sexta-feira, outubro 23, 2026

A Fortaleza Móvel e o Mundo subterrâneo

 


Enrique Alcatena é conhecido dos leitores brasileiros principalmente por seus trabalhos na DC e na Marvel. Mas ele tem uma vasta produção em seu país local, a Argentina, quase desconhecida no Brasil, a exemplo do álbum A fortaleza móvel e o mundo subterrâneo, lançado em 2020 pela editora Pipoca e Nanquim.

O álbum reúne histórias do mercenário Bass de Avregaut com roteiro do também argentino Ricardo Barreiro. É um encontro de mestres. Barreiro é um roteirisita extremamente criativo, com conceitos absurdamente inovadores e Alcatena, embora estivesse ainda em início de carreira, deslumbrava ao levar os conceitos criados pelo roteirista a caminhos inusitados.

Os superlativos não são por acaso. A fortaleza móvel e o mundo subterrâneo é um trabalho realmente surpreendente pela qualidade – e por fugir daquilo que estamos acostumados no gênero espada e magia.

A trama acompanha o mercenário Bass em uma série de infortúnios. Inicialmente ele está atravessando o deserto em um triceratops (chamado na história de Orlock) quando é atacado por um monstro gigantesco que se move pelas areias.



Ele encontra abrigo numa fortaleza amaldiçoada de onde é obrigado a fugir num dirigível. Na sequência é abatido e colocado como escravo na fortaleza móvel, um gigantesco veículo acionado por uma espécie de carvão radioativo que deforma quem entra em contato com ele (os que trabalham nas caldeiras, como Bass, são obrigados a usar uma roupa especial que nunca pode ser tirada). A fortaleza será usada para devastar uma cidade.

Quando a guerra finalmente se define, Bass foge novamente num dirigível até ser capturado pelo povo subterrâneo, composto por albinos cruéis. Ali ele deve combater pela princesa contra outros campeões em um torneio em que quem vence deverá fecundar todas as mulheres virgens.



Como se vê, os conceitos são bizarros. Mas Alcatena os torna ainda mais bizarros. Nada é previsível em em sua visão desse mundo. Assim, a caldeira da forteleza móvel parece um monstro, torres parecem homens meditando, montanhas assemelham-se a caretas grotescas prontas a abocanhar o dirigível.

Em várias páginas, alcatena apresenta um quadro maior, em que deixa sua imaginação fluir em imagens que sintetizam o melhor da fantasia.



Altamente influenciado por Hector Oesterheld, Barreto apresenta um texto que flerta com o litário e complementa com perfeição as aloprações visuais de alcatena.

Ao ler, é impossível não imaginar o que seria o trabalho da dupla nos famosos personagens Marvel-DC. Certamente seria revolucionário.

Lanterna e Arqueiro Verde – A ameaça de plástico

 


No número 84 da revista do Lanterna e do Arqueiro Verde, Denny O´Neil e Neal Adams abordaram o tema da alienação.

Na história, o Lanterna descobre que onde a namorada está internada para um tratamento está ameaçada pelo rompimento de uma represa. Quando consegue conter o vazamento, ele é parabenizado pelo prefeito, recebe uma chave e um broche, que espirra perfume.

Um exemplo de como Adams sabia ser inovador na diagramação. 


Toda a cidade é caracterizada por uma distopia capitalista em que as pessoas são controladas pelos broxes, todo o ar é poluído e tudo é de plástico, inclusive a chave da cidade. O plástico aqui tem uma forte simbologia de algo artificial e fútil.

A cidade é uma distopia capitalista em que tudo é de plástico e o ar é poluído. 


A história perde um pouco da força quando se descobre que quem está por trás de tudo é um vilão chamado Mão Negra, mas é ele que nos traz uma definição do que está acontecendo na cidade. Segundo ele, ao serem borrifadas pelo perfume, as pessoas perdem a concentração, sendo incapazes de pensar. ”Lavagem cerebral em massa... seu calhorda! E para que tanto esforço?”, pergunta o herói. “É bem simples, lanterna. Para agradar os patrões. Ao eliminar a ambição e a curiosidade... nós temos empregados perfeitos!”.

O vilão explica o processo pelo qual as pessoas são controladas. 


Embora nem de longe essa história seja o melhor exemplo do trabalho de Neal Adams, ela sem dúvida tem alguns momentos impressionantes. Um deles é a sequência que mostra o Lanterna e a namorada se beijando no chão da sala e os ladrilhos se transformam em quadrinhos que mostram outras atividades do casal, como cavalgar ou nadar. Um ótimo exemplo de como o artista poderia ser inovador na diagramação.

A Arte Espetacular de Ron Turner


Ron Turner foi um ilustrador e desenhista britânico conhecido principalmente por seu trabalho pioneiro no gênero da ficção científica.

Nascido em 1922, na Inglaterra, Turner cresceu fascinado pelas tiras de jornal de Flash Gordon, ilustradas por Alex Raymond, e pelas capas das clássicas revistas pulp de FC. Seus primeiros traços foram justamente tentativas de imitar essas ilustrações.

Aos catorze anos, conseguiu um emprego como aprendiz no estúdio de arte da editora Odhams Press. Dois anos depois, em 1938, começou a colaborar com a revista Modern Wonder, mas sua carreira artística foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, foi contratado para desenhar a série em quadrinhos Big, que narrava as aventuras da tripulação da "Toupeira Atômica" — uma nave que explorava as profundezas da Terra.

Quando a Odhams passou a publicar romances de ficção científica em formato paperback (livros de bolso), Turner foi encarregado de ilustrar as capas. O sucesso de suas artes foi tão marcante que diversas outras editoras começaram a encomendar trabalhos semelhantes.

Na década de 1960, ilustrou quadrinhos e tiras de franquias consagradas como Doctor Who, Jornada nas Estrelas (Star Trek) e Terra de Gigantes. Já na década de 1970, chegou a desenhar o icônico personagem Juiz Dredd para a lendária revista 2000 AD.











quinta-feira, outubro 22, 2026

Arcimboldo

 


Arcimboldo é, provavelmente, um dos mais criativos pintores de toda a história da arte. Seus retratos eram feitos a partir da junção de imagens: flores, verduras, frutas, raízes e até animais. Foi protegido do rei Fernando I, monarca do reino da Boêmia, e de seus sucessores. Na época, a Boêmia, embora fosse um reino católico, era um local bastante tolerante, o que permitiu que o pintor pudesse realizar sua arte repleta de dualidade e simbologias. Embora tenha sido ignorado após a sua morte e quase esquecido por séculos, Arcimboldo foi resgatado pelos surrealistas, que o consideravam uma forte influência. Foto no Museu do Louvre.

O homem que copiava

 


Se há um filme cuja força está no roteiro, esse é O homem que copiava. Lançado em 2003 e escrito e dirigindo por Jorge furtado, ele conta a história de André (interpretado por Lázaro Ramos), um operador de fotocopiadora apaixonado por uma vizinha que ele espiona toda noite através de um binóculo.

O roteiro é do tipo em que um fato vai puxando o outro que puxa outro etcetera. Para impressionar a garota ele fica de comprar um Chambre na loja que ela trabalha. Para isso ele falsifica dinheiro na xerox. Para trocar dinheiro, ele faz um jogo na lotérica. Cada um desses pequenos fatos, aparentemente aleatórios vai ganhando importância na trama. Até mesmo a galinha do clímax ganha relevância. 

Além disso, temos uma ótima caracterização dia personagens, tão diversos quanto carismáticos. O elenco, afinado, ajuda a dar credibilidade para a história. Além de Lázaro Ramos, temos Leandra Leal, como a garota interesse romântico do protagonista, Luana Piovani, como a colega de trabalho que só pensa em casar com um homem rico e Pedro Cardoso, o malandro dono de uma loja de usados.

Se não bastasse tudo isso, temos uma reviravolta final que ressignifica tudo. O espectador percebe que tudo que viu até ali não era nada do que ele imaginava. 

O filme está disponível na Netflix.

Hulk e Coisa: A grande mudança

 


Se há dois personagens da Marvel que merecem ser chamados de pesos-pesados são o Hulk e o Coisa. E os encontros dos dois sempre renderam boas histórias. Um dos mais célebres desses encontros foi a história A grande mudança, publicada no Brasil no primeiro número da coleção Graphic Marvel.
Essa graphic era também o encontro de dois monstros, mas dessa vez da indústria de quadrinhos: Jim Starlim e Berni Wrightson.
A história tinha uma forte pegada de humor, o que já fica explícito desde a primeira página, com close do Coisa com um tomate esmagado no alto de sua cabeça e o suco escorrendo pelo rosto. O texto dava a entender que ele estava enfrentando um grande inimigo. Quando viramos a página descobrimos que o grande inimigo era... a turma da rua Yancy! Antes que seja atigindo por novos tomates, ele é teleportado. O mesmo acontece com o Hulk numa sequência hilária em que um escultor faz uma grande estátua em homenagem ao Coisa, e esta acaba sendo destruída pelo... gigante esmeralda!
Os dois são teleportados para um planeta onde devem entregar uma intimação para um mafioso que sequestrou um cientista. Em troca, terão direito a dois desejos.
Starlin abusa dos trocadilhos no nome os personagens. O cientista chama-se  Dhu Ente. O sequestrador chama-se Kissal Afrário e seu chefe responde pela singela alcunha de Senth Obbraço.


Berni Wrightson conseguia unir humor com desenho anatômico.

É uma sequência momumental de situações absurdas e hilárias. À certa altura, por exemplo, o Hulk precisa se disfarçar e não pensa duas vezes: soca um ser no formato de polvo e o coloca na cabeça.
Se o texto é muito divertido, o desenho é um deslumbre.  Wrightson é um mestre do desenho e da narrativa, que consegue aliar um desenho anatômico com humor e fazer algumas splash pages realmente fantásticas.
Essa graphic é um ótimo exemplo de é que possível fazer quadrinhos fast food, como pura diversão e ainda assim manter a qualidade.

A longa noite, de Raymond Chandler

 

 

Raymond Chandler era um dos principais escritores do policial noir. Em A longa noite, ele mostra porque era o mestre do gênero.

A história começa em um bar, no qual está o detetive Philp Marlowe, o famoso personagem de Chandler. Um homem entra, pergunta a respeito uma mulher, dá a descrição dela e, em seguida é assassinado por um bêbado que estava lá aparentemente por acaso.

Esse acontecimento aparentemente casual vai dar origem a toda uma trama, que dura uma noite inteira, em que os fatos vão se sucedendo um atrás do outro. É aquele tipo de história em que algo pequeno revela algo maior, que revela algo maior e assim sucessivamente, deixando o leitor continuamente supreso com o desenrolar dos acontecimentos.

Chandler, juntamente Dashiell Hammett, revolucionaram o gênero policial ao unirem descrições realistas de cenas de crime com uma narrativa ácida e diálogos sarcásticos.

A maestria do escritor já pode ser percebida desde o primeiro parágrafo, no qual ele fala do vento do deserto, que estava soprando sobre a cidade. É uma noite em que “esposas submissas passam o dedo pelo fio de facões de carne e contemplam, pensativas, os pescoços dos maridos”.

As descrições são precisas e ao mesmo tempo exageradas, como em: “O sujeito moreno levou uma semana inteira para cair” ou em diálogos, como em:

- Eu também não gosto de ser testemunha. O pagamento é muito baixo.

Muitas das histórias de Chandler foram transpostas para o cinema, com grande sucesso, e lendo A longa noite, entendemos porque. Sua narrativa era praticamente uma cena decupada. Há, por exemplo, uma sequência em que e o detetive conhece a garota que será seu interesse romântico na história. Ela está metida em apuros e Chandler usa o elevador e o medo de alguém que poderia emergir dele como elemento de suspense, pontuando a narrativa. De tempos em tempos ele acrescenta: “O elevador parou lá embaixo”; “o elevador começou a descer novamente”. Era só seguir o texto e filmar.

O surgimento da Marvel

 

Em 1961, uma partida de golfe mudaria a história dos quadrinhos de super-heróis. Os jogadores eram Martin Goodman, da Atlas (atual Marvel) e Jack Liebowitz, da National (atual DC Comics). Liebowitz comentou que a revista da Liga da Justiça, recentemente lançada, era um sucesso entre os leitores.
Goodman despediu-se e foi para a editora, pedir a Stan Lee que criasse uma cópia da Liga para aproveitar aquele interesse dos leitores por heróis clássicos reunidos num grupo.
Acontece que Stan Lee já estava de saco cheio daquilo. Ele se sentia mal, num campo editorial enfraquecido pela concorrência da televisão e perseguido por pais e professores. Além disso, queria fazer algo diferente. Ele tinha algumas idéias em mente, mas tinha medo de apresentá-las. Foi sua esposa que o convenceu que aquela era uma oportunidade de fazer o que queria: ¨Querido, se não der certo, o pior que pode acontecer será Goodman demiti-lo¨.
Então, ao invés de promover uma reunião de personagens clássicos, como Namor e o Capitão América, ele propôs algo completamente diferente. O novo grupo era um quarteto de astronautas que, ao fazer uma viagem espacial, foram bombardeados por raios cósmicos e ganharam incríveis poderes: o Quarteto Fantástico! O grupo era composto por um cientista que conseguia se esticar como elástico, uma moça que podia se tornar invisível, um rapaz que pegava fogo e virava uma tocha humana e um ser grotesco, o Coisa. Esse último personagem foi o mais diferente, e logo cativou os leitores. Até então, os heróis pareciam muito felizes com seus poderes, mas Bem Grimm não. Os raios cósmicos o haviam transformado num monstro de pedra. Inconformado, ele vivia resmungando pelos cantos e comprando brigas com os outros.
Isso era uma novidade: até então os heróis pareciam coroinhas ou escoteiros: todos muito bonzinhos e afáveis. Um herói ranzinza e um grupo que se parecia mais com uma família (inclusive com suas brigas) foi algo que provocou estranhamento, mas logo conquistou os leitores. Além disso, as histórias começaram a apresentar uma cronologia. Até então as histórias eram sempre isoladas e não havia uma continuidade. Nas histórias do Quarteto, se um personagem pegava uma gripe numa história, na história seguinte ele continuaria gripado. Para arrematar, Lee deu a seus heróis um caráter humano que permitia uma identificação dos leitores: os heróis Marvel, a despeito de seus incríveis poderes, eram pessoas normais, que levavam fora das namoradas, sentiam ciúmes, eram esnobados, ficavam doentes... e até morriam.
A revista do Quarteto Fantástico tinha desenhos de Jack Kirby, o rei dos quadrinhos de super-heróis. Seu traço expressionista influenciou praticamente todos os artistas americanos a partir de então e criou as bases do visual dos super-heróis.
Kirby era um mestre épico, das grandes sagas intergaláticas e dos heróis super-poderosos. Já Lee era o mestre do lado humano, dos dramas e comédias da vida normal. Os leitores se identificavam com a humanidade colocada nas histórias por Lee e se projetavam no grandioso, especialidade de Kirby.
Stan Lee era um roteirista e editor querido por todos os artistas. Era um um gente-boa, que dava liberdade criativa para seus artistas e conseguia deles o seu melhor. Ele também usava e abusava da promoção pessoal, colocando em destaque o seu nome e o dos artistas nas páginas das revistas.  Além disso, ele criou o chamado método Marvel de escrever roteiros. Como exercia a função de editor e escrevia diversas revistas, ele não tinha tempo de produzir scripts completos, então fazia apenas um resumo da história e entregava para o desenhista. Este ilustrava, entregando depois para que Lee colocasse os textos e diálogos. Esse aspecto fez com que alguns colocassem em dúvida a verdadeira importância de Stan Lee, mas hoje são poucos os pesquisadores que descartam a relevância desse roteirista para o sucesso da editora que ficou conhecida como ¨A casa das idéias¨.

Camelot 3000 – O monarca do passado e do futuro

 

 

Camelot 3000 foi uma obra marcante para a DC. Primeiro porque inaugurou o conceito de maxisérie, que depois viria a ser usado em quadrinhos como Watchmen. Segundo porque foi a primeira publicação da DC voltada exclusivamente para o mercado direto, as lojas de quadrinhos, o que a deixava fora da censura do comics code. “Tendo adicionado um cavaleiro transexual, lesbianismo, incesto e vários outros elementos que desobeciam o código, eu sentia que tinha levado as coisas tão longe quanto elas poderiam ir à época”, conta Mike W. Barr, o roteirista.

Além disso, a arte de Brian Bolland dava uma característica visual única à HQ. Sua mistura de futurismo e Idade Média foi fundamental para que a série fosse um sucesso. Essas características de inovação já apareciam no primeiro número (embora nessas primeiras histórias a arte-final estivesse a cargo de Bruce Patterson, que combinava pouco com o traço detalhista de Bolland).

A série apresentava violência explícita. 


Na história, um garoto, Tom, está fugindo da Inglaterra ocupada por alienígenas na tentativa de chegar à França. O carro onde eles está é atingido por um raio e os pais de Tom morrem. Ele se refugia em uma escavação histórica, mas mesmo assim é perseguido. Ao tentar passar por um corredor ele levanta a tampa de um caixão de onde sai ninguém menos que o Rei Arthur, em uma splah page impressionante que destacava toda a altivez do herói.

Já nessa primeira sequência percebemos como o fato de não estar sujeita ao comics code tornava essa história diferente das outras. A violência aqui não é simulada, mas real e mostrada em detalhes: Arthur usa uma espécie de espada para simplesmente rachar a cabeça de um dos extraterrestres e atravessar o peito de outro – imagens mostradas com realismo por Bolland.

A primeira aparição de Arthur é impressionante... 


Usando a nave dos alienígenas, Arthur e Tom vão para Stonehenge, onde libertam Merlin, mais uma vez em uma splash page impressionate com o personagem, monstruosamente grande, emergindo da terra.

Essa história ainda apresenta textos em excesso, como admitido pelo próprio roteirista: “Quando comecei, eu ainda era da turma do ‘texto em excesso’, um escritor que frequentemente achava que era necessário duplicar em uma legenda descritiva a informação dada ao artista, mas rapidamente percebi que a arte fornecida por alguém do calibre de Brian Bolland não precisava dessas muletas narrativas”.

... assim como a primeira aparição de Merlin. 


Mesmo com esse problema e com a arte-final ainda não adequada, é um começo de fôlego, que deve ter empolgado os leitores americanos e certamente empolgou os leitores das revistas da editora Abril, como Batman e Superamigos.

quarta-feira, outubro 21, 2026

Abapuru, de Tarsila do Amaral

 

Abapuru é o quadro mais famoso e importante da arte brasileira. Ele foi pintado em segredo por Tarsila do Amaral e dado de presente para seu esposo no dia de seu aniversário, em 11 de janeiro de 1928.
Oswald de Andrade ficou fascinado com o quadro e mostrou para o poeta Raul Bopp. Juntos começaram a analisar a imagem e ver ali um índio canibal, aquele que iria devorar a cultura vinda de fora para apossar-se dela e reinventá-la.
Tarsila procurou um dicionário de tupi e encontrou ali as palavras “aba” e “poru”, homem que come. Assim foi batizado o que se tornaria o quadro mais importante da arte brasileira.
Oswald usou o quadro como exemplo de sua proposta para a arte brasileira: ao invés de imitar os europeus, como se fazia até então, procurar uma arte nacional através da assimilação de vários elementos e reinvenção dos mesmos.
Quando o casal se separou, Tarsila quis ficar com o quadro – e ofereceu para Oswald um outro quadro seu, na época mais valioso.
Conforme participava de exposições no Brasil e no exterior, Abapuru foi ganhando fama.
Nos anos 1960, Tarsila vendeu o quadro para o crítico de arte  Pietro Maria Bardi, fundador do MASP. Sua ideia era que o quadro passasse a integrar o acervo do Museu. Mas Bardi preferiu ganhar dinheiro. O quadro foi vendido e revendido, tornando-se mais valioso a cada ano, até ir parar nas mãos de um colecionar argentino, que o colocou no acervo de um museu de Buenos Aires.
A volta do quadro para o Brasil em 2019, em uma exposição temporária no MASP, levou uma verdadeira multidão para o museu (foi quando tirei essa foto).
Uma curiosidade é que o quadro surge depois de uma visita do casal Tarsila-Oswald para as cidades históricas de Minas Gerais. Tarsila ficou encantada com a cultura local, principalmente as cores e passou a incorporá-la nas suas pinturas. Há um depoimento dela segundo o qual ao estudar na Europa ela aprendeu que as cores vivas eram feias e deviam ser evitadas, e depois dessa visita a Minas ela deixou de se envergonhar de usá-las em seus quadros.
Aliás, essa proposta lembra muito as ideias de um amigo do casal, Monteiro Lobato, segundo o qual os artistas brasileiros deveriam deixar de simplesmente imitar os europeus e buscar em nossas raízes populares o norte para uma arte brasileira. 

Quarteto Fantástico – Prisioneiros da dupla diabólica

  


No número 6 da revista do Quarteto Fantástico o grupo enfrentou as duas maiores ameaças encontradas até o momento: Dr. Destino e Namor.

Na trama, Destino resolve aproveitar o ódio de Namor pela humanidade transformando-o em um aliado para acabar com o Quarteto Fantástico. Assim, ele o usa para colocar um “buscador”, um aparelho que quando agarra em algo exerce uma força magnética nele, levando-o até o dono do controle remoto.

O plano é tão simples quanto non-sense: colocar o buscador no edifício Baxter e, usando uma nave espacial, jogar o edifício na direção do Sol. Eu lia e me perguntava: como é possível tirar um edifício, arrancando-o de suas fundações, sem que ele desmorone? Mas naqueles tempos valia tudo.

Sue, dividida entre dois amores. 


Essa história tem uma cena interessante, que mostra o quanto Stan Lee estava revolucionando as história. À certa altura Johnny encontra uma foto de Namor no meio das coisas de Sue. “Creio que você me deve uma explicação, Sue”, pede Reed Richards. “Como posso explicar algo que nem eu mesmo entendo? Sei que Namor é nosso inimigo, mas...”. Estava estabelecido ali o triângulo amoroso mais famoso dos quadrinhos de super-heróis.

Aliás, quando Namor aparece no prédio, Sue corre para defende-lo (ah, o amor!). “Não, vocês não podem atacá-lo! Precisam ouvi-lo! Ele não está nem mesmo tentando se defender!”.

Um edifício sendo levado pelo espaço? Stan, dessa vez, você exagerou. 


Apesar da trama maluca do edifício sendo levado pelo espaço, há um momento que mostra que Stan Lee tinha sim alguma preocupação científica. Quando o Tocha Humana tenta alcançar a nave de Destino, ele descobre que a falta de oxigênio faz com que suas chamas se apaguem.

Dessas primeiras histórias essa é a mais empolgante. O perigo aqui parece real e a solução parece impossível. Uma obra-prima de uma dupla que ainda iria realizar muitas obras-primas. 

Conan - A cidadela dos condenados

 


Em mais de duas décadas de publicação interrupta, Conan teve uma variedade imensa de grandes histórias. Mas uma das HQs que deveria constar obrigatoriamente em qualquer lista de melhores é a Cidadela dos Condenados, de Roy Thomas e Barry Windson Smith publicada originalmente na revista Savage Tales 2 de 1973 e republicada no Brasil no primeiro número da coleção A espada selvagem de Conan, da Salvat.
Se compararmos essa HQ com as primeiras histórias de Conan desenhadas por BWS apenas três anos antes, a evolução é simplesmente impressionante, em especial na figura humana, quase como se estivéssemos vendo um outro desenhista.
Essa evolução pode ser percebida logo nas primeiras páginas, que mostram a pirata Valéria adentrando em uma floresta. Sua figura sensual e anatomicamente perfeita, o detalhe nos olhos e no cabelo, a folhagem mostrada nos mínimos detalhes... cada quadro é uma obra de arte.
Quando aparece o dragão, na página cinco, então, é deslumbrante. BWS já tinha mostrado que sabia desenhar dinossauros na história Os guardiões da tumba, publicada em Conan 8, mas aqui, o bicho (na verdade um estegossauro, que no mundo real era herbívoro) se torna um monstro assustador.

Se o desenho é digno de todos os elogios, a história, baseada em um conto de Robert E. Howard, não fica atrás.
Na história, Valeria está fugindo depois de esfaquear um oficial stygio e vai parar em um oásis no meio do deserto. É seguida por Conan. Mas o oásis é um falso paraíso. O local é guardado por um dragão, que devora todos que procuram abrigo ali.
A dupla, consegue matar o dragão – graças à engenhosidade do cimério - e se encaminha por uma cidade no meio do deserto. Ali eles se deparam com uma guerra fraticida entre dois grupos por causa de uma mulher. É uma cidade em que a traição pode estar atrás de cada porta e ninguém parece confiável. O roteiro consegue explorar  com perfeição a guerra entre os dois grupos e as várias reviravoltas da trama. É uma história longa, mas que quando termina, queremos mais. 

O Telefone do Sr. Harrigan

 


Amizade, luto e tecnologia como elementos de terror. O telefone do senhor Harrigan, filme de John Lee Hancock, reúne todas essas características comum a muitos dos livros de Stephen King.

Na história, o garoto Craig vê sua vida mudar quanto um milionário o contrata para ler livros para ele. A partir daí começa a se desenvolver uma relação muito improvável entre esse jovem pobre e o velho milionário, uma amizade sedimentada principalmente na literatura, uma paixão em comum. Há um outro ponto em comum: ambos perderam suas mães muito jovens.

Essa história sofre uma reviravolta quando o velho morre e o garoto passa a acreditar que está recebendo mensagens dele no celular. Esse é o toque sobrenatural da história, como não poderia faltar em uma história de King.

Mas engana-se quem acha que se trata de uma história de terror. O telefone do Sr Harrigan está muito mais para a Jornada do Herói do que para a Jornada do Horror. Os elementos sobrenaturais aí são na verdade veículos para a jornada de auto-conhecimento e redenção do protagonista.

O telefone do Sr Harrigan é um filme tocante, cujos personagens prendem a atenção do leitor e ganham simpatia mesmo com seus defeitos. Uma boa pedida na Netflix.

A arte inesquecível de Galep

 

Galep é mais conhecido por ter sido o co-criador do ranger Tex, o mais famoso quadrinho italiano de todos os tempos. Seu estilo econômico e discreto, em que o desenho serve essencialmente à narrativa teve uma influência absoluta sobre os fumetti, em especial os publicados pela editora Bonelli. Mas seu trabalho não se restringiu a Tex: ele ilustrou de tudo, inclusive arte sacra. Confira o trabalho desse mestre e clique aqui para saber mais sobre sua trajetória.