Apesar de ser um marco da ficção científica, a série Perry
Rhodan muitas vezes peca ao focar excessivamente na perspectiva dos
terranos. Por isso, o volume 246 surpreende ao trazer trechos narrados sob a
ótica de um alienígena.
Nesta trama, os humanos investigam a origem de naves
kamikazes que estão devastando a galáxia de Andro-Beta. Descobre-se que tais
naves são pilotadas por androides rudimentares, feitos do plasma vivo
encontrado pela humanidade no volume anterior. Com inteligência limitada pelo
seu tamanho, esses seres cumprem uma única diretriz: destruir planetas.
A narrativa alienígena vem do ser que fabrica esses
androides a mando dos Senhores da Galáxia. "Se não fosse meu trabalho,
essa operação nunca poderia ser realizada. Por uma ironia cruel do destino, fui
obrigado a fazer uma coisa que abominava. Constantemente tive que lutar contra
a voz da consciência, que queria levar-me a assumir uma atitude de resistência
e rebelião", reflete o alienígena. Ele, no entanto, continua obedecendo,
com medo de que os Senhores da Galáxia eliminem seu povo.
Essa perspectiva, trazida pelo escritor H.G. Ewers,
apresenta uma virada interessante ao mostrar o inimigo não como um vilão, mas
como alguém coagido.
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| Capa original alemã. |
Este livro, como vários outros da série, sofre do mal da
"enrolação": a história de fato só engrena mais à frente. Contudo,
Ewers consegue preencher as páginas anteriores habilmente, tornando a leitura
agradável ao trazer detalhes da vida em outro planeta ou a respeito dos
personagens.
Logo no começo, por exemplo, ele nos apresenta o parasita
dos cogumelos do planeta Gleam: "Achatado e do tamanho de uma mão humana,
precipitara-se sobre o cigarro aceso, envolvendo-o com seus tentáculos
venenosos. Os tentáculos terminavam em ferrões finos, mas muito duros, cujo
veneno era capaz de matar um homem numa questão de segundos".
Outro destaque é a conversa de Gucky com o alienígena
Grek-1, na qual o rato-castor tenta explicar o conceito de humor, terminando
com a pérola filosófica: "Senso de humor é o que a gente mostra quando ri
apesar de tudo". Como se vê, é um livro que conquista por esses pequenos
momentos, e não pela trama em si, que é um pouco esvaziada e demora a
acontecer.
No entanto, a obra não escapa de furos lógicos. É difícil
engolir a estratégia de Grek-1: sugerir aos Senhores da Galáxia que os
invasores são Maahks (seu próprio povo) para proteger os terranos parece um
risco desproporcional, que poderia levar à extinção de sua própria raça.
Além disso, há uma contradição tecnológica gritante: o
computador da nave é descrito como um colosso de seis andares. Em um universo
onde a miniaturização microscópica já é comum, por que os computadores
continuariam gigantescos?


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