domingo, novembro 01, 2026

MAD 25 - Alice no país das armadilhas

 


Na época da MAD 25 já fazia algum tempo que eu não colaborava com a revista e andava bastante ocupado. Mas o editor Raphael Fernandes me fez um convite irrecusável: escrever uma história para o grande Roger Cruz, famoso pela sua fase nos X-men. Tratava-se de uma sátira do filme Alice no país das maravilhas, que ainda ia estrear estrear. Eu resolvi fazer uma proposta diferente: ao invés  de ser a Alice do filme, seria uma Alice no país das armadilhas). A pobre e inocente Alice cai em um bueiro e vai parar em um país muito diferente do Brasil - repleto de malandros e políticos corruptos. Eu conhecia o traço de Roger Cruz e sabia que o cara era fera, mas não imaginava que ele iria se adaptar tão bem ao gênero humor. A pobre Alice cai em todos os golpes possíveis. Eu pensei na história como sendo um livro infantil e ele conseguiu pegar perfeitamente o espírito da HQ ao fazer um requadro pouco convencional. 

Hipocondríacos

 

A moça irrompeu, esbaforida, pela porta, enquanto a enfermeira terminava de aplicar o soro.
    - Ei, não pode entrar agora!
    - Rafael, Rafael! Você está bem? Vim correndo quando soube que você estava doente.
    - Por favor, ainda não é o horário de visitas. Como a senhora conseguiu entrar? - perguntou a enfermeira, puxando a moça para fora.
    - Não, não me afaste do meu Rafael! Por favor, me diga: ele está bem?
    Nisso o doente se mexeu no leito, murmurando:
    - Beatriz? Você está aí?
    Foi o bastante. A mulher se desvencilhou dos braços da enfermeira e se jogou aos pés da cama.
    - Rafael, Rafael, você ainda está vivo?
    - Beatriz, você está aí? Eu não consigo vê-la...
    - Mas ele só está... - interveio a enfermeira.
    - Santo Deus, o que fizeram com o meu amado?! Você consegue me ouvir, querido?
    - Beatriz? É você mesmo? Agora que vou morrer, quero que saiba que te amo...
    - Oh, Rafael! Eu também te amo. Do fundo do meu coração...
    - Beatriz, por favor, me dê um último beijo.
    Houve um minuto de silêncio, ao fim do qual Beatriz pulou sobre ele, num último e ardoroso beijo de amor. A enfermeira tentou impedi-la, mas era impossível até mesmo saber quem era quem no meio dos aparelhos, seringas e tubos.
    - Querida, você sabe o quanto eu amo você. - garantiu ele, depois que se desgrudaram. Não chore por mim. Também quero que você arranje outro homem. Não perca sua juventude por mim...
    - Não, não me diga isso, meu amor, você vai sobreviver... E eu jamais terei outro homem...
    Ficaram em silêncio. Beatriz enxugava as lágrimas com um lenço.
    - Querida, agora que estou morrendo, acho que deveria saber de uma coisa. Lembra-se de Ana?
    - A Ana?
    - Sim, aquela estudava com você quando nos conhecemos...
    - Rafael, você não...
    - Eu tive um caso com ela.
    - Não, não acredito... não é possível!
    Ficou repetindo isso, balançando a cabeça em negativa, a enfermeira parada num canto, os olhos arregalados, sem saber o que fazer....
    - Beatriz... agora que estou morrendo, não faz mais sentido esconder meu caso com Maria...
    - A minha melhor amiga? Desgraçada!
    - Calma, foi coisa pequena: durou só dois anos...
    - Dois anos? Seu safado! Cretino!
    - Cretino, eu? Pensa que não sei do Paulo?
    Beatriz ficou estática.
    - Paulo?
    - Pensa que não sei? Tenho até fotos...
    - Seu cretino! - gritou a mulher e pulou no pescoço dele.
    - Gasp, gasp - fez o doente, envolvendo com as mãos o pescoço de Beatriz, que caiu no chão, sob ele.
    Rolaram pelo chão do hospital até perderem as forças e só então caíram nos braços um do outro, jurando:
    - Beatriz, eu te amo.
    - Também te amo, Rafael.
    A enfermeira ficou alguns instantes estarrecida, depois saiu do quarto, murmurando consigo:
    - Esses hipocondríacos... e era só uma infecção intestinal.

Supremo - Imagine Isso...

 


Uma das características mais marcantes da revista Justice League of America sob a edição de Julius Schwartz eram as capas chamativas e, por vezes, surreais. Frequentemente, essas capas eram concebidas antes mesmo do roteiro, desafiando os escritores a criarem tramas que justificassem aquelas imagens absurdas. Alan Moore explora com maestria essa metalinguagem em Supremo #48.

Na trama moldura, Supremo reúne o grupo anteriormente conhecido como Aliados para resgatar as almas do Professor Meia-Noite e de sua ajudante, Sombria. Enquanto os heróis viajam, eles relembram aventuras passadas, o que serve de pretexto para a introdução de capas fictícias de "edições antigas", enquanto o diálogo de fundo sintetiza a história.

A capas reproduziam a estética da Liga da Justiça clássica. 


A primeira capa apresenta o embate contra Florax, o Dominador, uma planta senciente que colonizou cidades com seu perfume hipnotizante. O vilão foi neutralizado pelo Caçador Espacial, cuja fisiologia única o tornava imune ao aroma, permitindo que o destruísse com um herbicida. A arte de Rick Veitch (que emulava com perfeição o traço da Era de Prata) reproduz todos os maneirismos da época: o título em moldura, as fontes clássicas e o rodapé listando os heróis presentes — uma tática de marketing de Schwartz para fisgar os leitores nas bancas.

Glory reclama de ser presa: ecos da origem bondagista da Mulher Maravilha. 


A capa mais intrínseca à trama principal mostra os heróis em grilões, puxando uma carroça de pedra sob o chicote do Escravizador de Almas. Aqui, Moore insere uma referência jocosa e ácida à origem "bondagista" da Mulher-Maravilha (criada por William Moulton Marston). A personagem Glory comenta com ironia: “Eu não gostava desse negócio de escravidão, sabe? Parece que entre os anos 40 e 60 eu acabava amarrada mês sim, mês não”.

Crítica aos encontros dos Aliados: o que era novidade virou fórmula. 


Moore também utiliza esses diálogos para criticar o esgotamento de fórmulas editoriais, como os encontros anuais entre grupos de épocas ou dimensões diferentes:

“Na primeira vez foi legal, mas depois nos encontrávamos todos os anos... ou eram duplicatas malignas, ou aliados de mundos paralelos. No fim, só sabíamos quem era quem por pequenas diferenças nos uniformes!”

O desenhista Mark Pajarillo evita desenhar cenários, essenciais para a HQ. 


Se as inserções de Rick Veitch são um deleite de saudosismo e sátira, a arte da trama principal é decepcionante. Enquanto o roteiro de Moore mergulha em conceitos densos do subconsciente — elementos que ele refinaria anos depois em Promethea —, o trabalho de Mark Pajarillo é visualmente pífio.

Seguindo os vícios do estúdio de Rob Liefeld, Pajarillo negligencia os cenários (essenciais para entender a história), substituindo-os por fundos confusos e hachuras excessivas que desorientam a leitura. É o paradoxo máximo da fase Image de Moore: um roteiro de um gênio da literatura gráfica preso em uma estética que priorizava músculos e poses em detrimento da narrativa visual e da profundidade de campo.

Livro discute a cultura pop

 


 

Cultura pop, comunicação e linguagem é uma antologia organizada por Ivan Carlo Andrade de Oliveira (Gian Danton) e Rafael Senra. Divididos em artigos e ensaios, os textos abordam os mais diversos temas dentro do leque da cultura pop.

No âmbito dos quadrinhos, começamos com uma análise da adaptação da história de Conan "A torre do elefante", passando pelo conceito de Gynoid no mangá "Hyper future vision", e até uma interpretação da jornada do herói a partir da saga "Estação das brumas" em Sandman. No campo da música, temos uma abordagem semiótica da capa do álbum "Artpop" da cantora Lady Gaga, e, na interface entre literatura e outras mídias, uma análise de adaptações da obra "The Witcher".

Para completar o livro, os ensaios tratam de representações da Grande Depressão em dois quadrinhos, além das obras de Chris Ware e, para concluir, uma reflexão sobre o papel de Jim Shooter no comando da editora Marvel Comics. 

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