Sempre considerei William Voltz o melhor escritor da série Perry
Rhodan justamente por ele carregar referências culturais que transcendem a
literatura alemã e, principalmente, os limites da ficção científica
convencional. O volume #257, assinado por ele, oferece uma excelente
demonstração desse diferencial estilístico.
Na trama, Perry Rhodan encontra-se a bordo da nave capitânia
Crest na zona proibida governada pelos Senhores da Galáxia. Ele precisa
urgentemente ser avisado de que a revolta dos maahks estendeu-se até Andromeda,
um desdobramento político que está prestes a transformar aquela porção do
universo em um violento campo de batalha. Com as comunicações via rádio
totalmente bloqueadas, a única solução viável é o envio de uma nave de pequeno
porte. É aqui que surge o elemento mais interessante da história: a embarcação
é comandada pelo capitão Ari Tratlo e pelo tenente Kaan Baroon.
Voltz constrói a identidade de cada um deles por meio de
curtas introduções textuais logo no início do volume. Ari Tratlo é apresentado
assim:
“Uma única vez em toda a história cheia de aventuras de Meredi IV um homem conseguiu matar ao mesmo tempo um Tarak, um randler e um pássaro de seis asas. Este homem pôde usar o nome de trimatador. Os habitantes de Meredi IV passaram a venerá-lo tanto que quiseram fazer dele o presidente de seu planeta. Seu nome era Ari Tratlo. Não quis ser presidente. Preferiu servir na USO.”
Já Kaan Baroon, nascido no planeta paradisíaco Reyan — um
mundo onde as manifestações artísticas são extremamente valorizadas —, é
descrito da seguinte forma:
“Uma única vez em toda a história de Reyan um artista conseguiu adquirir fama simultaneamente com um romance, uma pintura e uma peça de música. Depois de ele ter criado suas grandes obras, os homens que habitavam o planeta Reyan passaram a venerá-lo tanto que quiseram fazer dele o presidente do planeta. Recusou-se a ser presidente. Preferiu servir na USO.”
No decorrer da missão, a nave em que a dupla viaja é
abatida, caindo em um planeta desértico onde os tefrodenses instalaram uma
misteriosa fábrica voltada à produção de objetos que se assemelham a moedas,
mas cuja real utilidade é desconhecida. A partir daí, o enredo passa a girar em
torno da luta do grupo pela sobrevivência enquanto aguarda o resgate pela Crest
— um episódio que, em paralelo, joga luz sobre alguns dos segredos tecnológicos
dos tefrodenses.
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| A capa original alemã. |
Contudo, o que torna este livro verdadeiramente especial não
são as sequências de ação ou as revelações cósmicas, mas sim a excelente
dinâmica de convivência forçada entre dois homens de personalidades
diametralmente opostas. Essa fricção rende diversas situações humorísticas
memoráveis: dois oficiais em constante pé de guerra precisando cooperar para
subsistir em um ecossistema hostil e sob cerrado ataque inimigo.
Se despirmos a narrativa de suas roupagens de ficção
científica, essa estrutura assemelha-se profundamente à célebre novela A
briga dos dois Ivans, de Nikolai Gógol. A obra do autor russo foca
inteiramente em dois vizinhos de temperamentos completamente distintos que, de
grandes amigos, transformam-se em rivais ferrenhos e passam o livro inteiro em
um cômico e infindável atrito cotidiano.
Aparentemente, William Voltz transportou para o universo de Perry
Rhodan o humor sutil, irônico e humanista da literatura russa. Essa
refinada contribuição, por si só, já seria suficiente para garantir a ele um
lugar de destaque no panteão dos grandes autores da saga.


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