segunda-feira, agosto 03, 2026

Mestre do Kung Fu contra o Garra-de-Tigre

 


Em junho de 1975, a revista Giant-size Master of Kung Fu chegava ao seu número 4. Doug Moench, que havia começado de forma hesitante no título, já estava confortável o suficiente para injetar humor em uma história de artes marciais.

Isso foi feito por meio de um taxista rendido e forçado a transportar assaltantes de banco. O que chama a atenção é que o motorista tinha a aparência de ninguém menos que o humorista Groucho Marx, completo com o famoso bigode e o charuto! Logo em sua primeira aparição, o personagem solta uma piada: “Na corrida anual de eletrodomésticos, o liquidificador sai na frente, mas diminui o ritmo e o ferro passa”.

O persongem baseado no humorista aparece já na segunda página. 


Para inserir o protagonista na trama, o roteirista faz Shang-Chi intervir, tentando impedir o roubo. Os bandidos, porém, fogem e são perseguidos pelos esgotos de Nova York. Confesso que acabei me acostumando com a ideia de um homem andar de quimono pelas ruas da cidade, mas, nessa sequência específica, um aspecto da caracterização visual do personagem me saltou aos olhos: ele sempre anda descalço. Isso, por si só, já deveria ser um problema eterno, enfrentando frio ou calor. No entanto, entrar no esgoto descalço parece realmente um exagero.

Quando finalmente capturam os bandidos, Shang-Chi e o taxista descobrem que eles trabalham para um tal de Garra-de-Tigre. Isso desencadeia um flashback na história, pois o vilão está ligado à infância do Mestre do Kung Fu. Com apenas dez anos, Shang-Chi testemunhou Garra-de-Tigre vencendo e matando três si-fans de Fu Manchu com suas garras banhadas em veneno.

A história inclui uma sequência de humor com uma velhinha sendo atropelada. 


A superioridade dele em relação a esses oponentes é tão gritante no flashback que torna pouco verossímil a sequência final, na qual ele é derrotado com relativa facilidade.

A arte dessa história foi de Keith Pollard. Embora estivesse distante da maestria revolucionária de Paul Gulacy, ele conseguiu captar o aspecto humorístico da trama, incluindo uma sequência que dificilmente passaria nos dias atuais: o atropelamento de uma velhinha.

Andando descalço no esgoto? 


Os leitores mais atentos se lembrarão de outra série que usava um personagem semelhante a Groucho Marx, fazendo piadas o tempo todo: Dylan Dog. A semelhança é tão notável que levanta a suspeita de que Sclavi, o criador de Dylan, possa ter lido essa HQ do Mestre do Kung Fu.

Super-homem – Quem quer matar Clark Kent?

 


Na Era de prata, a perseguição contra os quadrinhos fez com que a DC comics evitasse histórias que mostrassem violência. Imaginem escrever uma história de super-heróis evitando brigas. Mas no caso do Super-homem a situação era ainda mais complicada, pois ele é um personagem extremamente poderoso, quase invencível.

A solução dos roteiristas era criar histórias com tramas muitas vezes bizarras, que beiravam o lisérgico, a exemplo da HQ “Quem quer matar Clark Kent” publicada em Action Comics 409.

Na história, escrita por Cary Bates e desenhada por Curt Swan e Murphy Anderson, o repórter Clark Kent sofre diversos atentados. No primeiro deles, o elevador no qual está é lançado no ar a uma velocidade incrível graças a foguetes. Em outra oportunidade um carro sem motorista quase o atropela.

Quem poderia estar por trás do atentado?

Clark Kent sofre uma série de atentados... 


A capa da edição já trazia esse mistério. Clark Kent, com as roupas esfarrapadas, agarra-se ao super-homem, que lhe diz: “Fique calmo, Clark Kent. Eu vou proteger você!”, ao que o repórter retruca: “Você não entende? Meu assassino é a única pessoa que você não pode parar!”.

Para ajudar a desvendar esse mistério, o Super-homem recebe a ajuda de... um detetive de outro planeta! Não, não é uma viagem de LSD, o roteirista pensou nisso mesmo. Um personagem chamado Shalox, vestido com uma versão futurista da roupa de Sherlock Holmes (ou pelo menos o que o pessoal da época achava que seria uma roupa futurista) aparece do nada e diz que vem de um planeta em que todos são detetives e como uma espécie de trabalho de conclusão de curso, ele recebera a incumbência de ajudar o homem de aço. Detalhe: no planeta dos detetives espaciais todos têm no mínimo três personalidades.

Para ajudar a desvendar esse mistério, o herói recebe a ajuda de um detetive espacial. 


No final eles descobrem que o assassino é... o Super-homem! Explica-se: como passara diversas noites sem dormir, o herói desenvolvera uma terceira persona, que por alguma razão resolvera se livrar de Clark Kent.

Difícil pensar numa história mais louca que essa para o herói.

No Brasil essa história foi publicada várias vezes pela Ebal e pela Abril em Super-homem 10.

domingo, agosto 02, 2026

O foco narrativo em O uivo da górgona

 

 

 As pessoas normalmente não têm essa noção, mas existe uma tecnologia narrativa, que foi se desenvolvendo ao longo do tempo: técnicas e estratégias que começaram a ser usadas por escritores, funcionaram e depois se tornaram comuns. Ou que não funcionaram e foram abandonadas.


O foco narrativo é um exemplo.

Nas primeiras narrativas, a história era contada em terceira pessoa, do ponto de vista de um narrador onisciente, que sabia tudo, conhecia todos os fatos.

Em algum momento, alguém percebeu que era possível conquistar mais envolvimento do leitor com o personagem ao colocar a narrativa em primeira pessoa. Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e Manuscrito encontrado em uma garrafa, de Edgar Alan Poe são exemplos disso.

George Martin, na série conhecida como Guerra dos Tronos (na verdade, Crônicas de gelo e fogo) inventou uma outra maneira de narrar os acontecimentos: acompanhar um personagem a cada capítulo, em uma narrativa em terceira pessoa, mas que sabe apenas o que o personagem sabe. É como se fosse uma câmera que o acompanhasse por todo o capítulo e visse apenas o que ele vê, como se cada capítulo tivesse um protagonista.

Essa estratégia é interessante por vários fatores. O primeiro deles, claro, por permitir que o leitor conheça e se identifique com vários personagens e não só com o protagonista. A segunda: ajuda no suspense. Como não há um narrador onisciente, o personagem de cada capítulo não sabe o que está acontecendo fora de seu campo de ação e da mesma forma o leitor.

Eu já tinha experimentado algo semelhante no meu primeiro romance Galeão: embora a narrativa do navio fosse em terceira pessoa, com um narrador onisciente, nos flashbacks eu focava em um personagem.

Em O uivo da górgona, eu ampliei o recurso, mundando constantemente o foco narrativo de um personagem para outro a cada capítulo. Há, por exemplo, um capítulo focado na galinha Pimpinela, e um capítulo focado em uma zumbi.

O objetivo, claro, era tanto construir uma maior aproximação do leitor com os personagens quanto permear a narrativa de suspense.

O que é fascismo e outros ensaios

 


 George Orwell é mais conhecido por seus livros de ficção, em especial A revolução dos bichos e 1984. Entretanto, ele era um grande ensaísta. Seus textos límpidos, com argumentação clara e rigorosa influenciaram muita gente, inclusive o maior articulista brasileiro, Paulo Francis. Durante muito tempo esses textos permaneceram inéditos no Brasil, mas agora estão sendo publicados pela Companhia das Letras. Entres eles se destaca O que é fascismo e outros ensaios, de grande relevância nos tempos atuais.

Um dos destaques do volume é o prefácio de Sérgio Augusto, organizador do volume. É leitura obrigatória para os que conhecem pouco de Orwell.
Muita gente que leu apenas seus livros mais famosos acha que Orwell era um aristocrata inglês que escrevia seus livros enquanto um mordomo lhe servia chá e, nos intervalos, conversava com empresários estratégias sobre como manter as engrenagens do capitalismo funcionando.
Nada mais falso. Orwell escreveu a maior parte de seus textos em um jornal socialista, o Tribune e foi inclusive mendigo (experiência que ele relata no livro Na pior em Paris e Londres). Seu objetivo era fazer do texto político uma arte. Era um pertinaz defensor das causas perdidas, como a defesa da liberdade de expressão, definida por ele como “O direito de dizer às pessoas aquio que elas não queriam ouvir” e, por tabela, contra o totalitarismo de qualquer matriz. Assim, em seu livro restam críticas severas tanto à esquerda quanto à direita.
Se tivesse vivido um pouco mais, Orwell teria visto os direitos do seu livro A revolução dos bichos ser comprado secretamente por um agente da CIA. Transformaram a poderosa alegoria política de Orwell em uma peça de propaganda anticomunista e chegaram ao ponto de introduzir-lhe um happy end. O desenho animado rodou o mundo com recursos patrocinados pelo Departamento de Estado americano. Enquanto isso, Orwell deveria estar se revirando na cova.
O artigo que dá título ao volume é um dos mais interessantes do livro. Orwell não explica o que é fascismo: ao contrário, mostra como essa palavra foi perdendo significado ao ser usada como ofensa a ponto de tudo e todos poderem ser classificados de fascistas (ele mesmo já foi chamado de fascista). Algo, aliás, que ocorre ainda nos dias atuais. Da mesma forma, outras palavras de uso político, como comunista ou esquerdista perderam seus significados ao serem usados como palavrões. Quando se vê alguém chamando o Estadão de esquerdista, percebe-se que a palavra perdeu completamente qualquer significação.
Uma das maiores críticas de Orwell é ao chamado “realismo político”, um ponto de vista utilitário. Assim, por exemplo, a direita liberal inglesa fechou completamente os olhos para a ascensão de Hitler e para a guerra iminente em decorrência da incapacidade da classe endinheirada inglesa de acreditar que havia qualquer “coisa de errado em campos de concentração, guetos, massacres (...)”. Por outro lado, a esquerda, em nome desse realismo, fez alianças as mais duvidosas possíveis. Um capítulo que exemplifica bem esse ponto de vista é a resenha de um livro sobre Mussolini. Ele é capturado pelos aliados e levado a julgamento. Mas pede testemunhas e segue-se toda a classe de elogios de políticos ingleses a ele antes do início a guerra.
Embora esteja falando da Europa, Orwell parece estar escrevendo sobre o Brasil quando declara: “Se há uma saída para a pocilga moral em que estamos vivendo, o primeiro passo nessa direção é provavelmente perceber que o realismo não compensa”.
De todo o volume o texto mais interessante e reflexivo é “Socialistas podem ser felizes?”. Nele, Orwell reflete sobre a questão das utopias. Uma das suas análises diz respeito ao livro As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, que ele admirava muito e serviu de base para A revolução dos bichos (ambos são alegorias políticas). Orwell argumenta que os primeiros capítulos são primorosos: “Cada uma de suas palavras é relevante hoje em dia; há trechos que contém profecias bem detalhadas dos horrores políticos de nosso tempo”. Swift, no entanto, fracassa ao tentar descrever uma raça de seres que ele realmente admira.

Dessa forma, tanto o céu quanto a utopia são fiascos, locais impossíveis de se descrever sem parecer enfadonho, chato – ao contrário do inferno, que sempre mereceu vívidas descrições de grande sucesso. A felicidade, argumenta Orwell, só funciona em contraste com a infelicidade. Quando ela se torna eterna, deixa de funcionar. Qualquer um que já tenha assistido um episódio da série clássica Jornada nas Estrelas sabe que essa discussão permeia boa parte dos episódios – o que mostra o quanto a discussão de Orwell ainda era atual na década de 1960 e continua atual hoje. Não por acaso, o autor ficou famoso não por uma utopia, mas por uma distopia, 1984.

Quarteto Fantástico – No micromundo do Dr. Destino

 


Em pouco tempo, o Quarteto Fantástico se tornou um sucesso absoluto junto ao público. Stan aproveitava isso para promover novos heróis da Marvel colocando-os em participações especiais no título. Esse foi o caso do Homem-Formiga no número 16.

Na história, o Doutor Destino, que todos acreditavam estar morto, na verdade, tinha se tornado o soberano do micromundo ao usurpar o poder do verdadeiro rei.

Todos os heróis tinham passado por uma situação de miniaturização. 


Fazendo um parêntese, o Dr. Destino deve ser o personagem de quadrinhos que mais vezes “morreu” e “renasceu”, o que mostra como Lee e Kirby ainda estavam testando e tentando entender como funcionavam as histórias. Fica óbvio que ele era para ser um vilão de uma história só, mas logo conquistou os leitores, o que fez com que ele retornasse diversas vezes.

Voltando à trama, o Tocha chega ao edifício Baxter e encontra os outros heróis miniaturizados e sendo puxados pelo duto de ar. Após serem salvos, eles voltam ao tamanho normal.

Isso é um trabalho para... o Homem-Formiga! 


Passado o perigo, eles começam a conversar e descobrem que cada um deles passou por uma situação em que ficou muito pequeno do nada, como quando a Mulher Invisível estava sendo entrevistada em um programa de televisão.

Para decifar esse enigma eles resolvem chamar o Homem-Formiga, e aí você percebe que toda a trama tinha sido bolada exatamente para introduzir esse novo herói no título.

Os heróis seriam transformados em escravos... se não fosse a intervenção do... Homem-Formiga! 


Ao tomar o líquido fornecido pelo amigo, eles reduzem de tamanho até chegar ao micromundo do Dr. Destino, onde são presos e serão vendidos a répteis alienígenas para serem usados como escravos (sabe-se lá como o vilão conhecera esses ETs_. A situação é demonstrada com uma imagem de Sue descabelada, servindo uma espécie de sopa para os ETs.

Claro que no final, tudo se resolve da maneira mais fácil possível e o Destino é derrotado... só para voltar no número seguinte.

Demolidor - Caçadores

 

 

Uma das inovações de Miller no Demolidor foi introduzir humor nos comics de super-heróis, influência direta de Will Eisner. E a especialidade de Miller era o humor de repetição, em que a graça surje da repetição de ações.

Exemplo disso é a história publicada em Daredevil 176. Na trama, o protagonista perdeu seu radar após a explosão de uma bomba e precisa achar Stcick, seu mestre, para que ele o ajude. Essa é, aliás, a primeria referência o mentor do Demolidor. Até então, ninguém havia se preocupado em explicar como o personagem adquira tantas habilidades de luta e como aprendera a usar seus sentidos. Miller, de acordo com a tradição japonesa, tratou de arrumar um mestre para ele.

Miller, acertadamente, arranjou um mestre para o Demolidor. 


Mas Murdock não é o único em busca de seu mentor. Também a namorada do mesmo, Tucão e Elektra o estão procurando.

A única pista é um tal de Zoiúdo, que andou reclamando ter perdido dinheiro para Stick na sinuca.

No humor de repetição, as mesmas situações se repetem... 


A primeira a chegar é Elektra, que entra quebrando a janela. Apesar de tentar dar uma durão, o tal do Zoiúdo (que de fato Miller desenha como alguém vesgo e com olhos grandes) entrega logo toda a informação: “Sinuca do Duca. Nova avenida, sul da Houston. Porão”. Logo depois aparece o Tucão, agora equipado com um exoesqueleto, de forma que aparece destruindo tudo. “Tucão, cê atravessô minha parede... e estraçalhô minha cama, seu escroto do cara...”, reclama o outro. Mal ele se recupera disso, o Demolidor aparecendo quebrando a outra janela.

A situação é tão inusitada que o tal do zoiúdo resolve mudar de cidade. Está de saída, ainda de ceroulas, quando dá de cara com a namorada de Murdock segurando uma arma.

... de maneira diferente. 


O efeito é simplemente hilário e dá todo um charme para uma história que teoricamente não teria grandes atrativos, já que há pouca ação – o único momento mais quente de fato é quando Elektra enfrenta, de novo, o ninja Kirigi.

Fundo do baú - Super Galo

 

Super Galo (Super Chicken) é um desenho animado criado por Jay Ward e Bill Scott e produzido no ano de 1967. A atração se caracterizava pelo humor bizarro, a começar pelo conceito: um milionário chamado Rico Dondoco III combate o crime ao vestir uma roupa no estilo zorro e tomar um suco, que lhe confere poderes especiais. O suco é preparado pelo seu parceiro Fred, um leão vegetariano vestido com um pulôver com um “F” ao contrário.

Uma gag recorrente era o momento em que o personagem bebia o suco. Ele normalmente fazia algum comentário sobre o preparo (dessa vez você exagerou na mostarda, você colocou muito limão etc), mas era interrompido quando começava a transformação. Essa transformação era descrita pelo narrador: “O super suco funciona e rapidamente transforma o débil milionário num monte de músculos”, o que contrariava totalmente a imagem, já que o personagem continuava exatamente igual ao que era antes. Essa cena aliás, era usada para quebrar a quarta parede, por exemplo quando o Super Galo começa a soluçar no meio da transformação, atrapalhando o narrador, que reclama: “Já acabou?”; “Eu acho que sim”, diz o herói, depois de três soluços.

Os vilões eram uma atração à parte: dr. Gozado, o Ostra, Robotudo, Merlin Brando (um trocadilho com Marlon Brando), entre outros.

Um exemplo do humor surreal do desenho: Em um episódio um vilão prende o Super Galo e Fred num foguete e os manda ao espaço. A cena seguinte os dois aparecem no seu castelo. Espantado ele pergunta: “Como você chegaram aqui?”. “Entramos pela janela”, responde o Super Galo.

Além do humor inteligente, Super Galo tinha uma das melhores aberturas de todos os tempos, repleta de humor bizarro e intercalada pelo cacarejar estridente do personagem, que também aparecia no final, no qual o personagem pilotava seu veículo no formato de ovo, o Galomóvel enquanto o narrador dizia: “Então, quando ouvirem aquele berro nos céus, saberão que é o Super Galo”. Havia variações, que deixavam o final ainda mais engraçado: “Então, quando ouvirem aquele berro nos céus, saberão que o Super Galo ainda não descobriu um jeito de aterrissar”.

Mocumentário: testando as fronteiras entre a realidade e a ficção

 


Um gênero cinematográfico que sempre suscitou discussões sobre a questão da realidade-ficção foi o documentário. Em uma abordagem mais clássica, o documentário é visto como o oposto da ficção, reproduzindo a bipolaridade ficção-realidade.
            Mas um novo gênero surge exatamente para contestar essa diferenciação: o mocumentary (ou, aportuguesando, mocumentário). 
            Provavelmente o primeiro exemplo célebre de mocumentário tenha sido Zelig, de Woody Alenn, de 1983. O pseudo-documentário é ambientado na década de 1920 e fala sobre Leonard Zelig, um um homem que tem a capacidade de mudar sua aparência para se adequar ao meio. Se ele está no meio de mafiosos, começa a se parecer com mafiosos, se está no meio de médicos, parece um médico. É um verdadeiro camaleão humano.

Uma das estratégias usadas para diluir o limite entre realidade e ficção é o uso de pessoas reais, como a escritora Susan Sontag, o psicólogo Bruno Bettelheim, que, com seus depoimentos, reforçam a verossimilhança da narrativa. O filme ainda usa outros recursos de documentários, como imagens de cinejornais, fotos da época e até mesmo áudios das consultas do protagonista com sua psicóloga (devidamente acrescidos de ruídos que os tornam mais realistas).
O mocumentário, portanto, testa os limites entre o ficcional e o real, entre o documentário e a ficção, levando o espectador a indagar-se até que ponto essa separação é válida.
Atualmente há vários exemplos famosos de mocumentários. Entre eles destaca-se o filme Borat, e o seriado Modern Family.
Borat, filme dirigido por Sasha Baron Cohen, de 2006, satiriza o modo de vida americano ao apresentar “O segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América”, como diz seu subtítulo, que vai aos Estados Unidos aprender sobre o modo de vida daquele país.
Como elemento reforçador dessa sátira, o ator permanece no personagem mesmo quando dá entrevistas de divulgação do filme.

Modern Family é um seriado criado por Christopher Lloyd e Steven Levitan. A série mostraria as gravações de um cineasta europeu que no passado havia feito um intercâmbio na casa dos Pritchett e decidiu retornar aos Estados Unidos para fazer um documentário sobre “sua família americana”. Após a recusa de outras produtoras, a ABC resolveu produzir a série, mas com a condição de que a trama do diretor fosse retirada da história, ficando apenas as ações das três famílias e seus depoimentos para a câmera, que comentam e costuram os acontecimentos.
O enorme sucesso de público e de crítica (o seriado já está na sétima temporada e já recebeu 15 prêmios Emmy) despertou atenção para o gênero mocumentário, mostrando sua importância atual.

Embora não utilize totalmente a linguagem dos documentários, os depoimentos para a câmera e a abordagem sobre temas recentes (como a liberação do casamento gay) criam um clima de verossimilhança próprio dos documentários ou reality shows. Seu sucesso é indício da familiaridade da audiência com obras que testam os limites entre o ficcional e o real.  

Cursed – a lenda do lago

 


Cursed é a nova série da Netflix explorando os mitos arturianos. A série é baseada no livro de Tom Wheeler com ilustrações de Frank Miller. Os dois, aliás, são produtores da versão televisiva.
A história tem como protagonista Nimue, a dama do lago, que nas narrativas medievais, entrega a espada para Arthur.
Mas Tom Wheeler faz uma tremenda salada, aproveitando apenas os nomes de personagens como Morgana, Lancelot, Arthur, Percival e mudando todo o resto. E acrescenta uma raça de seres mitológicos, os feéricos da qual a dama do lago faria parte.
Na história, os feéricos estariam sendo massacrados por um grupo de fanáticos religiosos, os paladinos vermelhos, e os poderes de Minue em conjunto com a espada mágica seriam a única chance de sobrevivência da espécie.
Will Eisner dizia que nos quadrinhos quando a história era realista, a diagramação poderia ser mais ousada e inovadora. Já em histórias de fantasia, a diagramação deveria ser mais conservadora, pois isso ajudaria o leitor a aceitar aqueles fatos estranhos como reais. O mesmo pode ser dito sobre séries de TV. E Cursed peca exatamente nisso: é uma trama mirabolante, fantasiosa, contada de uma forma que não ajuda a verossimilhança. Pense em todos os exageros de Frank Miller e ele estarão presentes em Cursed. À certa altura, por exemplo, uma das freiras decide se tornar uma paladina vermelha. Na cena seguinte ela aparece indo embora enquanto o convento queima ao fundo.
Até mesmo as transições entre uma cena e outra pecam nesse sentido, ao mostrarem a continuação da cena ou a cena seguinte em desenhos (provavelmente uma referência às ilustrações de Miller), o que prejudica ainda mais a verossimilhança.
Falta também profundidade aos personagens, tanto que muitas vezes suas mortes praticamente não são sentidas pelos expectadores. No último episódio, por exemplo, um dos chefes feéricos morre e a direção dá um destaque dramático enorme para sua morte, mas mal sabemos quem é ele.
Ilustração de Frank Miller para o livro.

A série conta com o ótimo Gustaf Skarsgård, de Vikings, fazendo o papel de Merlin, mas aqui ele parece apenas exagerado.
Outro problema da série são os efeitos, fracos para uma produção desse tipo, que pretende rivalizar com GOT. Em certos momentos parece que estamos vendo um episódio de Xena, com a difereça de que Xena não se levava a sério, o que garantia a diversão, ao contrário de Cursed, que, segundo a sinopse, “é uma história sobre amadurecimento, com temas conhecidos de nosso tempo: destruição da natureza, terror religioso, guerras sem sentido e a coragem de assumir a liderança quando tudo parece impossível”.
Entretanto, os episódios vão melhorando aos poucos com o tempo, talvez pelo fato do expectador começar a se acostumar com os personagens. O episódio final também tem, finalmente, uma cena de batalha bem produzida, o que indica que talvez a segunda temporada seja melhor.
Em todo caso, Cursed pode ser divertido se você a considerar apenas como uma série pipoca.

sábado, agosto 01, 2026

Batman – Reinado de terror

 


A série Elseworlds (conhecida no Brasil como Túnel do tempo) colocava os personagens da DC Comics em eras passadas ou futuras. Uma das mais interessantes dessa série sem dúvida é Batman – reinado do terror, de Mike W. Bar e José Luís Garcia-Lopez.

A história coloca o cavaleiro das trevas no centro dos acontecimentos da Revolução Francesa. Na história, o Capitão Wayne é um herói da guerra (assim que estourou a revolução francesa, vários países monarquistas empreenderam uma guerra contra a França), mas quando volta para Paris, descobre que os pais de sua esposa estão condenados à guilhotina. 

Ao voltar da guerra, Wayne descobre que seus sogros estão condenados à morte... 


Percebendo que não consegue usar seu prestígio para salvar os sogros, ele resolve disfarçar-se de morcego e usar equipamentos, como uma asa delta, para tirá-los do patíbulo e enviá-los para a Inglaterra num barco. Depois desse salvamento bem-sucedido, ele começa a salvar diversos outros nobres, enquanto sua contraparte parece ter o único interesse em diversões frívolas.

A história é interessante por pagar um tributo ao Pimpinela Escarlate, um herói da literatura cuja atuação consistia em salvar nobres franceses e que foi uma das influências na criação do cavaleiro das trevas.

... e se transforma em Batman para salvá-los. 


Há um sacada interessante ao mostrar o duas caras como um jacobino que teve parte do seu rosto destruído durante uma batalha e que toma a tarefa de matar o máximo possível de nobres: “Você não entende? Minha vida é a revolução!”.

Uma incoerência é mostrar Wayne como um almofadinha frívolo e, ao mesmo tempo, com um jacobino disfarçado. A Revolução Francesa foi justamente o ponto de virada em que passou a se valorizar comportamentos másculos em oposição ao comportamento da nobreza (saíram as roupas cheias de frufrus e a maquiagem e entrou a roupa sóbria e funcional). O comportamento de Wayne o colocaria imediatamente como suspeito de traição.



Mas, apesar de alguns pequenos deslizes, essa é uma história memorável, que se destaca principalmente pelo desenho de Garcia-Lopez. O maior problema dessa história é que ela parece terminar muito abruptamente. A trama dava tranquilamente uma série ao invés de um volume único.

Sombra da Lua - Uma adaptação teatral de Moonshadow

 


O roteirista Alan Noronha andava tanto comigo que muitas pessoas juravam que nós éramos irmãos. Contribuía para isso o fato de ambos sermos altos (exatamente a mesma altura, 1,83) e magros. Alan de fato era o irmão eu que nunca tive, uma pessoa incrivelmente criativa e antenada. Ambos participávamos não só do Ponto de Fuga, mas também de um grupo de teatro que havíamos criado, Os argonautas. Os dois grupos eram tão interligados que era comum o pessoal sair da reunião do Ponto de Fuga, no sábado à tarde, na Fundação Curro Velho, e ir direto para os ensaios do grupo de Teatro, na Cidade Nova, em Ananindeua.
Eu e Alan passávamos longe de sermos bons atores, mas compensávamos com a criatividade. Em uma visita ao sítio dos Hare Krishna, por exemplo, para agradecer a hospitalidade e a ótima comida, bolamos uma peça na qual um casal matava o coelho de uma menina e fazia um ensopado – depois ainda tentavam convencê-la a comer. O tema, claro, era o vegetarianismo.
Uma peça que apresentamos em diversos locais foi o Mestre das Máscaras. A característica do personagem era “tirar as máscaras” dos personagens, revelando suas verdadeiras personalidades. Um machão violento, por exemplo, se revelava alguém inseguro. Essa peça foi apresentada no dia 1º de maio de 1992, em um protesto de um grupo anarquista.
A principal peça do grupo era nada menos que uma adaptação não autorizada de Moonshadow, a série de J.M. de Matteis. Para evitar problemas, renomeamos como Canção de Inocência. A peça foi encenada no Teatro Waldemar Henrique, na Praça da República, em Belém. Alan fazia o personagem principal, o Sombra da Lua. Eu fazia o narrador e qualquer outro personagem menor que aparecesse por alguns minutos no palco.


(Trecho do meu livro A árvore das ideias - clique aqui para baixar gratuitamente).

Conan – A sombra do mausoléu

 


Nos muitos anos nos quais trabalhou em Conan, Roy Thomas não só o transformou em um dos personagens mais populares da Marvel e dos quadrinhos, mas também ampliou sua mitologia, indo muito além daquilo que Robert E. Howard havia escrito.

A história A sombra no Mausoléu, publicada em Conan the barbarian 31 se encaixa nessa categoria.

Na época em que se passa essa história, Conan era mercenário a serviço da tropa turaniana. A história começa com os homens da colina atacando o tropa.

John Buscema sabia dar movimento a uma cena de impacto. 


A imagem grandiosa, cortesia de John Buscema e Ernie Chan, mostra os selvagens pulando sobre os soldados. O texto, primoroso, dizia: “O sol estava em seu ponto mais alto quando os homens das colinas atacaram! Havia machados em suas mãos... velhos ressentimentos no peito... e gritos de guerra em seus lábios contorcidos”.

Para escapar ao ataque, os soldados se refugiam em uma caverna, mas a solução é provisória: em algum momento eles terão que sair e se defrontar com o numeroso grupo. Mas o chefe dos selvagens faz uma proposta: se um dos soldados aceitar enfrentar o campeão deles (um homem monstruosamente enorme) e vencê-lo, o grupo poderá partir em segurança.

Como vencer um gigante? Talvez com uma espada mágica. 


O capitão da guarda reflete: “Para vencer aquele gigante, eu precisaria de uma espada encantada, mas como conseguir algo assim?”.

A frase traz para Conan lembranças de sua juventude (e aqui uma sacada genial de Thomas, que pede a Buscema que mostre o cimério da mesma forma como ele retratado por Barry Smith, estabelecendo, assim, que a fase do desenhista inglês mostrava a juventude do bárbaro).

No flash back, Buscema mostra Conan com o mesmo visual de Barry Smith. 


No flash back, Conan enfrenta um urso branco e cai numa câmera, onde encontra uma espada enfeitiçada, que transforma sua sombra em inimigo.

Um dos charmes dessa HQ, além de mostrar um detalhe desconhecido da vida do cimério, é o final, com uma muito bem bolada ironia do destino.

Essa história foi publicada pela editora Abril em heróis da TV 51.