sábado, junho 27, 2026

Zona Morta, de Stephen King

 


Zona Morta, publicado em 1979, é certamente um dos romances mais relevantes e bem-acabados de Stephen King. Na trama, o protagonista sofre um grave acidente de carro e, ao despertar, descobre ter adquirido poderes de clarividência e precognição, ativados pelo toque em objetos ou pessoas.

A maestria de King reside na forma como ele constrói um universo e um personagem inteiramente críveis antes de introduzir o elemento fantástico. Um exemplo dessa destreza narrativa é o capítulo de abertura, no qual Johnny Smith visita uma feira com sua namorada, Sarah. O texto apresenta uma situação prosaica — um casal se divertindo —, mas, simultaneamente, instaura uma tensão palpável de que algo terrível está prestes a ocorrer. Esse presságio é estabelecido logo no primeiro parágrafo:

“As duas coisas de que Sarah se lembrou mais tarde, sobre aquela noite, foram a sorte dele na roda da fortuna e a máscara. Mas, com o passar dos anos, era na máscara que ela pensava... quando conseguia forçar-se a pensar naquela noite horrível.”

King estica ao máximo o fio do suspense; o evento catastrófico, embora constantemente antecipado, é adiado, permitindo que o leitor sinta um alívio momentâneo apenas para ser envolvido em uma nova sequência de tensão... até o fatídico acidente.

Toda a fase da fisioterapia e recuperação é narrada com detalhes que ampliam a verossimilhança. A paranormalidade é inserida gradualmente, como no momento em que John prevê o incêndio na casa de sua fisioterapeuta. Essa estratégia de ancorar o absurdo no realismo cotidiano tornou-se uma marca registrada do autor, repetida em obras posteriores como O Cemitério.

É provável que King tenha se inspirado na Síndrome de Savant Adquirida, na qual pessoas que sobrevivem a traumas cerebrais ou comas despertam com habilidades extraordinárias. Ele parece ter partido da premissa: “E se alguém pudesse prever que um político de uma pequena cidade se tornaria presidente e levaria o mundo a uma guerra nuclear?”. No fundo, o livro é uma atualização do dilema ético clássico: “O que você faria se pudesse voltar no tempo e matar Hitler?”.

O filme foi adaptado para o cinema por David Cronenberg, em 1983.


O "herói" da história, contudo, é um homem atormentado por seu dom, o que facilita a identificação do leitor. Johnny não é um super-homem, mas uma vítima da própria percepção.

A capacidade de King em tornar interessantes até os momentos mais triviais é comprovada pela minha própria memória afetiva. Desde que li o livro, no início dos anos 90, duas passagens ficaram gravadas: a espiral de loucura da mãe de Johnny, que se afunda em seitas religiosas, e a "lição de leitura", quando Smith ajuda o filho de um magnata a superar a fobia de livros. No primeiro caso, o autor cunha uma frase que resume sua visão cética da fé institucionalizada: “Deus age pelas mãos dos homens”. Na segunda situação, surpreende a habilidade do autor em empolgar o leitor e fazê-lo torcer fervorosamente por um rapaz que simplesmente tenta ler um parágrafo.

Em tempo: Naquela mesma década de 90, enquanto eu lia A Zona Morta, uma amiga comentou que "toda leitura era válida, até mesmo aquilo que eu estava lendo". O comentário ilustra bem como King era subestimado na época. Não por acaso, minha edição era popular, de banca, impressa em papel jornal, o que lhe conferia um ar de "subliteratura".

Hoje, os livros de King ganham edições de luxo em capa dura e ele é reverenciado como um dos grandes mestres da narrativa contemporânea. Isso demonstra não apenas que as novas gerações souberam valorizar sua técnica literária, mas também o quanto o formato da mensagem influencia a percepção de valor da obra pelo público.

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