quinta-feira, setembro 03, 2026

Mestre do Kung Fu – Conexão Cristal

 

A capa é muito inferior ao miolo. 

Se existe uma história que representa o ponto de virada na série Mestres do Kung Fu (Master of Kung Fu), essa é a trilogia que se inicia no número 29 do título. Esta HQ não apenas marcou a maturidade artística do roteirista Doug Moench e do desenhista Paul Gulacy, mas também elevou a série a uma grandiosidade cinematográfica.

Na trama, Shang-Chi e o grupo de espiões chefiados por Sir Denis são enviados a uma ilha para impedir que o vilão Carlton Velcro inunde a Europa e os EUA com drogas. No decorrer da missão, eles descobrem o verdadeiro e ambicioso objetivo de Velcro: dominar o mundo, para o qual ele se armou com um arsenal atômico.

O desenho de Gulacy oscilava entre o fotográfico e o lisérgico. 


A fortaleza do vilão é um labirinto de perigos. Entre eles, destacam-se um fosso repleto de panteras famintas e o assassino chamado Punhos de Lâmina, cuja característica é ter lâminas afiadas no lugar dos braços. (Apesar do visual interessante, a observação sobre como Punhos de Lâmina usaria o banheiro sempre gera curiosidade!).

Paul Gulacy assumiu tanto o lápis quanto a arte-final, o que resultou em uma arte mais refinada. Seu estilo se destacou pelo uso de sombras chapadas, retículas e imagens que, apesar de "fotográficas" — Gulacy notavelmente fazia esboços assistindo a filmes de Bruce Lee —, dialogam com o lisérgico.

Como o Punho de Lâmina fazia no banheiro? 


Doug Moench, que nos primeiros números parecia ter dificuldade com o uso do texto-legenda, aqui o desenvolve como reflexões internas do personagem que se encaixam perfeitamente nas sequências desenhadas por Gulacy.

O texto de Moench melhorou muito, adaptando-se ao desenho de Gulacy. 


Um exemplo notável ocorre quando o protagonista enfrenta Punhos de Lâmina ao lado de uma estátua. O texto diz:

“Penso na estátua… que nada sente… ao me observar… na força fria do seu silêncio. Minha única defesa… a estátua não profere comentários. Palavras durante a batalha são como veneno em um copo de água. Como a estátua, permaneço em silêncio… enquanto o braço do meu oponente avança em minha direção”.

O vilão falava de forma diferenciada. 


Moench também aprimora os diálogos, diferenciando a voz de cada personagem. O vilão, Velcro, por exemplo, fala de maneira rebuscada:

“Jamais grito enquanto estou concentrado, senhor Reston… e a chegada de seu compatriota, Black Jack Tarr, creio que seja seu nome… um nome curioso, no máximo… certamente inspira uma contemplação interna”.

A vilã Pavane usava um chicote. 


Moench e Gulacy estruturam a narrativa como um grande filme de espionagem, em que cada capítulo funciona como um ato. O terceiro ato, publicado no número 31 da revista, inicia em uma splash page construída como um cartaz de cinema, destacando Shang-Chi, Reston e Black Jack, com uma cena de batalha abaixo e a vilã Pavane, com sua roupa sensual e chicote, no canto superior esquerdo.

A história, repleta de ação e unindo artes marciais e espionagem, demonstrava potencial para ser facilmente transformada em um filme de sucesso.

Splash page imita o estilo dos cartazes de filmes. 


Depois dessa trilogia, seria difícil para o Mestre do Kung Fu voltar aos tempos em que as histórias se limitavam a Shang-Chi sendo atacado por garçons em restaurantes.

Uma curiosidade é que a evolução do traço de Gulacy gerou uma contradição:  o miolo das revistas era sempre muito melhor que as capas, feitas por outros artistas.

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