domingo, outubro 25, 2026

Nick Holmes: A Elegância Noir e os Tropeços Narrativos de Alex Raymond

 


Em 1946, Alex Raymond retornou da Segunda Guerra Mundial repleto de ideias para conceber uma nova tira diária de quadrinhos. Ele, que já havia se tornado célebre na indústria graças ao seu traço exuberante e acadêmico em Flash Gordon, desejava criar uma série inteiramente focada em um detetive. O personagem, em perfeita consonância com a evolução do traço do autor, deveria ser caracterizado pela sofisticação. Assim nasceu Rip Kirby, clássica historieta conhecida no Brasil pelo nome de Nick Holmes. Na década de 1980, a editora L&PM reuniu as primeiras aventuras do herói em um álbum de 48 páginas.

Genialidade narrativa: a tira apresenta o personagem e o gancho da história. 


A primeira tira da série é um modelo cirúrgico de como realizar a apresentação eficaz de um protagonista no espaço extremamente reduzido de um layout diário. Testemunhamos o mordomo Desmond recolhendo as garrafas de leite e os jornais na porta do apartamento. Ao abrir o periódico, a notícia em destaque detalha a trajetória de Nick Holmes. Por meio desse recurso imagético, descobrimos que ele é um renomado desportista, intelectual, detetive amador e condecorado com a Medalha de Honra por sua atuação na Segunda Guerra. Ou seja: o herói não se resume a um mero valentão físico, nos moldes de O Agente Secreto X-9 (personagem também criado por Raymond anteriormente). Holmes é um intelectual que soluciona crimes utilizando primordialmente a lógica e a erudição.

Honey aparece logo no início da primeira história. 


No último quadro dessa mesma tira inaugural, o personagem ouve batidas frenéticas na porta e, em seguida, o estampido de um tiro. Em apenas quatro quadros, Alex Raymond entrega ao leitor a ambientação geográfica (uma grande metrópole norte-americana), o perfil do protagonista e o gancho imediato para a trama, demonstrando que àquela altura já dominava com maestria a linguagem narrativa e a síntese das tiras.

Ao abrir a porta, os personagens encontram uma belíssima mulher desfalecida. Ela trabalha como modelo e acaba de sofrer uma tentativa de assassinato, desencadeando o mistério que caberá a Nick Holmes desvendar.

Com alguns poucos traços soltos, Raymond definia a bela Honey. 


Já na quinta tira, deparamo-nos com a aparição de Honey Dorian, uma belíssima loira que acaba se destacando tanto quanto o próprio protagonista na dinâmica da série. É nítido como Raymond caprichava na construção visual da personagem. Enquanto muitas das outras mulheres bonitas que circulam pela história parecem ser desenhadas de maneira um tanto rígida — como se tivessem sido decalcadas diretamente de fotografias ou de modelos estáticas —, Honey parece genuinamente viva. Com economia de linhas e poucos traços precisos, Raymond conseguia delineá-la com impressionante fluidez.

Perigo: uma fórmula que imbeciliza as pessoas. 


A trama dessa primeira história investigativa ambientada nos bastidores de uma agência de modelos, contudo, revela-se um tanto pífia em sua resolução. No desfecho, descobre-se que o verdadeiro assassino é uma figura que sequer havia aparecido em cena anteriormente, tendo sido apenas mencionada por Holmes de passagem. A solução surge como um verdadeiro coelho tirado da cartola do roteirista. Além disso, um dos cúmplices do crime consegue escapar ileso, deixando uma incômoda ponta solta na narrativa.

A trama subsequente mostra-se consideravelmente mais interessante. Um cientista universitário desenvolve acidentalmente uma fórmula química terrível, capaz de anular as capacidades físicas e psicológicas do ser humano. O composto é secretamente roubado e passa a ser administrado criminosamente nos estudantes do campus.

Bonito e elegante, Holmes usa a ciência para solucionar crimes. 


Trata-se de um enredo mais elaborado, costurado por pistas falsas e uma solução verossímil, embora pouco inovadora. O maior problema reside no desfecho ético da história: quando o cientista decide destruir a fórmula para salvaguardar a humanidade, Nick Holmes o convence do contrário, argumentando que a substância poderia ser útil ao governo dos Estados Unidos. Durante toda a narrativa, o composto é retratado como uma invenção desumana e apavorante; todavia, na visão enviesada do protagonista, não haveria dilemas morais caso ela fosse utilizada pelo Estado norte-americano para subjugar e imbecilizar outras nações.

No fechamento desse arco, Raymond engata organicamente uma nova sequência focada na fuga de um perigoso gângster da prisão de Alcatraz, momento em que a tira realmente engrena e assume um ritmo empolgante. Uma das comparsas desse criminoso é a estonteante Pagan Lee que, em contraste com a loira Honey, é morena, embora igualmente bela.

Pagan Lee e Mangler parecem ter saído de um filme noir. 


O mafioso ambiciona obter a fórmula química para vendê-la a uma potência estrangeira rival e incumbe Pagan Lee de furtar o frasco enquanto Nick Holmes o transporta de trem em direção a Washington. Pagan destaca-se imediatamente pelo uso estratégico da sedução e da inteligência, injetando uma nova e necessária dinâmica de tensão na tira. Por outro lado, o líder mafioso, o deformado Mangler, revela-se um antagonista à altura do herói, sobressaindo-se por sua frieza e crueldade cirúrgicas. Tanto Mangler quanto Pagan Lee parecem saídos diretamente das melhores películas do cinema noir da década de 1940.

Raymond abusa das conveniências narrativas. 


Apesar do traço sofisticado de Alex Raymond e do excelente desenvolvimento de personagens coadjuvantes como Pagan Lee, o álbum como um todo sofre com o uso excessivo de recursos do tipo deus ex machina. O roteiro apoia-se demasiadamente em acasos convenientes: como no trecho em que um garoto, por pura coincidência, descobre o esconderijo exato onde Nick é mantido em cativeiro, ou quando o próprio detetive sai para dar um passeio casual e, por mero acaso, encontra no chão a arma do crime que toda a força policial da cidade procurava exaustivamente há dias.

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