Marcos Rey ficou famoso na Coleção Vaga-Lume por seus livros
com tramas policiais. Mas em Dinheiro do Céu, ele mostrou que poderia
escrever um excelente livro infantojuvenil baseado apenas em crônicas do
cotidiano.
A história gira em torno de uma família de descendentes de
italianos do bairro do Bixiga, em São Paulo. Um dia, o primogênito da família,
Dani, é acordado pelo avô, Dom Francesco. O nonno pretende ir para a
Itália requisitar uma herança que poderia mudar o destino financeiro de todos.
A trama central é exatamente essa: a família esperando pelo
retorno do avô com uma fortuna que ninguém sabe se de fato virá. Marcos Rey, no
entanto, transforma essa premissa simples em uma verdadeira joia literária,
acrescentando camadas e mais camadas à narrativa. Para começar, a maior parte
da história se passa no mês de março de 1964 — exatamente o período do golpe
militar —, o que confere um forte contexto histórico ao livro e ao cotidiano da
família.
A narrativa, ágil e pontuada por um humor refinado, prende a
atenção do leitor do início ao fim. Quando amanhece e todos dão pela falta do
velhinho, o garoto é o único que tem notícias dele. O interrogatório familiar é
descrito de forma primorosa pelo autor:
“Os olhares iam de mim para meu pai e de meu pai para mim
como se a família assistisse a uma empolgante partida de pingue-pongue.”
Apesar de não ser um romance policial, o autor sabe como
jogar com o suspense, deixando o leitor intrigado a respeito de várias
situações: qual é a verdadeira profissão do irmão aparentemente rico? O avô
realmente voltará com a fortuna? Como será o tão aguardado baile de máscaras? O
que a bela vizinha mais velha quer com o jovem Dani?
Some-se a isso uma trupe de personagens extremamente
carismáticos, com destaque para o simpático tio boa-vida que mora no quarto dos
fundos e é o mais interessado em política — o tipo de tio que todo garoto de 16
anos gostaria de ter.

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