sábado, outubro 17, 2026

Perry Rhodan: O Trimatador

 


Sempre considerei William Voltz o melhor escritor da série Perry Rhodan justamente por ele carregar referências culturais que transcendem a literatura alemã e, principalmente, os limites da ficção científica convencional. O volume #257, assinado por ele, oferece uma excelente demonstração desse diferencial estilístico.

Na trama, Perry Rhodan encontra-se a bordo da nave capitânia Crest na zona proibida governada pelos Senhores da Galáxia. Ele precisa urgentemente ser avisado de que a revolta dos maahks estendeu-se até Andromeda, um desdobramento político que está prestes a transformar aquela porção do universo em um violento campo de batalha. Com as comunicações via rádio totalmente bloqueadas, a única solução viável é o envio de uma nave de pequeno porte. É aqui que surge o elemento mais interessante da história: a embarcação é comandada pelo capitão Ari Tratlo e pelo tenente Kaan Baroon.

Voltz constrói a identidade de cada um deles por meio de curtas introduções textuais logo no início do volume. Ari Tratlo é apresentado assim:

“Uma única vez em toda a história cheia de aventuras de Meredi IV um homem conseguiu matar ao mesmo tempo um Tarak, um randler e um pássaro de seis asas. Este homem pôde usar o nome de trimatador. Os habitantes de Meredi IV passaram a venerá-lo tanto que quiseram fazer dele o presidente de seu planeta. Seu nome era Ari Tratlo. Não quis ser presidente. Preferiu servir na USO.”

Já Kaan Baroon, nascido no planeta paradisíaco Reyan — um mundo onde as manifestações artísticas são extremamente valorizadas —, é descrito da seguinte forma:

“Uma única vez em toda a história de Reyan um artista conseguiu adquirir fama simultaneamente com um romance, uma pintura e uma peça de música. Depois de ele ter criado suas grandes obras, os homens que habitavam o planeta Reyan passaram a venerá-lo tanto que quiseram fazer dele o presidente do planeta. Recusou-se a ser presidente. Preferiu servir na USO.”

No decorrer da missão, a nave em que a dupla viaja é abatida, caindo em um planeta desértico onde os tefrodenses instalaram uma misteriosa fábrica voltada à produção de objetos que se assemelham a moedas, mas cuja real utilidade é desconhecida. A partir daí, o enredo passa a girar em torno da luta do grupo pela sobrevivência enquanto aguarda o resgate pela Crest — um episódio que, em paralelo, joga luz sobre alguns dos segredos tecnológicos dos tefrodenses.

A capa original alemã. 


Contudo, o que torna este livro verdadeiramente especial não são as sequências de ação ou as revelações cósmicas, mas sim a excelente dinâmica de convivência forçada entre dois homens de personalidades diametralmente opostas. Essa fricção rende diversas situações humorísticas memoráveis: dois oficiais em constante pé de guerra precisando cooperar para subsistir em um ecossistema hostil e sob cerrado ataque inimigo.

Se despirmos a narrativa de suas roupagens de ficção científica, essa estrutura assemelha-se profundamente à célebre novela A briga dos dois Ivans, de Nikolai Gógol. A obra do autor russo foca inteiramente em dois vizinhos de temperamentos completamente distintos que, de grandes amigos, transformam-se em rivais ferrenhos e passam o livro inteiro em um cômico e infindável atrito cotidiano.

Aparentemente, William Voltz transportou para o universo de Perry Rhodan o humor sutil, irônico e humanista da literatura russa. Essa refinada contribuição, por si só, já seria suficiente para garantir a ele um lugar de destaque no panteão dos grandes autores da saga.

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