quinta-feira, julho 30, 2026

A origem do Batman

 

O surgimento do Super-homem foi um fenômeno de vendas sem precedentes. Logo todo editor estava pedindo a seus artistas que fizesse cópias daquele heróis. Uma dessas cópias surgiu um ano mais tarde, em 1939 e ficaria tão famoso quanto o Homem de aço: o Batman.
Bob Kane, assim como os criadores de Super-homem, era um garoto judeu que sonhava se tornar uma estrela com os quadrinhos. Seu pai era gráfico do New York Daily e conhecia um pouco do negócio (o que faria grande diferença na hora de negociar os direitos autorais).
Bob queria criar um super-herói que fizesse tanto sucesso quanto o super-homem. Acontece que ele não era exatamente um intelectual, e não conseguia escrever a histórias. Quando ele conheceu o jovem escritor Bill Finger, foi um casamento perfeito. Embora Finger pretendesse se tornar um escritor sério, ele também era apaixonado pelos pulp fiction e estava disposto a produzir qualquer coisa que lhe rendesse dinheiro.
Procurando inspiração para sua criação, Bob Kane vasculhou sua coleção de Flash Gordon e se deparou com os homens-pássaros desenhados por Alex Raymond. Ele então apresentou para Finger um herói vestido de vermelho, com asas mecânicas, chamado Homem-pássaro.
O primeiro esboço de Bob Kane para o Batman. 


Finger achou que não era uma boa idéia. Como o personagem ia estrelar uma revista chamada Detetive Comics, ele pensava que deveria ter um ar mais soturno, uma criatura noturna, furtiva, envolta em uma capa preta. Que tal se fosse inspirado num morcego? Eles bolaram então um personagem vestido de cinza, com uma capa preta recortada, um capuz com orelhas e olhos que pareciam apenas frestas, dando um ar assustador ao conjunto. Para completar o conjunto, colocaram um morcego no peito do herói (para imitar o S do Super-homem) e lhe deram um cinto de utilidades com mil e uma bugigangas.
Os editores da National acharam o personagem perfeito para a Detetive Comics, mas Kane se negou a vender os direitos totais do personagem. Seu pai consultou um advogado e conseguiram um bom contrato que garantia muitos direitos para o desenhista. Posteriormente, quando Jerry Siegel e Joe Shuster tentaram conseguir na justiça os direitos do Super-homem, estes procuraram Bob para que ele entrasse com eles no processo. Ao invés de fazer isso, ele procurou a editora e negociou um contrato ainda melhor para ele.
O homem-morcego estreou no número 27 da Detective Comics. 


Batman estreou no número 27 da revista Detective Comics, em maio de 1939 e foi um sucesso imediato. Como Bill Finger não conseguia dar conta de todos os roteiros, Kane pediu à editora um segundo roteirista e apareceu Gardner Fox, que, na primeira história, mostrou o personagem levando um tiro. Isso definiu algo que ficaria claro nos anos seguintes: o personagem era o oposto do Super-homem. Enquanto um era a luz, o outro era as trevas. Enquanto o Super-homem vivia na ensolarada e otimista Metrópolis, Batman se esgueirava pelos becos escuros da corrompida Gothan City. Se o Super-homem era invencível e gostava de ricochetear balas em seu peito, o Batman era falível, um humano normal, que só ganhava graças à sua astúcia e ao cinto de utilidades.
Por muito tempo os leitores achavam que Bob Kane fazia todos os desenhos (a sua assinatura constava em todas as histórias), mas logo surgiram vários desenhistas fantasmas. Entre eles, Jerry Robinson, Jim Mooney e Sheldon Moldoff. Na época, Kane ficou famoso e costumava levar garotas em seus carrões para ver sua mansão adornada por uma série de quadros de palhaços pintados por ele. Dizia-se que até esses quadros haviam sido feitos por um desenhista fantasma.
Com o tempo, a descoberta de que muitas crianças liam a história fez com que fosse introduzido um parceiro mirim, o Robin. A partir de então, todo herói que se prezava tinha que ter um parceiro infantil. Geralmente eram eles que vendiam lancheiras para crianças.

quarta-feira, julho 29, 2026

Esses quadrinhos são um caos!

 

Há algum tempo, os cientistas descobriram a entropia, um princípio universal que estaria levando o universo inexoravelmente ao caos. A entropia é a perda de energia, ou informação. O caos está à nossa volta. Uma xícara de café que esfria é um exemplo de como ela está até onde menos imaginamos.

Depois os cientistas descobriram os atratores estranhos, os fractais, o efeito borboleta. Tudo isso, mais a entropia, forma a Teoria do Caos...

Mas o que tudo isso tem a ver com os quadrinhos? Simples, os quadrinhos foram a principal mídia a se apropriar desse discurso caótico. Sem se dar conta, os roteiristas formaram um batalhão para divulgar a nova teoria e convencer todo mundo de que o caos nos rodeia. Nesse artigo, vamos conhecer algumas dessas histórias baseadas, de uma maneira ou de outra, nessa teoria.


O ARTISTA E OS FRACTAIS
O exemplo mais óbvio é o roteirista inglês Grant Morrison. Ele falou do assunto abertamente em suas HQs. Numa das histórias do Homem-Animal, a Terra vai ser invadida pelos Tanagharianos (lembram? Aquele pessoal de asas do planeta do Gavião Negro...). E, para executar o primeiro passo do plano adivinhem quem eles convocam?
Um artista especializado em geometria fractal. Fractais são imagens de computador formadas a partir de fórmulas matemáticas. Elas formam imagens muito bonitas e o mais interessante é: se você ampliar uma parte do desenho, ele será muito semelhantes à imagem maior. Você pode passar a vida inteira ampliando um fractal e ele vai aparecer sempre com a mesma imagem auto-semelhante.
Lá pelo meio da história, o extraterrestre diz: "Talvez você esteja familiarizado com os conceitos da geometria fractal. Uma forma fractal é aquela que revela mais detalhes quando examinada de perto. Pode ser ampliada indefinidamente e ainda revela novas complexidades. Ocorreu-me que a vida em si pode ser entendida como tendo uma forma fractal! Noção interessante, não acha? Então fiz esta bomba!".
A artefato ia bombardear todos os humanos com uma torrentes de lembranças caóticas do próprio artista.


O CAOS DO DIA A DIA

Em outra história de Grant Morrison, Asilo Arkham, que ficou famosa por causa da cena em que o Coringa passava a mão na bunda do Batman, também há referências à teoria.
Uma psicóloga explica a personalidade do Coringa usando a Teoria do Caos. Segundo ela, o vilão era, num dia, um palhaço inocente e, no outro, um assassino perigoso. Tudo isso, porque não conseguia lidar com o caos de informações que recebemos dia após dia, instante após instante. Ao contrário de nós, ele não selecionava as informações que chegam e, para lidar com isso, tinha diversas personalidades. Em outra seqüência, o Chapeleiro Louco é visto numa sala de espelhos em que sua imagem se repete ao infinito.



SHOPPING CENTER CAÓTICO
Bill Sienkiewicz, desenhista de Elektra Assassina assimilou o caos ao seu estilo. As obra de Bill são repletas de informações numa única página. Ele e Alan Moore juntaram-se para fazer um vídeo caótico sobre a queda do Muro de Berlim e ganharam diversos prêmios. Gostaram da experiência e decidiram fazer uma minissérie sobre o caos. A revista chamou-se Big Numbers e contava a história de como a instalação de um shopping center pode mudar completamente a vida dos habitantes de uma cidadezinha do interior da Inglaterra. Deveriam ser 12 números, mas só foram publicados dois. As razões, só o caos explica. Deu bug no Sienkiewicz e eles simplesmente decidiram abandonar o projeto.



QUEM VIGIA AS BORBOLETAS
Mas a obra definitiva sobre o caos publicada em quadrinhos é Watchmen, de Alan Moore e Dave GibbonsWatchmen mostra um mundo modificado pelo surgimento dos super-heróis. Alan Moore baseou-se no princípio do efeito borboleta, segundo o qual pequenas modificações podem provocar grandes mudanças.
Na trama, há vários efeitos borboleta, ou seja, inúmeros pequenos eventos que acabam provocando grandes mudanças. Começa com algo que parece simples: o assassinato de um diplomata. Quando se descobre que a vítima era o herói Comediante, Rorschach inicia uma investigação a respeito de um matador de mascarados. As conseqüências dessa investigação acabam sendo imprevisíveis e o futuro da humanidade pode depender dos resultados da mesma.
 O próprio mundo está a caminho do caos, já que os EUA e a Rússia estão a um passo da guerra nuclear. E o único que pode impedir a catástrofe é Dr. Manhattan, um super-herói com jeito de Deus que se diverte construindo castelos fractais em Marte.
Mas a grande questão de Watchmen é: se o mundo é governado por pequenos eventos que têm grandes conseqüências, alguém poderia controlar o destino da humanidade por meio de sua manipulação? É possível ditar o que as pessoas desejam, seus ideais, o seu futuro? Só o caos, meus senhores... só o caos sabe a resposta.

Jornada nas estrelas - A glória de Ômega

 


Confesso que tenho uma simpatia muito grande pela série clássica de Jornada nas Estrelas, de modo que acabo gostando até mesmo episódios ruins, como o cérebro de Spock. Mas um que me incomodou muito desde o início foi A glória de Ômega, da segunda temporada. 

No episódio, a Enterprise encontra uma nave vazia. Ao visualizarem o diário do capitão descobrem que a tripulação morreu em uma praga e que a única forma de sobreviver é descer ao planeta. Como também estão infestados, Kirk Spock e McCoy descem para o planeta, onde encontram o capitão da outra nave. Já começa aí um problema.  O vídeo dava a entender que ele também tinha morrido. Como ele descobrira que a superfície do planeta poderia curar a doença? E como só ele tivera a ideia de descer? Furos e mais furos no roteiro. 

O capitão explica que todos os habitantes do planeta são imortais e pretende usar isso para ganho pessoal, obrigado McCoy a descobrir o segredo da imortalidade. Além disso, a população local está dividida entre dois grupos, um de brancos considerados selvagens, e outro de asiáticos. O capitão usa sua tecnologia para mudar a guerra a favor dos orientais, quebrando diretamente com a primeira diretriz. 

Os problemas continuam. McCoy descobre que a imortalidade dos habitantes locais é decorrente de um processo de seleção natural, o que acaba completamente com a premissa básica do episódio de que o planeta tinha algo que curava doenças. 

Para piorar, o episódio termina com uma indisfarçada patriotagem que inclui a bandeira dos EUA e até a constituição, o que é forçar demais o pacto de verissilhanca. 

Nada faz sentido nesse episodio e ele nem mesmo engraçado. É apenas ruim.

As tentações de santo Antão, de Hieronymus Bosch

 


Bosch é um dos mais interessantes pintores medievais. Com o objetivo de produzir obras que alertavam para o pecado e pretendiam convencer o receptor a levar uma vida cristã, Bosh se esbalda numa orgia de imagens que antecipavam o surrealismo.
Santo Antão foi um asceta egípcio que doou todos os seus bens para os pobres e foi viver no deserto, onde, da mesma forma que Jesus, foi tentado pelo demônio.
Bosch aproveita para produzir uma obra em que tudo parece estranho: seres alados que não são pássaros, pessoas com rostos de animais, um barco formado por um peixe.
O pintor holandês produziu primeiro um quadro, que atualmente se encontra no MASP, depois expandiu o tema e produziu um trípico (uma imagem formada por três partes). 

Demolidor – Amor e guerra

 


Em meados da década de 1980, Frank Miller e Bill Sienkiewicz eram dois dos nomes mais revolucionários dos quadrinhos americanos. Miller tinha assumido o título do Demolidor quando o mesmo estava prestes a ser cancelado e o transformara em um campeão de vendas. Depois, sacudira o mercado com Batman Cavaleiro das Trevas. Sienkiewicz chamara atenção nas histórias do Cavaleiro da Lua e depois brilhara no título dos Novos Mutantes, no qual fazia todo tipo de experimentação gráfica, fugindo do que se fazia até então nos super-heróis.

O resultado da união desses dois talentos foi a graphic novel Amor e Guerra, publicada aqui no Brasil pela editora Abril no segundo número da coleção Graphic Novel.

A narrativa era revolucionária. 


Na história, a esposa do Rei está enferma e o vilão contrata um psicólogo para tratar dela. Para garantir que ele se dedicará totalmente ao caso, manda sequestrar a esposa do psicólogo. O problema é que o sequestrador, um tal de Victor, é um homem enlouquecido pelas drogas, que oscila a todo tempo entre o dever de cuidar da jovem e o desenho de violentá-la ou até matá-la.

Esse mote permite a Sienkiewicz usar toda a sua habilidade artística expressionista para refletir o ponto de vista de Victor. Sua imagem reflete a loucura interna: os olhos com pupilas de tamanhos diferentes esconidas no meio do negrume da insanidade, o nariz torto, a boca pequena, a testa imensa. O texto de Miller acentua a loucura do personagem: “Ninguém vai imaginar que eu trouxe uma gata dessas para um covil de viciados. É o meu trabalho saber disso. Ih! Chamei Cheryl de gata. É melhor maneirar meus pensamentos. Ela é um anjo. Do tipo que se venera e nunca se toca! Não fazer nada daquelas coisas. Nada daquelas coisas.”.

A imagem do vilão é deformada para demonstrar sua loucura. 


O estilo de desenho reflete cada personagem. A esposa do médico é de uma beleza angelical que mistura impressionismo e Gustav Klint.

Curiosamente, Sienkiewicz parece não se sentir à vontade de desenhar exatamente o Demolidor, preferindo fazer, na maioria das vezes, um borrão, algo que funciona na história e serve para mostrar a velocidade com que o personagem se move.

O Demolidor sendo mostrado como um borrão. 


Mas a caracterização que mais me marcou foi a do Rei. Sienkiewicz destaca seu poder desenhando-o com um homem imenso, deformado, cuja imagem ocupa sozinha uma splah page. Provavelmente ninguém conseguiu retratar de forma tão fiel a imponência do vilão.

Aliada a essa visão artística revolcionária de Sienkiewicz, Miller concebe uma trama que se desenvolve em uma constante tensão ao mesmo tempo em que desenvolve os personagens.

A caracterização do Rei impressiona. 


Cada página de Amor e Morte é uma verdadeira obra prima.

Perry Rhodan – O regresso de Ernest Ellert

 

 

Ernest Ellert era um mutante que tinha a capacidade de viajar, em espírito, através do tempo. Logo nas primeiras edições da série, ele se separou em definitivo do seu corpo e parecia ter desaparecido. No segundo ciclo descobriu-se que sua habilidade de viajar no tempo o levou para a dimensão dos druufs, onde ele se alojou no corpo de um cientista.

A partir dessa descoberta, ficou óbvio que, em algum momento, o mutante retornaria ao seu corpo e isso aconteceu no número 91 da série.

A capa original alemã: o capista não conseguia acertar o visual dos druufs. 


Na trama, o corpo começa a entrar em decomposição. Para tornar a situação ainda mais crítica, Onot, o cientista hospedeiro de Ellert, foi preso por traição e poderá ser morto ou poderá revelar a ação dos terranos. Assim, torna-se urgente transportar o mutante para seu corpo original – e isso só pode ser feito levando o corpo para a dimensão dos druufs.

Escrito pelo humanista Clark Darlton, esse livro mostra os druufs de perto, em especial o principal cientista da espécie – e descobrimos que os seres quadráticos são tão humanos quanto nós. Onot chega a dizer que abomina a violência. Darlton, que já quebrara com o paradigma de que alienígena não humanoide é alienígena mal ao criar Gucky, aqui mostra que mesmo o inimigo pode ter integridade.

O seguinte trecho demonstra esse ponto de vista: “As vidas que colocara em perigo não era vidas humanas, mas sempre eram vidas. Toda e qualquer forma de vida tinha direito à existência e não devia ser destruída. Nem mesmo a do inimigo, caso isso pudesse ser evitado”.

O livro também chama atenção por antecipar as câmeras corporais de policiais, que permitia a uma central de controle rastrear tudo que um policial visse. Considerando que em volumes anteriores nenhum dos escritores ter contado com a possiblidade de câmeras de segurança, Darlton parecia muito à frente de seu tempo e até de seus colegas.  

Um detalhe curioso sobre as capas desse livro: o capista norte-americano Gray Morrow preferiu fazer uma capa genérica de ficção científica (muito bonita, por sinal). Já o capista alemão, Johnny Buck, embora tenha feito uma cena do livro, não chegou nem perto de acertar a aparência dos druufs, fazendo uma imagem completamente diferente daquela descrita nos livros. 

Doutor Estranho contra Drácula

 


Colocar o mago supremo em rota de colisão contra o príncipe dos vampiros e ao mesmo tempo fazer um crossover entre duas revistas Marvel. Essa foi a ideia que os roteiristas Marv Wolfman e Steve Englehart tiveram em 1976.

A história começou em The Tomb of Dracula 44 e terminou em Doctor Strange 14. Para ilustrar as duas histórias foi chamado Gene Colan, o veterano da Marvel, que, depois de passar por vários heróis da editora, se consolidara, merecidamente, como o ilustrador oficial de Drácula. Colan tinha um traço sujo e constantemente distorcia as figuras humanas, usando e abusando do escorço e de sombras – recursos que o tornavam perfeito para um título de terror.

Na trama, o assistente do Dr. Estranho, Wong, é morto pelo vampiro, o que coloca o mago em seu encalço.

Englehart e Wolfman são dois grandes roteiristas, dois dos principais nomes da era de bronze da Marvel e mostram aqui toda a sua destreza.

O texto de abertura da história escrita por Wolfman já dá o tom sombrio: “Stephen Strange está preocupado! Ele olha atentamente para a névoa cinzenta no interior da esfera brilhante e sabe seu significado! Em breve haverá uma batalha e, antes da noite terminar, o doutor estranho , o mestre das artes místicas encontrará a morte! Nem mesmo o poder contido no supremo cristal poderá salvá-lo quando à meia-noite soarem suas badaladas mortais!”.

A grande questão aí é como um vampiro poderia ser um adversário à altura de um mestre das artes místicas – e a solução encontrada é perfeita. No final da primeira parte, o doutor estranho tomba diante de Drácula.



A segunda parte, já na revista do Dr. Estranho, começa com o herói derrotado, incapaz de voltar ao seu corpo. E aqui a forma encontrada por Englehart para solucionar a situação é igualmente engenhosa.

No Brasil essas histórias foram publicadas pela primeira vez em Superaventuras Marvel 19 e 20.

Roteiro para quadrinhos: o texto

 

A forma diz respeito à abordagem textual escolhida pelo roteirista

A parte mais complexa do mister de quadrinhos é a forma. Nove em cada dez pessoas não tem a menor noção do que seja a forma num texto. Se perguntarmos a alguém o que achou da história, essa pessoa provavelmente se restringirá a fazer comentários sobre o enredo: "E aí tinha um monte de terroristas e o Batman chegou e deu porrada neles...". Provavelmente, se perguntarmos para essa mesma pessoa o que achou dos diálogos, ela fará cara de boba: "Como assim, tinha diálogos?".            
                A questão da forma está intimamente relacionada com o estilo, embora o estilo de um autor possa envolver diversas formas (por exemplo, a forma de Watchmen é bem diferente da forma de V de Vingança, embora ambas sejam obras do mesmo autor, Alan Moore).
                Partindo do princípio de que esse é um assunto difícil para o leigo, limitarei meus comentários apenas a dois aspectos: o texto e os diálogos.
                O TEXTO, ou legenda,  é um recurso comumente utilizado pela maioria dos bons autores. Ele geralmente aparece nas histórias  em balões quadrados, chamados de recordatários. Pessoalmente, não gosto desse nome, pois ele lembra uma época em que a única função do texto era explicar a sequência, ou mesmo o quadrinho para o leitor. Usava-se o recordatário para dizer coisas como "Enquanto isso", "Em outro lugar". "Algum tempo depois", "Flash dá um soco em Ming".
                Depois descobriu-se que o leitor não precisava que se lhe explicasse a cena (e devemos isso em grande parte ao trabalho de Will Eisner no Spirit). Se o desenho já está explicando a ação para o leitor, porque não utilizar o texto para aprofundar a psicologia do personagem, ou narrar eventos que o desenho não possa mostrar?
                Esse é em geral o segundo maior defeito dos roteiristas iniciantes: limitar o texto a contar coisas que o desenho pode mostrar sozinho. (O primeiro maior defeito é querer explicar tudo na história segundo a lógica do mundo real. As histórias têm a sua lógica própria, definida pelo roterista quando ele imagina os personagens e o universo no qual eles vão se deslocar).
                Dito isso, podemos analisar algumas técnicas de texto.

                O texto pode ser usado, por exemplo, para que o roteirista conte a história. É o que Miller faz em A Queda de Matt Murdock. Após observar a luta entre entre Matt e o Rei do Crime (na qual não há texto, pois ele seria desnecessário), vemos ângulos cada vez mais fechados de um carro no fundo de um rio, enquanto o texto diz: "O Rei é um homem cuidadoso. A morte de Murdock não deve ser nem misteriosa e nem suspeita. Não há motivo algum para investigação. Inconsciente, mas vivo, Murdock é colocado num taxi roubado. O taxi é jogado no cais 41, no rio leste. Seu cinto de segurança e a porta são emperrados por um processo indêntico à ferrugem. Murdock é encharcado de bebida".
                O texto, portanto, está em terceira pessoa e no presente, mas não está explicando o desenho, ele está contando coisas que o desenhista  não poderia mostrar em tão pouco espaço.
Texto em primeira pessoa em Cavaleiro das Trevas

                O mesmo Miller usa um tipo diferente de texto em Cavaleiro das Trevas. Em um sequência, vemos Batman escalando uma gárgula e lemos o seguinte: "A dor que já dura três dias arranha minhas costas. Eu espano o pó das articulações e subo. Isso já foi mais fácil".
                O texto, aqui, reflete os pensamentos do personagem. Por  isso, ele está no presente e em primeira pessoa. As frases são curtas para dar movimento à cena. Uma vez que as HQs, ao contrário do cinema, não têm movimento, é necessário inventar alguns truques para enganar o leitor e fazê-lo acreditar que está vendo movimento.  Um deles é escrever frases curtas e distribuí-las verticalmente pelo quadro. Miller é um mestre nesse tipo de engodo.
                Apresentei dois exemplos de Frank Miller para demonstrar como, dentro de um mesmo estilo, pode haver vários formatos de legenda. Antes de seguirmos em frente, no entanto, faz-se necessário definir alguns tipos básicos de textos. 

Exemplo de narrador em terceira pessoa

PRIMEIRO TIPO – Narrador em terceira pessoa: É quando o autor, o roteirista, tem a palavra. O texto ficará em terceira pessoa e o narrador, portanto,  não faz parte da história. A história Castelos de Areia, de Gerry Boudreau e publicada na extinta revista Kripta, é um exemplo disso. Enquanto vemos uma mulher correndo, o texto diz: “Estava frio e escuro no túnel, como no útero de uma mãe morta. Ela sentiu o ar penetrar por sua pele e cobrir suas artérias como uma fina camada de gelo”.
Texto em primeira pessoa


SEGUNDO TIPO – Narrador-personagem - é quando um dos personagens narra a história.  Um exemplo disso é a história de piratas que o garoto está lendo em Watchmen:  "Acordando do pesadelo, me encontrei numa lúgubre praia entulhada de cadáveres. Ridley jazia próximo de mim. Os pássaros devoravam seus pensamentos e memórias". Esse tipo de texto também pode ser uma continuação do diálogo, quando a imagem mostra algo do passado. Nesse caso, o texto deve vir entre aspas.

Gerry Conway usava muito o recurso do texto diálogo em sua fase no Homem-araha

TERCEIRO TIPO Texto diálogo - recurso muito pouco usado, mas bastante criativo. É quando o narrador parece estar conversando com o personagem. Gerry Conway, quando escrevia o Homem Aranha, no início da década de 70,  costumava usar muito essa técnica. Numa sequência que mostra o aracnídeo balançando-se sobre a cidade, o texto diz: "As pessoas terminam fazendo o que é preciso... mesmo que se odeiem por  isso. E você se odeia por  isso, não é Peter? Sim, com certeza". Outro exemplo é a história Shamballa, de J.M.De Mattei, com o personagem Dr. Estranho: “Mestre das Artes Místicas. Desde que assumiu esse majestoso título, parece ter eliminado a malícia e a mesquinhez de seu coração. Pena que ainda não aprendeu a sorrir. Você caminha, uma criança brincando com as sombras da memória: a imagem do desgraçado que foi se reflete na neve ofuscante”.  
                A partir desses três tipos básicos é possível produzir uma enorme variedade de textos.
                Ainda sobre a legenda é importante considerar algumas questões. A primeira delas é a uniformidade. Se a história começou sendo narrada por um personagem, refletindo seus pensamentos, por exemplo, ela deve ser narrada pelo personagem até o fim, sob pena de dar a impressão para o leitor de que o personagem deixou de pensar. Por outro lado, se começamos no presente, é bom continuar no presente.

A arte espetacular de Mike Zeck

 


Mike Zeck é um desenhista norte-americano conhecido principalmente por seu trabalho na Marvel Comics. Seu primeiro trabalho de sucesso para a editora foi o Mestre do Kung Fu. 
Ele começou sua carreira em em 1974, fazendo trabalhos para a Charlton Comics. Seu primeiro trabalho para a Marvel foi Mestre do Kung Fu, com roteiro de Doug Moench, iniciado em 1977.  Foi um trabalho tão marcante a ponto de ser considerado pelo Comics Bulletin como um dos 10 melhores quadrinhos da Marvel na década de 1970. Depois ele desenhou uma fase elogiada do Capitão América, com roteiro de J.M. DeMatteis. Foi também com DeMatteis que Zeck produziu um dos seus trabalhos mais celebrados, A última caçada de Kraven. O destaque que o artista tinha no início dos anos 1980 fez com que o editor Jim Shooter o escolhesse para desenhar Guerras Secretas. 










terça-feira, julho 28, 2026

Kull – O vale as sombras

 

 

Escrita por Alan Zelenetz e desenhada pelo filipino Tony De Zuniga, a história O vale das sombras parte de uma premissa interessante: a história se passa em um momento em que o rei está entre a vida e a morte, depois de ter sido ferido em batalha. Várias pessoas à sua volta observam o que parece ser o delírio final (na verdade o rei conversa com a deusa da morte) e, ao mesmo tempo, rememoram fatos da história do rei.

Em uma das histórias, por exemplo, um jovem Kull estava pescando com companheiros quando seu barco é abordado por um navio picto. Todos morrem com o impacto, menos Kull, que passa a caçar cada um dos que o haviam atacado. Em outra sequência, é mostrado como ele foi manipulado para matar o rei e como os manipuladores viram suas esperanças malograrem quando Kull decidiu se coroar rei.

O rei está no leito de morte e os seus auxiliares lembram seus momentos mais épicos. 


Seria uma história realmente sensacional, não fosse pelas limitações de Zelenetz. Ele não consegue imprimir à HQ o ar grandioso que ela exigia. Em nenhum momento seu texto vai além do mediano.

Enquanto isso, o rei conversa com a deusa da morte. 


Embora De Zuniga seja um desenhista espetacular, é nítido que ele carece de um roteiro mais elaborado guiando sua arte, o que faz inclusive que algumas sequências fiquem de difícil compreensão.


Publicada originalmente em Marvel graphic novel 47 de 1989, essa história saiu no Brasil pela abril em Conan em cores 13.