornada era visionária não só no aspecto tecnológico, mas também no aspecto comportamental.
O demônio da escuridão torna-se então uma metáfora para, por exemplo, a situação dos índios americanos, que tinham suas terras invadidas e, quando reagiam, eram mostrados como monstros.
Esse nem de longe é um dos melhores episódios de Jornada (fica muito óbvio, ali pelo meio do episódio, o que está realmente acontecendo), mas é relevante e muito à frente de seu tempo. Mérito do roteirista Gene L. Com e para Leonard Nimoy, que consegue – através do elo mental, dar personalidade e profundidade a um monstro de pedra (que na verdade era um homem debaixo de um tapete).

A arte belíssima de Daniel Brandão

 



O desenhista cearense Daniel Brandão já trabalhou para diversas revistas e editoras nacionais e internacionais, como DC Comics, Marvel, Dark Horse, Abril e Maurício de Sousa Produções.
Em 2016 ganhei o prêmio Al Rio como destaque local. Fui coordenador de conteúdo do curso de quadrinhos do projeto HQ Ceará (também ganhador do HQ Mix) e organizador da Antologia HQ pela Fundação Demócrito Rocha. É criador dos personagens Liz, Sebastião e Cariawara. Atualmente possui um estúdio próprio em Fortaleza, Ceará (Estúdio Daniel Brandão) onde ofereço cursos de desenho, quadrinhos e mangá. Confira a arte desse grande talento nacional. 









Cabal - quadrinho nacional de qualidade

 


Cabal é um fanzine editado por Clodoaldo Cruz que estreia o primeiro número com uma ótima seleção e excelente qualidade gráfica (na verdade, tem qualidade gráfica de revista). O destaque são as histórias no estilo noir de Cat´s city, centradas em um detetive casca-dura. A edição tem duas histórias do personagem, uma de autoria de Reno (que também assina a ótima capa e quarta capa) e outra com roteiro de Clodoaldo e Sidartha e desenhos de Hélcio Rogério, que conseguem manter o mesmo nível do criador da série. 

Merece destaque também "Loucura", com texto de Paulo Will e desenhos num estilo cartunesco deLaudo Ferreira Jr. (bem diferente de outros trabalhos dele, mas igualmente funcional para uma história de terror).

"O forasteiro" é outra HQ de terror, com roteiro de Edméia e A. Marcelino. Achei interessante a forte influência de Mozart Couto no desenho.
Nei Rodrigues contribui com uma história de fantasia intitulada "O herói esquecido". É uma surpresa agradável, principalmente pela forte influência de Flávio Colin, um dos maiores mestres nacionais que anda praticamente esquecido, mas, ao que parece, deixou herdeiros.
Em suma uma boa publicação alternativa que ainda guarda muito da influência do bom quadrinho 
brasileiro das décadas de 1980 e 1990. 

A revista pode ser pedida através do e-mail zinecabal@gmail.com.

Professores são heróis

 


O massacre de Suzano revelou vários casos de professores que salvaram seus alunos de serem mortos, escondendo-os nas salas. Agiram como heróis. Mas professores são heróis o tempo todo: trabalham em escolas sucateadas, ganham salários de fome, são desvalorizados, mas mesmo assim persistem, muitas vezes tiram do bolso para atividades com alunos. Professores são heróis.

“Eu nunca fui o Superboy”



Quando John Byrne assumiu o título do Super-homem, ele reformulou o personagem e simplesmente tirou do universo do personagem suas contrapartes, como Superboy e Super-moça. Mas havia um problema: Superboy era essencial para o grupo Legião dos Super-heróis. Afinal, todo o grupo se estruturava em torno da idolatria ao superboy.

Para tentar explicar essa incongruência, Byrne fez uma história em duas partes publicada nos números 8 de Superman.

Na trama, o herói está em Pequenópolis em um encontro com seus pais e Lana Lang quando percebe que algo está acontecendo a pouca distância dali. Ao chegar lá depara-se com a nave da Legião e, sem querer, a ataca com sua visão de calor. Esse acidente leva a uma extensa batalha do Super-homem com a Legião que reverbera a experiência do autor com a Marvel – ao contrário da DC, em que todos eram amigos, na Marvel sempre que dois ou mais heróis se encontravam, eles sempre caíam na porrada.

Byrne recria a primeira história da Legião. 


Quando finalmente as coisas são esclarecidas, Lex Luthor começa a relembrar a relação deles com o Superboy – e Byrne recria, ponto a ponto, a primeira história da Legião, em que eles convidam Superboy para fazer parte da equipe, mas ele falha miservavelmente em todos os testes de admissão, o que era nada mais nada menos que um trote de calouro.

A narrativa prossegue até os dias atuais, quando Cósmico volta para o século XX, descobre que a história da terra não bate com tudo que conheciam (reflexo direto da reformulação feita por Byrne) e desconfiam que tudo é responsabilidade do Senhor do tempo.  A Legião tenta chegar à Cidadela dele, no final dos tempos, mas, misteriosamente, acabam indo parar em Pequenópolis, onde parte da equipe é atacada e aprisionada pelo Superboy. Os que escapam entram na nave, que volta para Pequenópolis, onde encontraram com o Super-homem.

O vilão explica a história para o leitor. 


Confuso? Muito. Para explicar esse imbróglio cronológico, Byrne inventa uma trama do Senhor do tempo que envolve até a criação de uma terra paralela – com direito ao próprio vilão explicando para o leitor tudo que está acontecendo, num tremendo bife. Aliás, o que não falta na história são bifes.

O que salvava Byrne é que a forma como ele narrava as histórias era tão agradável que o leitor simplesmente esquecia todos esses problemas e embarcava na trama. Seu traço elegante e sua narrativa visual limpa criavam uma espécie de pacto de verossimilhança com o leitor.

Em tempo: essa história foi publicada no Brasil em Super-powers 11, ocupando metade da revista. A outra metade era uma trama da Legião que continuava os acontecimentos da história anterior.

sexta-feira, março 26, 2021

Prévia do cabano - série de Gian Danton e Juliano Kaapora

A Amazônia é rica de histórias. Tanto de fatos reais, como a revolta da Cabanagem, quanto em lendas e mitos. A minha série O Cabano, que começará a ser publicada ainda este ano pela revista Mestres do Terror tem como objetivo aproveitar toda essa riqueza em histórias de terror.

O escolhido para ilustrar o foi o incrível
Juliano Oliveira Kaapora
, um dos meus desenhistas prediletos da nova geração. Então, eu já esperava algo incrível, mas o que ele me mandou estava muito além do que eu esperava. Ficou absolutamente incrível. Tanto que não consegui me segurar e resolvi compartilhar com vocês uma prévia desse trabalho.
O que acharam?

Quem foi Albert Uderzo

 


Albert Uderzo morreu hoje, dia 24 de março, de ataque cardíaco enquanto dormia. Ele tinha 92 anos.

Uderzo é uma das figuras mais importantes do quadrinho europeu. Sua criação mais famosa,Asterix, em parceria com o roteirista Goscinny se tornou um símbolo da França e uma das histórias em quadrinhos mais populares do mundo.

Albert Uderzo era de filho de imigrantes italianos vindos da cidade de Oderzo (daí o sobrenome Uderzo). Nasceu em 25 de abril de 1927. Ironicamente, ele, que viria a ser um dos desenhistas mais importantes do mundo, era daltônico e tinha um dedo a mais. Dizem que depois da operação para retirada do dedo, sua vista melhorou.

Quando criança, seu sonho era ser mecânico de aviões.  

Na juventude mudou-se para Paris e, enquanto ajudava seu pai numa loja de móveis, procurava emprego como ilustrador. Seu primeiro trabalho como quadrinista foi Flamberge ou Clopinard. Depois ele chegou a desenhar até a versão francesa do Capitão Marvel.
Um dos primeiros trabalhos de Uderzo foi a versão francesa do Capitão Marvel 
Mas a carreira de Uderzo decolou mesmo quando ele conheceu seu eterno parceiro Uderzo, em 1951.

Goscinny era um filho de judeus ucranianos e poloneses. Ainda criança, mudou-se com os pais para a Argentina, onde começou a trabalhar com publicidade aos 17 anos. Em 1949 recebeu uma carta de um tio instalado em Nova York e foi para os EUA, onde trabalhou no mesmo estúdio que outros grandes artistas como Harvey Kurtzman, Will Elder e John Severin, que posteriormente viriam a criar a revista MAD.

Em 1950 foi para a França onde conheceu dois quadrinistas europeus, Jijé e Morris, que lhe apresentaram o editor Georges Troisfontaines. Este, por cortesia, disse que ele passasse em Bruxelas para lhe mostrar seus trabalhos.

Gosciny arrumou as malas e foi para a Bélgica. O editor não teve outro remédio senão empregá-lo em sua editora.

Foi lá que Goscinny conheceu Uderzo e os dois começaram uma rica colaboração.

Goscinny tinha um texto humorístico genial e Uderzo era um grande cartunista.


A primeira criação da dupla foi Jehan Pistolet, um jovem garçom que sonha em ser pirata a serviço do rei. ele junta alguns amigos e juntos compram um navio que é um naufrágio flutuante e se transformam em piratas. Como se pode ver, alguns dos elementos de Asterix já estavam presentes aí, como o navio de piratas que sempre afunda. Em Portugal esse personagem foi publicado com o nome de João Pistolão.


Depois veio Umpa-pá, um índio norte-americano.

O personagem tinha muitas das características que depois viriam a fazer o sucesso de Asterix.

     Em 1955, Uderzo, Goscinny e o roteirista Charlier tentam criar um sindicato de quadrinistas.  Ao saber disso, Troisfontaines demitiu os três, que, desempregados, resolveram criar uma nova editora, cujo carro-chefe seria a revista Pilote.

Para o número de estréia, Goscinny e Uderzo criaram um simpático gaulês chamado Asterix, mas nem de longe esperavam que eles fizessem tanto sucesso.


     Em 29 de outubro de 1959 surge o primeiro número da revista, trazendo o novo personagem e é um sucesso imediato principalmente graças a Asterix.

A história se passa no auge do Império Romano, quando toda a Gália foi dominada, toda não, uma única aldeia resiste e nela vivem Asterix e seu inseparável companheiro Obelix. O segredo dessa aldeia para resistir ao invasor é uma poção mágica que lhes dá força extraordinária, preparada pelo druida Panoramix.

     Goscinny exercitou toda sua verve cômica e seu pendor para trocadilhos. Até mesmo os nomes dos personagens são trocadilhos. Asterix vem de asterisco e Obelix vem de Obelisco. A dupla tem um cachorro de estimação, Ideiafix, que ganhou esse nome por tinha a idéia fixa de segui-los para onde quer que eles fossem. Na história, todos os gauleses têm nomes terminados em ¨ix¨, os romanos nomes terminados em ¨us¨ (Acendealuz, Apagaluz, etc).

     O humor se dava principalmente através de situações que se repetiam, mas de modo diferente. Os romanos, por exemplo, estão sempre tentando conquistador a aldeia e sempre levando sopapos, os piratas sempre têm seu navio afundado quando encontram com os dois heróis

Enquanto Goscinny dava um show no texto, Uderzo caprichava no desenho criando um estilo de humor único.

Quando a história foi reunida em álbum foi um sucesso absoluto e logo Asterix estava vendendo milhões de exemplares.


Nesse meio tempo, Uderzo fez uma série de aviação, Tanguy e Laverdure com o roteirista Charlier, o outro sócio da Pilot.

Nesse meio tempo, Asterix se tornou uma verdadeira instituição nacional e chegou a ganhar até um parque, nos arredores de Paris.
Uderzo viverá para sempre no panteão dos grandes criadores dos quadrinhos.