segunda-feira, outubro 19, 2026

Liga da Justiça: Quando a gravidade enlouqueceu


 

A revista Justice League of America, escrita por Gardner Fox e desenhada por Mike Sekowsky, reunia o que a DC Comics tinha de melhor e de pior durante a Era de Prata. É o que vemos em Justice League of America 5.

Para começar, vale destacar a imensa criatividade de Gardner Fox, que rotineiramente construía seus roteiros a partir do suspense, propondo um mistério central a ser resolvido. É o que acontece no início desta história, quando o Arqueiro Verde é acusado de ser um traidor em um caso que envolve os principais vilões de cada herói da Liga. Aparentemente, o herói esmeralda havia provocado explosões que permitiram a fuga dos malfeitores, de modo que é montado uma espécie de tribunal marcial no qual o Batman e o Superman servem como juízes. A partir daí, cada membro relata a sua versão dos fatos — e, no desfecho, temos o depoimento do próprio Arqueiro.

O Arqueiro é acusado de traição. 


O responsável por arquitetar a união dos vilões era um sujeito chamado Monty Moran, um mestre das fugas cujas habilidades devem ter desafiado a imaginação de Gardner Fox. Ele decide escapar utilizando um pequeno balão de hélio equipado com uma gôndola minúscula criada a partir de uma caixa de fósforos, algo que é visto pelos policiais como um mero brinquedo de criança. Mas como vários homens adultos conseguiriam caber em um brinquedo daquele tamanho?

“Como prisioneiro de boa conduta, Moran tinha acesso ao laboratório da prisão, onde, usando sucata e miudezas, ele inventou um raio encolhedor”, explica o texto analítico da edição.

Os vilões fogem num balão de brinquedo. 


Essa mistura peculiar de criatividade lúdica, fantasia científica e verossimilhança levada ao seu extremo mais absurdo era o puro suco da DC dos anos 1960, residindo aí boa parte da magia da editora.

O problema real da edição estava nos clichês e nos padrões redundantes que, repetidos exaustivamente a cada mês, tornavam a publicação um tanto tediosa. Temos aqui, por exemplo, a clássica divisão da Liga da Justiça em pequenos subgrupos, como se naquela época fosse narrativamente impossível conceber o grupo inteiro contrapondo uma ameaça de forma unificada.

Os vilões criam armadilhas inventivas. uma forma de criar conflito sem cenas de violência. 


O outro grande chavão eram as armadilhas mirabolantes, provavelmente um resquício direto das diretrizes do Comics Code Authority — o órgão de censura dos quadrinhos norte-americanos — e de sua severa imposição para se evitar cenas de violência explícita. Assim, em vez de atacarem os heróis diretamente, os vilões criavam engenhos complexos de captura; e, em vez de agredirem fisicamente os vilões, os heróis gastavam páginas escapando dessas armadilhas. Vale lembrar que, nesse mesmo período, a Marvel de Stan Lee e Jack Kirby já publicava histórias revolucionárias nas quais os heróis trocavam sopapos logo no primeiro encontro.

Gardner Fox cria uma nova trama e esquece a anterior. 


Quando finalmente o mistério é revelado e descobre-se que o Arqueiro Verde queria, na verdade, salvar a Liga da Justiça, surge uma nova ameaça — e aqui deparamo-nos com outro problema estrutural da história. O novo perigo é introduzido por um vilão chamado Doutor Destino (Doctor Destiny – não confundir com o personagem da Marvel), que se disfarça de Lanterna Verde (não dá para compreender exatamente o motivo, já que a troca de identidade não faz diferença real na trama) e imobiliza o grupo de heróis com um "raio gravitron" que, simultaneamente, roubava a força de vontade das pessoas atingidas. Ao iniciar esse novo arco de perigo, Gardner Fox simplesmente esquece a trama anterior dos vilões fugitivos, deixando o enredo inicial como uma incômoda ponta solta na história.

Sem comentários: