No dia 19 de dezembro de 1990, emprestei da Biblioteca Pública de Belém e li o conto O Capote, de Nikolai Gógol. Foi um divisor de águas na minha vida, uma verdadeira experiência de êxtase literário. Comecei rindo do ridículo e subalterno funcionário público Akáki Akákovitch, mas logo me vi profundamente envolvido por seu sonho de adquirir um capote novo e comovido com seu drama avassalador quando o agasalho é roubado.
Gógol conseguiu me conduzir de uma emoção a outra em uma
narrativa curta, escrita de forma singela, porém repleta de significados e
camadas. Dostoiévski afirmou certa vez que "todos nós saímos do Capote
de Gógol", e é fácil compreender o porquê. O "riso entre
lágrimas" dessa história nos envolve e nos acompanha por muito tempo após
o término da leitura.
O impacto daquela experiência foi tão avassalador que
fotocopiei e encadernei o livro, confeccionando até mesmo uma capa artesanal —
na qual registrei, do próprio punho, tanto a data da leitura quanto a do
encadernamento. Era como se eu quisesse eternizar aquele instante para a
posteridade, antecipando o modo como ele marcaria indelevelmente toda a minha
escrita a partir dali.
Anos mais tarde, adaptei duas outras histórias do autor para
os quadrinhos — O Inspetor Geral e O Nariz —, com os desenhos do
meu compadre Bené Nascimento. No entanto, o desejo de adaptar O Capote,
a obra que tanto me impressionara na juventude, permanecia vivo. Foi assim que
a narrativa original se transformou em um roteiro cinematográfico intitulado Magrela,
no qual o vestuário da São Petersburgo czarista deu lugar a uma bicicleta circulando
pelas ruas de Macapá.
Esse roteiro ganhou vida nas telas e tornou-se um filme que
agora circula por diversos festivais do país, , levando pelo Brasil o “riso
entre lágrimas” de Gógol transposto para a realidade amazônica.
Em tempo: Magrela está concorrendo na categoria “Melhor
filme popular” no festival Ficça. Para votar, clique aqui.

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