terça-feira, julho 28, 2026

Se Meu Apartamento Falasse


Se há uma coisa que não se pode dizer sobre o diretor Billy Wilder é que ele tinha medo de abordar temas polêmicos. Um exemplo emblemático disso é o clássico Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment), lançado em 1960.

A história acompanha um jovem e ambicioso funcionário (interpretado por Jack Lemmon) de uma gigantesca companhia de seguros que conta com milhares de empregados. Na tentativa de se destacar e subir na hierarquia no meio de tanta gente, ele acaba emprestando seu apartamento para que um chefe realize um encontro extraconjugal. A notícia se espalha nos bastidores da firma e, logo, vários executivos começam a usar o imóvel — a ponto de o protagonista ter que passar uma noite no banco de um parque e contrair uma forte gripe.

Secretamente, ele é apaixonado por uma ascensorista do prédio da empresa (vivida por Shirley MacLaine). As coisas se complicam drasticamente quando o próprio diretor de recursos humanos passa a usar o apartamento para se encontrar justamente com a garota por quem o jovem é apaixonado.

O próprio tema da história já era polêmico e transgressor ao extremo, não só pela premissa do empréstimo do apartamento, mas por sugerir abertamente que a maioria dos altos executivos mantinha relações extraconjugais. Além disso, como se o enredo já não fosse ousado o suficiente, o filme aborda abertamente a temática do suicídio. Considerando que a produção foi realizada no início dos anos 1960, em um período no qual a sociedade norte-americana era profundamente moralista, é surpreendente não apenas que o longa tenha sido lançado, mas que tenha se tornado um enorme sucesso de público e crítica. A genialidade de Wilder reside exatamente aí: na capacidade de embalar suas audácias e críticas sociais de forma tão elegante que elas conseguiam burlar a rigorosa censura da época.

Além do roteiro impecável e do elenco perfeitamente afinado, a produção se destaca pelo uso inteligente da cenografia. Para simular que o protagonista trabalhava em uma corporação verdadeiramente colossal, a equipe de arte criou um cenário utilizando mesas e equipamentos de tamanhos regressivos — posicionando os móveis maiores na frente e escrivaninhas em miniatura, ocupadas por crianças, ao fundo —, o que gerou uma ilusão de ótica de perspectiva forçada. Um exemplo brilhante de como Wilder dominava os truques da linguagem cinematográfica para brincar com a realidade.

Em tempo: este é um caso raro em que o título brasileiro supera o original. Nos Estados Unidos, a fita foi batizada simplesmente como The Apartment.

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