quarta-feira, outubro 21, 2026

A Briga dos Dois Ivans


Até a publicação de A Briga dos Dois Ivans (1834), de Nikolai Gógol, o humor com forte teor de sátira social ainda dava seus primeiros passos na consolidação da grande literatura russa. O estilo do autor era tão inovador e cômico que a produção de suas primeiras obras gerou uma cena antológica nos bastidores editoriais, na qual os próprios impressores da gráfica interrompiam o trabalho técnico para ler as páginas das provas e caíam na gargalhada.

A história gira em torno de dois vizinhos, Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch, cujas personalidades e aspectos físicos são absolutamente opostos. Um é magro, o outro é gordo; um é falastrão, o outro é calado; um adora passear, enquanto o outro dificilmente sai de casa. Apesar de todas as discrepâncias, eles são considerados os melhores amigos da cidade de Mirgorod, até que um evento aparentemente banal os transforma em inimigos mortais. Certo dia, a criada de Ivan Nikiforovitch coloca as roupas da casa para tomar sol no quintal e, entre as peças, pendura uma velha espingarda que imediatamente desperta a cobiça do vizinho.

Ivan Ivanovitch tenta negociar o artefato oferecendo uma porca em troca; depois, propõe dois sacos de aveia; em seguida, tenta barganhar oferecendo a porca e os dois sacos de aveia juntos. Contudo, o amigo mantém-se irredutível na recusa e, no ápice da discussão, chama o vizinho de "ganso". Essa única palavra é o estopim que deflagra toda a inimizade vitalícia entre eles, e Gógol explora com maestria a pequenez do motivo como o motor principal do humor absurdo da narrativa.

Gógol é considerado o pai da literatura russa. 

Em sua guerra particular, os dois Ivans envolvem todas as esferas burocráticas e autoridades da cidade. A caracterização dessas figuras públicas é, provavelmente, o ponto alto da obra: todos são absolutamente ineptos, retratados como se tivessem sido selecionados para os cargos justamente por sua incompetência. O juiz não demonstra o menor interesse pelos processos jurídicos e prefere passar o expediente no tribunal fofocando com os presentes. O delegado foi atingido na perna durante o período de guerra, de modo que subir um simples lance de escadas se transforma para ele em uma verdadeira jornada épica. Para completar o cenário, o único policial da cidade é maneta e um tanto obtuso.

Gógol revela-se um mestre refinado da ironia, recurso visível no trecho em que descreve a geografia de Mirgorod como uma localidade encantadora. Na realidade, o lugarejo é um pacato fim de mundo onde os moradores estendem roupas para secar nas cercas das casas e a praça central é inteiramente ocupada por um lamaçal permanente; o escritor, contudo, narra o ambiente como se estivesse contemplando um espaço paradisíaco.

As descrições detalhadas, aliás, constituem outro grande destaque estilístico. Gógol frequentemente inicia os parágrafos afirmando ser incapaz de descrever determinado objeto ou situação e que, portanto, não o fará — para, logo em seguida, passar a descrever o elemento minuciosamente, nos mínimos detalhes.

Até mesmo os títulos dos capítulos são aproveitados como ferramentas de humor, a exemplo deste: “No qual o leitor saberá facilmente tudo que nele se contém”. Este recurso ilustra como a obra permanece atual mesmo quase dois séculos após o seu lançamento. Parece que Nikolai Gógol está, de certa forma, zombando dos leitores contemporâneos que detestam receber qualquer tipo de spoiler sobre o enredo.

Tive a oportunidade de ler A Briga dos Dois Ivans inserida em uma excelente antologia do conto russo publicada pela editora Lux, mas a novela em formato de volume solo encontra-se facilmente disponível no mercado editorial brasileiro em uma edição da editora Grua.

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