Imagine receber de herança uma mala cheia de dinheiro falso. Esse é o mote de A Arca dos Marechais, romance de Marcos Rey publicado em 1983.
Para maior contraste, Rey imagina o herdeiro como um homem
absolutamente normal e insuspeito, alguém que nunca havia recebido sequer uma
multa de trânsito. Assim, o humilde trabalhador do aquário público recebe do
tio alemão uma gráfica capaz de fazer dinheiro tão perfeito que ninguém
consegue identificar como falso. Com essa máquina, foi produzida uma mala
repleta do dinheiro mais valorizado à época: a nota de 5.000 cruzeiros, em
homenagem ao Marechal Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar.
Marcos Rey já conquista o leitor no primeiro capítulo, em
que o protagonista resolve gastar o seu primeiro "marechal" em um
restaurante do Brás, em São Paulo. O personagem cria toda uma alegoria para
passar a nota sem levantar suspeitas, mas, depois de várias situações tensas,
acaba pagando a conta com uma nota verdadeira. Ironia das ironias: quem troca
para ele o primeiro marechal falso é uma florista de rua.
O autor usa a trama para criar uma mistura de humor,
suspense, policial, estudo psicológico e crônica urbana, em um texto delicioso
permeado por frases críticas e cínicas, como: “Dinheiro novo é tão suspeito como a
virtude de uma virgem velha” ou “O que me causava estranheza, isso sim,
era que aqueles fregueses pagassem com dinheiro verdadeiro uísque e emoções
falsificadas”.
Emerich, o herói da história, desenvolve uma jornada que vai
das estratégias para trocar dinheiro sem levantar suspeitas até a emoção de
gastar e a paixão por uma prostituta. Ironicamente, no final, com medo de ser
pego, ele acaba se recolhendo a uma vida que era muito próxima da que ele vivia
no início.
Finalmente, ele acaba sendo pego — e o livro se torna uma
trama policialialesca. Quem o teria delatado? No final, como nos melhores
romances policiais ele cometera um erro pueril que passa despercebido pelo
leitor, mas que será sua perdição.

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