sábado, agosto 29, 2026

Rawhide Kid – Duelo Mortal em Solavanco

 


Antes da "Era Marvel", Stan Lee e Jack Kirby já experimentavam algumas das ideias que seriam a base da Casa das Ideias. Exemplo disso é o caubói Rawhide Kid, um verdadeiro ensaio para o que viria a ser o Homem-Aranha.

O personagem teve uma rápida aparição na década de 1950, mas, em 1960, Stan Lee resolveu trazê-lo de volta com uma nova roupagem. Nessa versão (que manteve a numeração anterior), o jovem Johnny Bart, de apenas 18 anos, vê seu tio Ben morrer e decide se tornar um justiceiro. Contudo, ele é acusado de um crime que não cometeu e passa a ser perseguido pelas autoridades, tornando-se o clássico herói incompreendido. Para o arquétipo aracnídeo ficar completo, só faltou um J. Jonah Jameson.

A história começa com o valentão local provocando Kid. 


A edição nº 19 da revista — a terceira desta nova fase — exemplifica bem essas semelhanças. Lançada em dezembro de 1960, ela chegou às bancas 11 meses antes de Fantastic Four nº 1. Apesar de ainda não contar com as chamadas de marketing efusivas que caracterizariam o estilo de Stan Lee anos depois, a capa já sintetizava a trama de forma magnética. Um brutamontes segura os braços de uma moça, puxando-a: “Escuta, gata, ninguém diz não para mim, sacou?”. Enquanto a multidão se afasta, o herói se aproxima, decidido: “Se afasta da moça, coiote ordinário! É o Rawhide Kid quem está mandando!”.

Curiosamente, a história começa de forma invertida, com o valentão no saloon ameaçando o Kid: “Você é um forasteiro em Solavanco, rapaz! Bem, eu sou Big Bill Corbett e não gosto de estranhos!”. O herói mantém-se sentado, de cabeça baixa, temendo ser reconhecido — afinal, é um fugitivo. Ele não reage nem mesmo quando o valentão chuta sua cadeira. Porém, quando o vilão ataca a mocinha em plena rua, o rapaz intervém, mesmo sob o risco de revelação de sua identidade.

Quando o valentão resolve intervir para salvar uma moça. 


Embora o traço de Jack Kirby não enfatizasse esse aspecto — Kirby, inclusive, seria preterido para o Homem-Aranha por não saber desenhar personagens esguios —, o roteiro deixa claro que o Kid é franzino. Isso transparece no quadro em que ele soca o valentão: “Surpreso, o valentão imenso se vira e encontra setenta quilos de fúria incandescente atrás de um punho que parece moldado em puro aço!”.

Como resultado, a jovem se apaixona por ele, mas surge um conflito: ela é filha do xerife. Ao perceber o perigo, Rawhide decide partir, justamente quando um bando de assaltantes invade a cidade para roubar o banco e faz a garota refém. O herói, então, retorna para intervir.

Kid salva a moça, mas depois finge ser um bandido. 


Nesse ponto, emerge um traço de personalidade que se refletiria profundamente em Peter Parker: ao notar que jamais poderia ter um relacionamento estável com a filha da autoridade local, ele simula agir como um bandido, fugindo com o dinheiro para depois devolvê-lo secretamente ao pai dela: “Comigo ela não teria nada além da infelicidade! A vida de um fugitivo não é vida para a mulher que se ama! Se ela pensar que não presto, poderá me esquecer!”.

Quantas vezes não vimos Peter Parker adotar postura semelhante com Gwen Stacy ou Mary Jane?

O personagem é caracterizado pela habilidade no uso da arma. 


Apesar dos méritos e de antecipar conceitos fundamentais do "herói com pés de barro", a história guarda uma inconsistência óbvia: se a garota era realmente filha do xerife, dificilmente um valentão local arriscaria abordá-la de forma tão violenta à luz do dia, correndo o risco imediato de prisão ou morte.

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