sábado, abril 08, 2017

O uivo da górgona - parte 33


33
Pararam na frente da mercearia. Edgar ficou do lado de fora, com o motor ligado, pronto a sair caso acontecesse alguma coisa. Olhou para o medidor e viu que precisaria de mais gasolina. Mas não tinha coragem de sair e tentar achar outro posto. Além disso, já se aproximava a hora do almoço e ele se lembrou de que não tomara café da manhã.
Jonas e Zulmira haviam sumido dentro do mercadinho, mas logo voltaram com diversas sacolas.
- Abre o porta-malas! – pediu a mulher, enquanto Jonas fechava a grade da frente.
- Esqueça o porta-malas. Quanto mais tempo ficarmos na rua, maior o perigo. – sugeriu Jonas. 
A mulher bufou, mas entrou pela porta traseira.
- Pegue algumas sacolas! – disse para Alan, jogando alguns pacotes no colo do rapaz.
- Ela insistiu em trazer verduras. – informou Jonas, quando entrou no carro.
- Vou fazer um prato com batatas temperado com curry. – explicou a mulher.
- Preferia comer a galinha. – respondeu Alan, sob o olhar acusatório da senhora.
- Sabe, pensando bem, não me lembro de ter visto nenhum cachorro nas ruas...
- As coisas comeram a maioria. Eu vi. – disse Zulmira. Depois que a música fritou o cérebro deles, só conseguem comer carne quente. A maioria dos cachorros que não fugiu já deve ter sido devorado. Acho que até os gatos estão sendo exterminados...

Já na casa, Edgar surpreendeu-se ao descobrir que ainda havia água.
- Não faz sentido. A energia acabou. Não deveria também ter água na torneira.
- Talvez seja a água que sobrou nos reservatórios. – sugeriu Jonas.
- Hm hm. – fez Edgar. Em todo caso, se alguém quiser tomar banho, melhor economizar.
Estavam na cozinha. Zulmira pegara um porta-retratos sobre um armário e o examinara. Mostrava o professor ao lado de uma mulher e uma menina.
- São sua esposa e sua filha?
Edgar andou até ela, pegou o porta-retratos de sua mão e o colocou, virado para baixo, sobre a geladeira.
- A gente não pode nem mesmo fazer uma pergunta! – resmungou a mulher, abrindo a sacola com as batatas.
Alan, Jonas e Edgar foram tomar banho. A casa tinha dois banheiros: um social e um na suíte.
Enquanto isso, a pequena Sofia passou brincando com a galinha, que corria para cima e para baixo, cacarejando.
Quando voltou para a cozinha, Edgar sentiu um cheiro forte e confortador.
- Gostoso, não? É o curry. Vou fazer também arroz e pasteis de queijo.
Em pouco tempo estavam todos na cozinha, ao redor da mesa. Comeram em silêncio, enquanto Zulmira tratava da galinha, colocando milho e sementes em uma vasilha de plástico e água em outra.

Quando terminaram, foram para a sala. A menina se deitou sobre o colo de Edgar, no sofá e dormiu. Seu sono era pontuado por tremores e calafrios. 

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