Zona Morta, publicado em 1979, é certamente um dos
romances mais relevantes e bem-acabados de Stephen King. Na trama, o
protagonista sofre um grave acidente de carro e, ao despertar, descobre ter
adquirido poderes de clarividência e precognição, ativados pelo toque em
objetos ou pessoas.
A maestria de King reside na forma como ele constrói um
universo e um personagem inteiramente críveis antes de introduzir o elemento
fantástico. Um exemplo dessa destreza narrativa é o capítulo de abertura, no
qual Johnny Smith visita uma feira com sua namorada, Sarah. O texto apresenta
uma situação prosaica — um casal se divertindo —, mas, simultaneamente,
instaura uma tensão palpável de que algo terrível está prestes a ocorrer. Esse
presságio é estabelecido logo no primeiro parágrafo:
“As duas coisas de que Sarah se lembrou mais tarde, sobre
aquela noite, foram a sorte dele na roda da fortuna e a máscara. Mas, com o
passar dos anos, era na máscara que ela pensava... quando conseguia forçar-se a
pensar naquela noite horrível.”
King estica ao máximo o fio do suspense; o evento
catastrófico, embora constantemente antecipado, é adiado, permitindo que o
leitor sinta um alívio momentâneo apenas para ser envolvido em uma nova
sequência de tensão... até o fatídico acidente.
Toda a fase da fisioterapia e recuperação é narrada com
detalhes que ampliam a verossimilhança. A paranormalidade é inserida
gradualmente, como no momento em que John prevê o incêndio na casa de sua
fisioterapeuta. Essa estratégia de ancorar o absurdo no realismo cotidiano
tornou-se uma marca registrada do autor, repetida em obras posteriores como O
Cemitério.
É provável que King tenha se inspirado na Síndrome de Savant
Adquirida, na qual pessoas que sobrevivem a traumas cerebrais ou comas
despertam com habilidades extraordinárias. Ele parece ter partido da premissa: “E
se alguém pudesse prever que um político de uma pequena cidade se tornaria
presidente e levaria o mundo a uma guerra nuclear?”. No fundo, o livro é
uma atualização do dilema ético clássico: “O que você faria se pudesse
voltar no tempo e matar Hitler?”.
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| O filme foi adaptado para o cinema por David Cronenberg, em 1983. |
O "herói" da história, contudo, é um homem
atormentado por seu dom, o que facilita a identificação do leitor. Johnny não é
um super-homem, mas uma vítima da própria percepção.
A capacidade de King em tornar interessantes até os momentos
mais triviais é comprovada pela minha própria memória afetiva. Desde que li o
livro, no início dos anos 90, duas passagens ficaram gravadas: a espiral de
loucura da mãe de Johnny, que se afunda em seitas religiosas, e a "lição
de leitura", quando Smith ajuda o filho de um magnata a superar a fobia de
livros. No primeiro caso, o autor cunha uma frase que resume sua visão cética
da fé institucionalizada: “Deus age pelas mãos dos homens”. Na segunda situação,
surpreende a habilidade do autor em empolgar o leitor e fazê-lo torcer
fervorosamente por um rapaz que simplesmente tenta ler um parágrafo.
Em tempo: Naquela mesma década de 90, enquanto eu lia A
Zona Morta, uma amiga comentou que "toda leitura era válida, até mesmo
aquilo que eu estava lendo". O comentário ilustra bem como King era
subestimado na época. Não por acaso, minha edição era popular, de banca,
impressa em papel jornal, o que lhe conferia um ar de
"subliteratura".
Hoje, os livros de King ganham edições de luxo em capa dura
e ele é reverenciado como um dos grandes mestres da narrativa contemporânea.
Isso demonstra não apenas que as novas gerações souberam valorizar sua técnica
literária, mas também o quanto o formato da mensagem influencia a percepção de
valor da obra pelo público.


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