Se há uma coisa que não se pode dizer sobre o diretor Billy Wilder é que ele tinha medo de abordar temas polêmicos. Um exemplo emblemático disso é o clássico Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment), lançado em 1960.
A história acompanha um jovem e ambicioso funcionário
(interpretado por Jack Lemmon) de uma gigantesca companhia de seguros que conta
com milhares de empregados. Na tentativa de se destacar e subir na hierarquia
no meio de tanta gente, ele acaba emprestando seu apartamento para que um chefe
realize um encontro extraconjugal. A notícia se espalha nos bastidores da firma
e, logo, vários executivos começam a usar o imóvel — a ponto de o protagonista
ter que passar uma noite no banco de um parque e contrair uma forte gripe.
Secretamente, ele é apaixonado por uma ascensorista do
prédio da empresa (vivida por Shirley MacLaine). As coisas se complicam
drasticamente quando o próprio diretor de recursos humanos passa a usar o
apartamento para se encontrar justamente com a garota por quem o jovem é
apaixonado.
O próprio tema da história já era polêmico e transgressor ao
extremo, não só pela premissa do empréstimo do apartamento, mas por sugerir
abertamente que a maioria dos altos executivos mantinha relações
extraconjugais. Além disso, como se o enredo já não fosse ousado o suficiente,
o filme aborda abertamente a temática do suicídio. Considerando que a produção
foi realizada no início dos anos 1960, em um período no qual a sociedade
norte-americana era profundamente moralista, é surpreendente não apenas que o longa
tenha sido lançado, mas que tenha se tornado um enorme sucesso de público e
crítica. A genialidade de Wilder reside exatamente aí: na capacidade de embalar
suas audácias e críticas sociais de forma tão elegante que elas conseguiam
burlar a rigorosa censura da época.
Além do roteiro impecável e do elenco perfeitamente afinado,
a produção se destaca pelo uso inteligente da cenografia. Para simular que o
protagonista trabalhava em uma corporação verdadeiramente colossal, a equipe de
arte criou um cenário utilizando mesas e equipamentos de tamanhos regressivos —
posicionando os móveis maiores na frente e escrivaninhas em miniatura, ocupadas
por crianças, ao fundo —, o que gerou uma ilusão de ótica de perspectiva
forçada. Um exemplo brilhante de como Wilder dominava os truques da linguagem
cinematográfica para brincar com a realidade.
Em tempo: este é um caso raro em que o título brasileiro
supera o original. Nos Estados Unidos, a fita foi batizada simplesmente como The
Apartment.

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